{"id":199615,"date":"2022-08-05T18:22:45","date_gmt":"2022-08-05T21:22:45","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/jovem-sanitarista-oswaldo-cruz-enfrentou-tres-epidemias-simultaneas\/"},"modified":"2022-08-05T18:22:45","modified_gmt":"2022-08-05T21:22:45","slug":"jovem-sanitarista-oswaldo-cruz-enfrentou-tres-epidemias-simultaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/05\/jovem-sanitarista-oswaldo-cruz-enfrentou-tres-epidemias-simultaneas\/","title":{"rendered":"Jovem sanitarista Oswaldo Cruz enfrentou tr\u00eas epidemias simult\u00e2neas"},"content":{"rendered":"<p>A Revolta da Vacina \u00e9 um assunto que faz parte do curr\u00edculo escolar, mas um detalhe que nem sempre \u00e9 lembrado \u00e9 que as transforma\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias que ocorriam no Rio de Janeiro do in\u00edcio do S\u00e9culo XX eram lideradas por um jovem Oswaldo Cruz de pouco mais de 30 anos. Nesta sexta-feira (5), dia que marca 150 anos de seu nascimento, a <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> relembra como esse audacioso sanitarista assumiu o principal \u00f3rg\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica do pa\u00eds, em 1903, com a promessa de derrotar tr\u00eas epidemias simult\u00e2neas que assolavam a capital federal: a peste bub\u00f4nica, var\u00edola e febre amarela.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1474733&#038;o=rss\" style=\"width:1px;height:1px;display:inline\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1474733&#038;o=rss\" style=\"width:1px;height:1px;display:inline\" \/><\/p>\n<p>Rec\u00e9m sa\u00eddo do Imp\u00e9rio, o Brasil queria mostrar ao mundo uma imagem moderna e promissora, mas trazer visitantes e imigrantes ao Rio de Janeiro, sua capital, era uma tarefa dif\u00edcil, j\u00e1 que a cidade tinha fama de ser ???t\u00famulo dos estrangeiros???. O motivo eram as doen\u00e7as infecciosas que assolavam a popula\u00e7\u00e3o carioca, que vivia em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene e saneamento, com corti\u00e7os e ruelas que cresciam em uma urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada e desordenada.<\/p>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica da \u00e9poca, Rodrigues Alves, nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Rio de Janeiro para que realizasse uma ampla reforma urbana que abrisse largas avenidas e permitisse a melhoria do saneamento b\u00e1sico e da ventila\u00e7\u00e3o. Em uma frente complementar, coube \u00e0 Oswaldo Cruz a elabora\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias para enfrentar as doen\u00e7as infecciosas, e o jovem m\u00e9dico foi nomeado diretor-geral de sa\u00fade p\u00fablica, cargo que, na \u00e9poca, poderia ser comparado ao que hoje \u00e9 o ministro da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>O historiador Bruno Mussa, do Museu da Vida da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica que, apesar de novo, Oswaldo Cruz teve uma forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, tendo sido o primeiro brasileiro a estudar no Instituto Pasteur, centro de pesquisa de Paris que era a maior refer\u00eancia da \u00e9poca no Ocidente sobre microbiologia e sa\u00fade. Ao retornar ao Brasil, em 1899, ele participou de uma miss\u00e3o cient\u00edfica que identificou um surto de peste bub\u00f4nica no Porto de Santos. Esse trabalho fez com que ganhasse notoriedade para assumir a diretoria t\u00e9cnica e depois a chefia do Instituto Soroter\u00e1pico Federal, embri\u00e3o do que seria a Fiocruz. O passo seguinte foi acumular o cargo com a diretoria em que se tornou c\u00e9lebre pelas pol\u00edticas implantadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>???A partir dali, a Diretoria-Geral de Sa\u00fade P\u00fablica vai assumir um espa\u00e7o cada vez maior e mais significativo, e a sa\u00fade p\u00fablica vai se tornar um ponto cada vez mais relevante no Brasil???, avalia o historiador. ???Em tudo que ele planejava, ele pensava na implementa\u00e7\u00e3o de um projeto de trabalho duradouro. Se a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz hoje em dia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, \u00e9 uma consequ\u00eancia da vis\u00e3o de futuro desse personagem???.