{"id":196997,"date":"2022-08-02T01:42:58","date_gmt":"2022-08-02T04:42:58","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/pacientes-sofrem-tambem-com-a-incompreensao\/"},"modified":"2022-08-02T01:42:58","modified_gmt":"2022-08-02T04:42:58","slug":"pacientes-sofrem-tambem-com-a-incompreensao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/02\/pacientes-sofrem-tambem-com-a-incompreensao\/","title":{"rendered":"Pacientes sofrem tamb\u00e9m com a incompreens\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>??s 11h de 25 de maio, uma quarta-feira, Genivaldo dos Santos, 38 anos, trafegava, de motocicleta, no km 180 da BR-101, em Umba\u00faba, em Sergipe. No bolso, carregava uma cartela de comprimidos, parte do tratamento para uma doen\u00e7a com a qual fora diagnosticado aos 18. Abordado com trucul\u00eancia por tr\u00eas policiais rodovi\u00e1rios federais porque n\u00e3o usava capacete, o homem ficou nervoso e questionou a opera\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Segundo o sobrinho, que testemunhou a cena, mesmo informados que Genivaldo tinha esquizofrenia, os agentes bateram nele e o encerraram no cambur\u00e3o da viatura, n\u00e3o sem antes jogarem spray t\u00f3xico no compartimento. Quase seis horas depois, o laudo do Instituto M\u00e9dico Legal (IML) apontou a causa do \u00f3bito. Assim como centenas de milhares de doentes mentais que padeceram no regime nazista alem\u00e3o, exterminados em c\u00e2maras de g\u00e1s, ele morrreu por asfixia mec\u00e2nica e insufici\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A viol\u00eancia contra pacientes psiqui\u00e1tricos, incluindo os com esquizofrenia, \u00e9 documentada h\u00e1 mil\u00eanios. At\u00e9 muito recentemente, eles foram isolados, tratados como p\u00e1rias, julgados, condenados e executados maci\u00e7amente tanto em atos genocidas, como o j\u00e1 bem conhecido exterm\u00ednio em instala\u00e7\u00f5es nazistas, quanto em epis\u00f3dios como o que matou Genivaldo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Diversos estudos constataram que, comparado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral, pacientes com dist\u00farbios mentais sofrem mais viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Um deles, realizado com dados de sete pa\u00edses europeus, mostrou que pessoas com sintomas psic\u00f3ticos relatam um alto \u00edndice de vitimiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica: at\u00e9 37,8% sofreram algum ataque do tipo no ano anterior \u00e0 pesquisa. N\u00e3o \u00e0 toa, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), pessoas com esquizofrenia vivem at\u00e9 25 anos menos do que as que n\u00e3o t\u00eam o dist\u00farbio. Os fatores que contribuem para a mortalidade precoce incluem neglig\u00eancia com cuidados m\u00e9dicos e suic\u00eddio.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Viol\u00eancia\u00a0<\/strong><\/div>\n<div><strong>dentro de casa\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Outro artigo, divulgado na Revista de Epidemiologia e Sa\u00fade P\u00fablica, uma publica\u00e7\u00e3o francesa, constatou que 82,1% das mulheres e 86,1% dos homens com diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico foram vitimizados ao longo da vida. No Brasil, um estudo de revis\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com dados nacionais encontrou percentuais de viol\u00eancia contra 57% das mulheres e 58% dos homens. Os principais algozes, mostrou a pesquisa, foram os pr\u00f3prios parceiros, mas tamb\u00e9m houve relatos de agress\u00f5es dentro de institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, por outros internos e por funcion\u00e1rios. ???Os lugares de ocorr\u00eancia foram predominantemente o ambiente dom\u00e9stico para mulheres e as ruas para homens???, diz o trabalho, publicado na Revista de Psiquiatria Cl\u00ednica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???H\u00e1 um estigma que associa muito o paciente de esquizofrenia \u00e0 viol\u00eancia. Por\u00e9m, eles s\u00e3o muito mais v\u00edtimas do que algozes???, afirma o psiquiatra Leonardo Palmeira, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor, entre outros, do livro ???Entendendo a esquizofrenia: como a fam\u00edlia pode ajudar no tratamento???. Embora os pacientes possam cometer atos violentos, estudos epidemiol\u00f3gicos constataram que isso \u00e9 mais comum em um pequeno subgrupo que tem hist\u00f3rico de viol\u00eancia familiar e de abuso de subst\u00e2ncias.