{"id":199236,"date":"2022-08-05T06:45:56","date_gmt":"2022-08-05T09:45:56","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/dormir-para-esquecer-a-fome-diz-mae-retrato-da-carencia-no-brasil\/"},"modified":"2022-08-05T06:45:56","modified_gmt":"2022-08-05T09:45:56","slug":"dormir-para-esquecer-a-fome-diz-mae-retrato-da-carencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/05\/dormir-para-esquecer-a-fome-diz-mae-retrato-da-carencia-no-brasil\/","title":{"rendered":"&#8220;Dormir para esquecer a fome&#8221;, diz m\u00e3e, retrato da car\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>???Tenho medo da fome???, disse C\u00e9lia Arquimino Barros, dentro do barrac\u00e3o de tr\u00eas c\u00f4modos onde mora no Bairro S\u00e3o Cosme, em Santa Luzia, na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte. Aos 46 anos, ela desdobra-se para criar os seis filhos. ????? muito triste n\u00e3o ter nada para comer nos arm\u00e1rios. J\u00e1 teve dias em que dei \u00e1gua com a\u00e7\u00facar para meu beb\u00ea para ver se ele parava de chorar. Tentava fazer ele dormir para esquecer a fome???, declara.\u00a0 Retrato da fome que aflige 33 milh\u00f5es de pessoas no Brasil, a hist\u00f3ria de C\u00e9lia ganhou repercuss\u00e3o ap\u00f3s seu filho Miguel, de 11 anos, ligar para a pol\u00edcia e pedir ajuda para a fam\u00edlia.<\/p>\n<\/div>\n<div>Nos \u00faltimos dias, o card\u00e1pio da fam\u00edlia se baseou em fub\u00e1 e farinha. Ela relatou que estava sem comprar alimentos havia cerca de tr\u00eas semanas. ???Primeiro come\u00e7amos comendo s\u00f3\u00a0 macarr\u00e3o. A\u00ed acabou e ficou o fub\u00e1. N\u00e3o tinha op\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia deixar com fome. Ent\u00e3o, eu fazia o mingau doce de manh\u00e3 e \u00e0 noite um angu de fub\u00e1, porque n\u00e3o tinha mais nada???, conta. Segundo C\u00e9lia, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a piorar h\u00e1 cerca de sete meses, quando ela teve o Bolsa Fam\u00edlia bloqueado. ???O beb\u00ea era o que mais me dava trabalho, porque ele chorava muito. Ele n\u00e3o entende. Chorava o tempo todo???, relata.<\/p>\n<\/div>\n<div>A fome \u00e9 descrita pela pequena Sara, de 3, filha de C\u00e9lia, como uma dor no est\u00f4mago como se fosse um soco. ???Ela ficava com dor na barriga de fome. O Miguel fez 11 anos e olha como ele \u00e9 miudinho. Ele j\u00e1 \u00e9 um pouco an\u00eamico, por causa da defici\u00eancia na alimenta\u00e7\u00e3o???, conta com pesar na voz. M\u00e3e solo, ela cuida tamb\u00e9m de tr\u00eas netos, com idades entre 1 e 4 anos, que moram com a m\u00e3e deles em um barrac\u00e3o ao lado. ???Eu estava desesperada, n\u00e3o estava aguentando mais ver aquela situa\u00e7\u00e3o e nem pedir na rua, porque as pessoas acham que voc\u00ea est\u00e1 com pregui\u00e7a, que voc\u00ea n\u00e3o quer trabalhar, e eles n\u00e3o entendem a situa\u00e7\u00e3o???, conta C\u00e9lia.