<\/p>\n<h2>Febre Amarela<\/h2>\n<p>Maior problema de sa\u00fade p\u00fablica da cidade, a febre amarela foi o primeiro foco de Oswaldo Cruz como diretor de sa\u00fade p\u00fablica. Sob desconfian\u00e7a da classe m\u00e9dica da \u00e9poca, o sanitarista trouxe para o Rio de Janeiro a ideia de que a doen\u00e7a era transmitida por mosquitos, enquanto a tese mais aceita no Brasil era de que o cont\u00e1gio seria a partir de pessoas j\u00e1 doentes.<\/p>\n<p>Oswaldo Cruz criou brigadas sanit\u00e1rias que percorriam a cidade com inseticidas, em busca de locais onde houvesse larvas de mosquitos, incluindo casas, cujos donos podiam ser intimados a realizar reformas ou at\u00e9 demoli\u00e7\u00f5es se fossem consideradas insalubres.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia teve sucesso, e a doen\u00e7a que matava cerca de mil pessoas por ano em 1902 j\u00e1 n\u00e3o era mais uma epidemia em 1907, o que rendeu ao sanitarista o pr\u00eamio principal do 14\u00ba Congresso de Higiene e Demografia de Berlim, realizado na Alemanha naquele ano.<\/p>\n<p>???Esse reconhecimento internacional foi important\u00edssimo para produzir essa chancela que o Oswaldo Cruz passou a ter a partir de ent\u00e3o???, destaca Mussa. ???Ele passa a ser reconhecido no Brasil depois do reconhecimento que ele teve no exterior???.<\/p>\n<p>Uma das maiores provas desse reconhecimento foi a mudan\u00e7a do nome do instituto que ele dirigia para Instituto Oswaldo Cruz (IOC), que existe at\u00e9 hoje como parte da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz. O pesquisador tamb\u00e9m se tornou um imortal da Academia Brasileira de Letras, em 1913.<\/p>\n<h2>Peste Bub\u00f4nica<\/h2>\n<p>Organizado o combate \u00e0 febre amarela, Oswaldo Cruz e sua diretoria de sa\u00fade p\u00fablica se voltaram, em 1903, contra a peste bub\u00f4nica, doen\u00e7a transmitida pelas pulgas de ratos contaminados.<\/p>\n<p>Mussa explica que, al\u00e9m de estar presente na mem\u00f3ria coletiva pela tr\u00e1gica epidemia que matou milh\u00f5es na Europa, a doen\u00e7a tamb\u00e9m tem um forte impacto impacto econ\u00f4mico, j\u00e1 que a dissemina\u00e7\u00e3o se d\u00e1 muitas vezes por ratos em navios, de porto em porto, o que chega a obrigar o fechamento de uma cidade com contamina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A peste bub\u00f4nica n\u00e3o chegou a ser um problema gigantesco no Rio de Janeiro, mas o diagn\u00f3stico gera uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es para que ela n\u00e3o prosperasse&#8221;. afirma. &#8220;Era uma doen\u00e7a que veio de fora e poderia gerar um impacto muito grande na economia&#8221;.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Oswaldo Cruz adotou a estrat\u00e9gia de combate aos vetores, com uma ca\u00e7ada aos ratos do Rio de Janeiro. Funcion\u00e1rios da diretoria de sa\u00fade p\u00fablica receberam a meta de apresentar pelo menos 150 ratos por m\u00eas, sob amea\u00e7a de demiss\u00e3o, e o governo passou a comprar ratos de qualquer pessoa que os matasse.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da desratiza\u00e7\u00e3o, o sanitarista promoveu a vacina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas mais afetadas da cidade e o Instituto Soroter\u00e1pico Federal produziu o soro para o tratamento dos doentes, cujos casos passaram a ter notifica\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria. Esse conjunto de a\u00e7\u00f5es impactou fortemente a mortalidade por peste bub\u00f4nica na cidade, que caiu mais de 20 vezes entre 1903 e 1909, segundo a Fiocruz.<\/p>\n<h2>Var\u00edola<\/h2>\n<p>As remo\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o pobre for\u00e7adas pela reforma urbana, a trucul\u00eancia das brigadas sanit\u00e1rias e as tens\u00f5es pol\u00edticas da rep\u00fablica rec\u00e9m proclamada criaram um clima de tens\u00e3o crescente na capital federal no governo Rodrigues Alves. Em meio a esse cen\u00e1rio, a var\u00edola teve um pico de casos em 1904, e cerca de 3,5 mil pessoas morreram no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia levou Oswaldo Cruz \u00e0 dr\u00e1stica proposta de fazer cumprir a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, com exig\u00eancia de comprova\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo para a realiza\u00e7\u00e3o de casamentos. Al\u00e9m disso, a lei aprovada no Congresso, apelidada pelos opositores de &#8220;C\u00f3digo de Torturas&#8221;, previa que servi\u00e7os sanit\u00e1rios poderiam entrar nas resid\u00eancias para vacinar os moradores.