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Al\u00e9m disso, especialistas associam o estere\u00f3tipo ao fato de not\u00edcias sobre crimes cometidos por pacientes mentais receberem mais destaque do que os perpetrados por pessoas sem diagn\u00f3stico. Filmes e seriados tamb\u00e9m contribuem para isso. Um artigo publicado na revista Psychiatric Services mostrou que, em 41 filmes estudados, a maioria dos personagens com esquizofrenia cometia atos violentos contra eles mesmos ou outras pessoas, e quase um ter\u00e7o deles era caracterizado como homicidas em potencial.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???O setor de entretenimento \u00e9 frequentemente citado como um dos contribuintes para a forma\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7o de desinforma\u00e7\u00e3o e atitudes negativas sobre a doen\u00e7a mental???, relata a autora, Patricia R. Owen, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de St. Mary, nos Estados Unidos. ???Os filmes populares s\u00e3o considerados influ\u00eancias especialmente poderosas na forma\u00e7\u00e3o de atitudes sobre a doen\u00e7a mental???, destaca.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Outro equ\u00edvoco sobre a esquizofrenia, segundo o psiquiatra Leonardo Palmeira, refere-se ao tratamento. Embora os medicamentos sejam importantes para lidar com os chamados sintomas positivos ??? alucina\u00e7\u00f5es, del\u00edrios, confus\u00e3o no pensamento e movimentos descoordenados ???, eles s\u00e3o apenas parte de uma abordagem que, de acordo com o pesquisador da UFRJ, precisa ser multifatorial.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo vivem com esquizofrenia, mas muitas n\u00e3o recebem o tratamento e apoio de que precisam???, destaca Gordon Lavigne, CEO da organiza\u00e7\u00e3o internacional Schizophrenia &#038; Psychosis Action Alliance. ???Essa lacuna \u00e9 causada pelas complexidades da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelo estigma social, limita\u00e7\u00f5es do sistema de sa\u00fade, discrimina\u00e7\u00e3o e baixo reembolso do tratamento???, concorda. ???A esquizofrenia \u00e9 uma doen\u00e7a cerebral trat\u00e1vel que merece a mesma urg\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o que qualquer outra doen\u00e7a cr\u00f4nica baseada em \u00f3rg\u00e3os???, acredita.\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Projeto\u00a0<\/strong><\/div>\n<div><strong>terap\u00eautico\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Para Palmeira, o erro come\u00e7a na abordagem. O psiquiatra lembra que a maioria dos pacientes se assusta com o diagn\u00f3stico e, como os sintomas positivos parecem reais, pode se negar a receber tratamento. Em vez de apenas prescrever os rem\u00e9dios, o m\u00e9dico ressalta a necessidade de questionar as pessoas com esquizofrenia sobre como a vida delas tem sido afetada pelos sintomas negativos ??? a vontade de se isolar, o des\u00e2nimo para fazer qualquer coisa, a perda de interesse por coisas que antes eram prazerosas. ???Muitas vezes, o paciente deixa de estudar, de trabalhar, por causa da esquizofrenia. ?? nisso que o m\u00e9dico deve focar e apresentar um projeto terap\u00eautico do qual a medica\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma parte???, diz.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Terapia familiar, treinamento vocacional, reabilita\u00e7\u00e3o cognitiva e participa\u00e7\u00e3o em atividades art\u00edsticas comunit\u00e1rias s\u00e3o algumas das estrat\u00e9gias que ajudam o paciente a recuperar a funcionalidade. ????? perfeitamente poss\u00edvel uma recupera\u00e7\u00e3o sem reca\u00eddas, e muitos podem at\u00e9 n\u00e3o precisar mais de rem\u00e9dios???, afirma Palmeira. Para isso, por\u00e9m, a sociedade precisa se envolver. ???A incompreens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos sintomas faz muitas pessoas criticarem o paciente e, quando ele se retrai, aumentam os riscos de crises, medicamentos e hospitaliza\u00e7\u00f5es???, diz.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A partir da d\u00e9cada de 1970, o Brasil come\u00e7ou a discutir uma nova abordagem terap\u00eautica, que j\u00e1 vinha sendo adotada, 20 anos antes, nos Estados Unidos e na Europa. Em 2001, a reforma psiqui\u00e1trica foi sancionada no pa\u00eds, com a substitui\u00e7\u00e3o dos manic\u00f4mios e hosp\u00edcios pelos centros de aten\u00e7\u00e3o psicossocial (CAPs). Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, hoje existem mais de 2,6 mil espalhados pelo pa\u00eds. O n\u00famero, por\u00e9m, \u00e9 considerado insuficiente: somente com diagn\u00f3stico de esquizofrenia, a estimativa epidemiol\u00f3gica \u00e9 de entre um e sete casos por 10 mil habitantes.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O sucateamento da \u00e1rea da sa\u00fade mental, que sofreu cortes de programas nos \u00faltimos seis anos, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o de especialistas. ???Os tratamentos, que j\u00e1 eram limitados, sofreram um retrocesso enorme desde 2016, com sucateamento dos servi\u00e7os comunit\u00e1rios???, lamenta Leonardo Palmeira.\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Depoimento\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>&#8220;N\u00e3o sou um diagn\u00f3stico&#8221;<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Aos 30 anos, tive o primeiro surto. Comecei com muita mania de persegui\u00e7\u00e3o. Eu via as pessoas e achava que estavam falando de mim. Para fugir delas, larguei o emprego de operador de som, sa\u00ed da minha cidade (Tim\u00f3teo, MG) e comecei a viajar. Sete meses depois, tive outro surto. Achava que as pessoas queriam me matar. Fui embora para Belo Horizonte e cheguei a tomar veneno de rato. Eu n\u00e3o tinha diagn\u00f3stico e achava que essas vozes eram de ordem espiritual. Eu tinha um complexo messi\u00e2nico, achava que tinha de ser sacrificado, sentia uma culpa exagerada, porque, na esquizofrenia, tudo \u00e9 exagerado. Desde os 17 anos, eu morava sozinho. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m tinha esquizofrenia, mas ela negava.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em BH, passei a morar na rua. Tive a sorte de encontrar uma boa pessoa que me ajudou a ter tratamento e aux\u00edlio-doen\u00e7a. Mas as consultas sempre foram muito r\u00e1pidas, os m\u00e9dicos n\u00e3o me ouviam e, em cinco minutos, preenchiam uma receita. Tive muito efeito colateral, andava sem parar, como se a perna tivesse vontade pr\u00f3pria, a musculatura n\u00e3o relaxava. Depois eu soube que esse efeito pode ser diminu\u00eddo com o uso de outro medicamento, mas, morando nas ruas, eu nem imaginava isso.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Eu tamb\u00e9m sentia muito sono e lentid\u00e3o, n\u00e3o conseguia trabalhar. At\u00e9 que fui atendido por um bom psiquiatra em um hospital. Melhorei os sintomas e comecei a pesquisar na internet, fiz um curso de computa\u00e7\u00e3o em 2012 e, ent\u00e3o, passei a me informar melhor e ver que n\u00e3o estava sozinho, que n\u00e3o era s\u00f3 comigo. Isso foi fundamental no meu tratamento. Ter a consci\u00eancia do problema pode n\u00e3o resolver, mas ajuda muito. De vez em quando, ainda ou\u00e7o vozes, mas eu consigo raciocinar e perceber que n\u00e3o s\u00e3o reais. Por exemplo, pensei que uma pessoa que estava a 30m estava rindo de mim. Mas, ent\u00e3o, vi que isso era imposs\u00edvel, porque eram sussurros, e ela estava distante.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>N\u00e3o somos culpados, mas a sociedade sempre joga a culpa na gente por tudo. Al\u00e9m de sofrer com o transtorno, temos de lidar com o preconceito. Voc\u00ea tem de ser perfeito. As pessoas falam que quem tem esquizofrenia \u00e9 violento, eu tinha at\u00e9 medo de me tornar violento por causa disso e ficava pensando: &#8216;mas eu nunca nem bati em ningu\u00e9m!&#8217; Mas, me conhecendo melhor, hoje, sei que n\u00e3o sou um r\u00f3tulo, n\u00e3o sou um diagn\u00f3stico.???\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong> J\u00falio C\u00e9sar, 53 anos. O entrevistado pediu para n\u00e3o ter o sobrenome publicado\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>??s 11h de 25 de maio, uma quarta-feira, Genivaldo dos Santos, 38 anos, trafegava, de motocicleta, no km 180 da BR-101, em Umba\u00faba, em\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":196998,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-196997","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=196997"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196997\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=196997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=196997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=196997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}