<\/p>\n<\/div>\n<div>Mesmo quando recebia o aux\u00edlio do governo, ela diz que o dinheiro j\u00e1 n\u00e3o era suficiente para sustentar a fam\u00edlia. ???Recebia R$ 535. Com o pre\u00e7o das coisas, j\u00e1 n\u00e3o comprava nada, n\u00e3o dava para manter muito tempo a casa. Voc\u00ea faz uma compra que n\u00e3o d\u00e1 para 15 dias. Ainda mais com um beb\u00ea em casa???, afirma. Divorciada do pai das crian\u00e7as, ela est\u00e1 desempregada e, desde o in\u00edcio da pandemia, n\u00e3o consegue mais bicos para ajudar na renda. ???O pai manda s\u00f3\u00a0 R$ 250. Ele tamb\u00e9m est\u00e1 desempregado, o que ele arruma \u00e9 o que ele manda. Mas ele d\u00e1 isso s\u00f3 de m\u00eas em m\u00eas. ?? s\u00f3 aquilo e acabou???, conta. Depois da liga\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a para o 190, a pr\u00f3pria Pol\u00edcia Militar iniciou campanha para arrecadar doa\u00e7\u00f5es para a fam\u00edlia, entregues ontem.<\/p>\n<\/div>\n<div>Paula Fernandes Pessoa, de 36, vive realidade semelhante \u00e0 de C\u00e9lia. Atualmente, ela tamb\u00e9m est\u00e1 desempregada e \u00e9 m\u00e3e solo de tr\u00eas crian\u00e7as: Pedro de 13, Rebeca, de 2, e Samuel, de 2 meses. Al\u00e9m dos filhos, Paula mora com o irm\u00e3o no Morro do Papagaio, Regi\u00e3o Centro-Sul de BH. A fam\u00edlia \u00e9 assistida pela Central ??nica das Favelas em Minas Gerais (Cufa-MG) desde que Paula descobriu que estava gr\u00e1vida do filho mais novo. ???S\u00f3 o aux\u00edlio do governo n\u00e3o est\u00e1 dando para alimentar todo mundo. Quando cheguei nessa situa\u00e7\u00e3o de abrir o arm\u00e1rio e ver que n\u00e3o tinha nada, meu compadre me falou da Cufa.??? Desde ent\u00e3o, a fam\u00edlia recebe cesta b\u00e1sica e assist\u00eancia da entidade, com doa\u00e7\u00f5es de botij\u00e3o de g\u00e1s e outros alimentos.<\/p>\n<\/div>\n<div>???Antes da pandemia, eu trabalhava de faxineira em um pr\u00e9dio perto da minha casa.??? Agora, com o filho pequeno, n\u00e3o consegue retomar a atividade. Paula passou por momentos de desespero, sem ter o que dar de comer para os filhos. ????? o pior sentimento do mundo, como se voc\u00ea n\u00e3o merecesse ter os filhos que tem. A crian\u00e7a olhar para voc\u00ea com os olhos brancos, voc\u00ea olhar para o arm\u00e1rio e n\u00e3o ter nada para dar. Pensa em fazer alguma coisa, mas sabe que aquilo n\u00e3o vai matar a fome da crian\u00e7a.???<\/p>\n<h2>Sa\u00fade em perigo<\/h2>\n<p><\/p>\n<div>A nutricionista Brenda Ribas Matoso afirma que a m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o prejudica a sa\u00fade das crian\u00e7as, deixando-as sujeitas a dificuldades de aprendizagem. ???S\u00e3o tantos riscos que \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil saber por onde come\u00e7ar. Isso prejudica principalmente crian\u00e7as e adolescentes em fase de crescimento, porque elas precisam de nutrientes para crescer e se desenvolver???, comenta. Quanto mais avan\u00e7ado o n\u00edvel de inseguran\u00e7a alimentar, maior o risco de desnutri\u00e7\u00e3o. ???O ideal seria que as pessoas tenham acesso a pelo menos o arroz e feij\u00e3o, al\u00e9m do ovo, que daria suporte de amino\u00e1cidos essenciais e\u00a0 garantiram acesso a nutri\u00e7\u00e3o. E estamos falando de alimentos b\u00e1sicos???, complementa.<\/p>\n<\/div>\n<div>Esse cen\u00e1rio tamb\u00e9m traz problemas psicol\u00f3gicos ??? A crian\u00e7a n\u00e3o consegue crescer, pode ter problemas est\u00e9ticos, como de cabelo, pele mais fr\u00e1gil. Pode acarretar em anemia pelo n\u00e3o consumo de ferro. E uma crian\u00e7a an\u00eamica n\u00e3o tem desenvolvimento cognitivo adequado, podendo ter problemas de mem\u00f3ria, por exemplo. S\u00e3o preju\u00edzos muito grandes???, afirma a nutricionista. Ela tamb\u00e9m refor\u00e7a que a crian\u00e7a precisa ter aten\u00e7\u00e3o ao ferro: ???Porque est\u00e3o em fase de crescimento e precisam de uma quantidade de ferro suficiente, al\u00e9m das vitaminas do complexo B, para terem desenvolvimento adequado.