\u00a0<\/p>\n<p>O historiador explica que esse foi o estopim para o caldeir\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o explodir, e a Revolta da Vacina durou 10 dias, nos quais houve protestos nas ruas e insurrei\u00e7\u00e3o de militares. O resultado foram 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, sendo quase a metade exilada no Acre, onde foram submetidos a trabalhos for\u00e7ados.<\/p>\n<p>Apesar de ter retomado o controle da capital, o governo decidiu suspender a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, o que representou uma derrota para a preven\u00e7\u00e3o da var\u00edola e possibilitou uma epidemia ainda mais mortal em 1906, com mais de 6 mil v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Mussa destaca que mesmo que a vacina da var\u00edola j\u00e1 fosse utilizada mundo afora e fosse comprovadamente eficaz, o clima de tens\u00e3o foi aproveitado pela oposi\u00e7\u00e3o ao governo enquanto o analfabetismo generalizado e a escassez de canais de comunica\u00e7\u00e3o dificultaram uma campanha de conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>???Esse processo todo apresenta na hist\u00f3ria do Brasil o momento em que se demonstra a relev\u00e2ncia de se fazer uma boa comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica da ci\u00eancia e um bom desenvolvimento dos debates cient\u00edficos com a sociedade, porque foi a aus\u00eancia disso e muita aplica\u00e7\u00e3o de determina\u00e7\u00f5es por decreto e pela for\u00e7a que contribuiu muito para a animosidade e para a revolta que aconteceu???.<\/p>\n<h2>Legado<\/h2>\n<p>Assim como seus grandes feitos, a morte chegou cedo para Oswaldo Cruz, que morreu aos 44 anos, em 1917. O sanitarista foi v\u00edtima de insufici\u00eancia renal, causada por uma nefrite, mesma doen\u00e7a que vitimou seu pai.<\/p>\n<p>Para a diretora do Instituto Oswaldo Cruz, Tania Ara\u00fajo-Jorge, o maior legado do sanitarista foi incluir a pesquisa como elemento fundamental na pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica. Ela lembra que, anos depois de assumir o Instituto Soroter\u00e1pico Federal, o m\u00e9dico o transformou em um instituto de patologia experimental, dedicado \u00e0 pesquisa m\u00e9dica voltada \u00e0 sa\u00fade coletiva.<\/p>\n<p>???A sa\u00fade p\u00fablica tem um antes e um depois de Oswaldo Cruz. Sem pesquisa, voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer um bom enfrentamento de qualquer desafio de sa\u00fade???, afirma ela. ???N\u00e3o s\u00f3 a gente do Instituto Oswaldo Cruz, mas todo pesquisador brasileiro se sente inspirado pela vis\u00e3o dele de que voc\u00ea tem que fazer forma\u00e7\u00e3o, tem que fazer pesquisa e que isso tem que estar comprometido com a melhoria da sa\u00fade do povo brasileiro???.<\/p>\n<p>Tania avalia que, diante dos desafios na Diretoria-Geral de Sa\u00fade P\u00fablica, o jovem Oswaldo Cruz teve energia para fazer os enfrentamentos da \u00e9poca, e \u00e0 frente do instituto de pesquisa, colaborou para a transmiss\u00e3o do conhecimento que ocorre at\u00e9 hoje na funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>???O fato de ele implantar a pesquisa e a forma\u00e7\u00e3o de novos pesquisadores foi muito importante. Todos eles morriam muito jovens, e voc\u00ea tinha que passar o legado adiante. Quem teve que enfrentar a epidemia de gripe espanhola no Brasil? J\u00e1 n\u00e3o foi Oswaldo, ele morreu em 1917, e a epidemia come\u00e7ou em 1918. Foi Carlos Chagas, que tinha aprendido tudo com ele. O Carlos Chagas foi aluno do Oswaldo Cruz, e ele foi formando uma gera\u00e7\u00e3o de cientistas, e a gente tem 122 anos de forma\u00e7\u00e3o de cientistas???.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Revolta da Vacina \u00e9 um assunto que faz parte do curr\u00edculo escolar, mas um detalhe que nem sempre \u00e9 lembrado \u00e9 que as\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":199616,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[174],"tags":[],"class_list":["post-199615","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199615","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199615"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199615\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}