{"id":199965,"date":"2022-08-06T06:29:11","date_gmt":"2022-08-06T09:29:11","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/jo-soares-foi-vaidoso-e-genial-na-medida-certa\/"},"modified":"2022-08-06T06:29:11","modified_gmt":"2022-08-06T09:29:11","slug":"jo-soares-foi-vaidoso-e-genial-na-medida-certa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/06\/jo-soares-foi-vaidoso-e-genial-na-medida-certa\/","title":{"rendered":"J\u00f4 Soares foi vaidoso e genial na medida certa"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">As crian\u00e7as n\u00e3o eram o p\u00fablico-alvo de J\u00f4 Soares. Mas alguns personagens que ele criou eram, sim, capazes de conquistar os pequenos espectadores. ?? o caso deste jornalista, que aos seis anos se divertia com o Jornal do Gordo, que J\u00f4 dividia com Paulo Silvino.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O quadro do programa Viva o Gordo tinha um toque de pastel\u00e3o e por vezes lembrava os Trapalh\u00f5es. Enquanto Silvino lia as not\u00edcias, J\u00f4 as traduzia atrav\u00e9s de uma m\u00edmica bem fajuta. Por exemplo, se a not\u00edcia falava em ???brasileiros???, ele se transformava em palha\u00e7o, enquanto repetia a palavra aos berros e pausadamente, separando as s\u00edlabas: ???bra-si-lei-ros!???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tinha ainda o Capit\u00e3o Gay, pois nos anos 1980 era socialmente permitido ridicularizar homossexuais. E, para uma crian\u00e7a, um personagem afetado e espalhafatoso como aquele, com maquiagem igualmente exagerada, era muito engra\u00e7ado.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Lembro tamb\u00e9m de, aos sete ou oito anos, escutar um LP que meus pais tinham, que era a grava\u00e7\u00e3o de um show de humor de J\u00f4. Na capa do disco, um aviso: ???venda proibida para menores de 18 anos???. Aquilo, claro, era um convite para uma crian\u00e7a curiosa quebrar as regras e ouvir sorrateiramente.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><iframe loading=\"lazy\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2lxGF3ebxg4\" title=\"YouTube video player\" width=\"560\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para ati\u00e7ar ainda mais a curiosidade, o humorista aparecia na capa do \u00e1lbum debru\u00e7ado sobre um enorme bumbum desenhado. Era, claro, mais um motivo para ouvir escondido. E a\u00ed, vinha o momento mais esperado do show: J\u00f4 dividia a plateia em duas partes e dizia ???Deste lado pra c\u00e1, voc\u00eas gritam ???bun??? e a outra metade grita ???da???, combinado????.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">E a\u00ed, vinha aquele grito, que, para uma crian\u00e7a, valia mais que qualquer piada ou um quadro inteiro dos Trapalh\u00f5es: ???Buuuuun-daaaa!???. Ouvia aquilo repetidamente, at\u00e9 acreditar que aquela palavra proibida &#8211; \u00a0quase pornogr\u00e1fica na \u00e9poca &#8211; estava mesmo sendo dita em alto e bom som.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Tal Show<\/strong>\u00a0<br \/> Mas tive tamb\u00e9m o privil\u00e9gio de ver J\u00f4 iniciar sua carreira como entrevistador, ainda no J\u00f4 Soares Onze e Meia, no SBT, para onde ele foi em 1988. H\u00e1 quem diga que ali ele era meio exibicionista ou que gostava de falar mais que os entrevistados. Sobre essas cr\u00edticas, ele disse: ???Ent\u00e3o, eu era muito, muito exibido???, assumiu ao Fant\u00e1stico, em 2012. ???Sou muito vaidoso, nunca escondi isso. Qual \u00e9 o artista que n\u00e3o \u00e9 vaidoso? Todos. ?? uma profiss\u00e3o de vitrine de exibidos. Voc\u00ea nasce querendo seduzir o mundo.???<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><iframe loading=\"lazy\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fOagoZTT08Y\" title=\"YouTube video player\" width=\"560\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"bodytext\">??s vezes ele excedia mesmo na vaidade e no exibicionismo. Mas, mesmo assim, era um prazer v\u00ea-lo desfilar sua impressionante cultura. Falava com incr\u00edvel propriedade sobre os mais diversos assuntos, passando por cinema, m\u00fasica &#8211; especialmente o jazz -, pol\u00edtica, l\u00ednguas ou futebol.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era um apaixonado torcedor do Fluminense e conhecia muito bem as hist\u00f3rias da Copa do Mundo. Em 1994, levou seu talk show para os Estados Unidos, onde o torneio foi realizado e o Brasil conquistou o tetra. J\u00f4 foi com toda a equipe pra l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O J\u00f4 Onze e Meia nasceu gra\u00e7as \u00e0 insist\u00eancia do humorista. Ele fez a proposta de um talk show para a Globo, de quem era contratado. Mas a emissora de Roberto Marinho n\u00e3o topava. Foi a\u00ed que, em 1987, come\u00e7ou o flerte com Silvio Santos, para ir pro SBT. Foi o colega Carlos Alberto de N\u00f3brega que sugeriu ao Patr\u00e3o que contratasse J\u00f4.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A princ\u00edpio, Silvio n\u00e3o se interessava pelo programa de entrevista, mas s\u00f3 pelo humor\u00edstico. Mas o sonho do Gordo era mesmo dar uma virada na carreira e fazer um talk show &#8211; termo ent\u00e3o desconhecido no Brasil &#8211; inspirado no The<br \/> Tonight Show Starring Johnny Carson, exibido nos EUA.