\u00a0 E o zinco, que tamb\u00e9m \u00e9 superimportante para essa fase???.<\/p>\n<h2><b>Vulnerabilidade cresce<\/b><\/h2>\n<p><\/p>\n<div>O presidente da Central ??nica das Favelas em Minas Gerais (Cufa-MG), Francis Henrique, explica que antes da pandemia, o atendimento a fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade alimentar era controlado. ???Eram fam\u00edlias que nos procuravam porque estavam com necessidade de alimenta\u00e7\u00e3o. Atend\u00edamos e encaminh\u00e1vamos para programas sociais e d\u00e1vamos todo o suporte para que elas tivessem uma base ao longo de um tempo. No meio do processo, muitas arrumavam emprego e sua situa\u00e7\u00e3o mudava. ?? l\u00f3gico que havia algumas situa\u00e7\u00f5es mais permanentes.???<\/p>\n<\/div>\n<div>Ele diz que ap\u00f3s a pandemia a mis\u00e9ria cresceu muito. ???A propor\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias est\u00e3o passando fome aumentou e o pior de tudo, sem perspectiva de melhoria da situa\u00e7\u00e3o a curto prazo.??? S\u00e3o pessoas que j\u00e1 procuraram emprego e sem conseguir acabam ficando desanimadas. O trabalho da entidade \u00e9 tentar amenizar essa realidade.<\/p>\n<\/div>\n<div>Francis diz que o caso da fam\u00edlia de Miguel \u00e9 um reflexo do que acontece em v\u00e1rias outras. ???Tem muita fam\u00edlia que n\u00e3o sabe nem a quem pedir ajuda. As institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o sofrendo com diminui\u00e7\u00e3o das doa\u00e7\u00f5es.??? Na Cufa essa queda chegou a 85%.<\/div>\n<div>Embora n\u00e3o veja chances de melhora a curto prazo, ele destaca que existem a\u00e7\u00f5es paliativas imediatas que precisam ser feitas. ???Aumentar o n\u00famero de pessoas atendidas por programas de transfer\u00eancia de renda. ?? fundamental, j\u00e1 que tem fam\u00edlias que nem se cadastram porque n\u00e3o t\u00eam conhecimento ou documenta\u00e7\u00e3o.???<\/p>\n<\/div>\n<div>Ele afirma ainda que \u00e9 necess\u00e1ria uma mobiliza\u00e7\u00e3o social que v\u00e1 al\u00e9m dos governos para amparar essas fam\u00edlias. ???J\u00e1 as a\u00e7\u00f5es de longo prazo s\u00e3o no fortalecimento da economia. ?? preciso ter empregos e gerar renda, al\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um processo longo de capacita\u00e7\u00e3o de pessoas. Isso \u00e9 um processo de algumas d\u00e9cadas. Enquanto isso, \u00e9 necess\u00e1rio que o governo crie pol\u00edticas p\u00fablicas que possam amenizar e fazer com que essas pessoas v\u00e3o abandonando essa condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.??? A Cufa atende mensalmente cerca de 1.700 fam\u00edlias na Grande BH. Para ajudar, acesse: https:\/\/www.cufaminas.org\/ (SP, MP, MC)<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>???Tenho medo da fome???, disse C\u00e9lia Arquimino Barros, dentro do barrac\u00e3o de tr\u00eas c\u00f4modos onde mora no Bairro S\u00e3o Cosme, em Santa Luzia, na\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":199237,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-199236","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}