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><iframe loading=\"lazy\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LqV7hOzmxqY\" title=\"YouTube video player\" width=\"560\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em mais uma tentativa de convencer a Globo, J\u00f4 disse a Boni, o chef\u00e3o da emissora na \u00e9poca:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\">???Ele [Johnny Carson] est\u00e1 no ar h\u00e1 mais de 30 anos na TV americana. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tantos americanos estarem errados por tantos anos???.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Mas Boni era irredut\u00edvel e direto: ???N\u00e3o tem espa\u00e7o na grade da Globo para este tipo de programa???, dizia, sem dar espa\u00e7o para negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os bastidores desta hist\u00f3ria est\u00e3o no excelente O Livro de J\u00f4 &#8211; Uma Biografia Desautorizada, lan\u00e7ada em dois volumes em 2017 e escrita em parceria pelo humorista com Matinas Suzuki Jr. O calhama\u00e7o, que totaliza mais de 700 p\u00e1ginas, \u00e9 um deleite para quem se interessa pela hist\u00f3ria da comunica\u00e7\u00e3o e da arte brasileiras, afinal J\u00f4 passou por quase todos os ve\u00edculos que imaginamos e tamb\u00e9m transitou com facilidade em siferentes express\u00f5es art\u00edsticas. Foi entrevistador, ator, escritor, dramaturgo, diretor, roteirista, pintor&#8230;<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>V\u00e1rios Papeis<\/strong><br \/> Jos\u00e9 Eug\u00eanio Soares nasceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1938. Era o \u00fanico filho do empres\u00e1rio Orlando Heitor Soares e da dona de casa Mercedes Leal Soares. Passou a inf\u00e2ncia em col\u00e9gio interno.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Como os pais gozavam de boa situa\u00e7\u00e3o financeira, J\u00f4 teve o privil\u00e9gio de, aos 12 anos, ir estudar na Su\u00ed\u00e7a. Passou cinco anos l\u00e1, at\u00e9 que o pai passou por dificuldades econ\u00f4micas e ele precisou voltar. Mas teve muito contato com a arte, especialmente o teatro. Por isso, ao retornar para o Rio, aproximou-se de artistas e logo j\u00e1 estava nos palcos.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\">???Eu pensei que ia seguir a carreira diplom\u00e1tica. Mas sempre ia ao teatro, sempre ia assistir a shows, ia para a coxia ver como era. E j\u00e1 inventava n\u00fameros de s\u00e1tira do cinema americano???, lembrou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Do teatro, foi para o cinema, onde esteve em musicais como Rei do Movimento (1954), De Pernas Pro Ar (1956) e P\u00e9 na T\u00e1bua??? (1957). O primeiro destaque foi na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A estreia na TV aconteceu em 1958, no programa Noite de Gala, na TV Rio. Depois, passou a escrever tamb\u00e9m para a TV Continental. E, na Tupi, participou do Grande Teatro Tupi, onde contracenou com Fernanda Montenegro, \u00cdtalo Rossi e S\u00e9rgio Brito, entre outros. Em 1960, mudou-se do Rio para S\u00e3o Paulo e foi trabalhar na Record. Na \u00e9poca, era casado com a atriz Therezinha Millet Austreg\u00e9silo (1934-2021), com quem teve seu \u00fanico filho, Rafael, que era autista e morreu aos 50 anos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A consagra\u00e7\u00e3o na TV veio em A Fam\u00edlia Trapo, que tinha Renata Fronzi e Ronald Golias. J\u00f4 inicialmente era o roteirista, com Carlos Alberto de N\u00f3brega. Depois, atuou como o mordomo Gordon. Em 1970, pouco antes de o Fam\u00edlia Trapo chegar ao fim, J\u00f4 foi para a Globo, inaugurada cinco anos antes. Come\u00e7ou no humor\u00edstico Satiricom, programa de s\u00e1tira \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, no estilo do Casseta &#038; Planeta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 1977, foi para O Planeta dos Homens, onde era redator e ator. Escrevia com o Max Nunes e Haroldo Barbosa. Nunes se tornou parceiro insepar\u00e1vel e, com J\u00f4, redigia textos para o programa de entrevistas que o humorista tinha na Globo. Em 1982, passou a estrelar o Viva o Gordo, onde criou e interpretou tipos inesquec\u00edveis, como o Reizinho, o Capit\u00e3o Gay e o Z\u00e9 da Galera. ???Os meus personagens s\u00e3o muito mais baseados no lado psicol\u00f3gico e no social do que na caricatura pura e simples. Nunca fiz um personagem necessariamente gordo. Eles s\u00e3o gordos porque eu sou gordo???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 1987, J\u00f4 assinou com o SBT, e em mar\u00e7o de 1988 estreou o humor\u00edstico Veja o Gordo. Em agosto do mesmo ano, estreou aquele que era seu sonho, o J\u00f4 Soares Onze e Meia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\">???Acho que descobri, tamb\u00e9m sem querer, a grande voca\u00e7\u00e3o da minha vida, a coisa que me d\u00e1 mais prazer, mais alegria de fazer. Eu me sinto muito vivo ali???, disse.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">As entrevistas, apesar de apresentadas bem tarde, fizeram muito sucesso. Tanto que o Veja o Gordo s\u00f3 ficou no ar at\u00e9 1990, para J\u00f4 se dedicar apenas ao talk show. O programa seguiu at\u00e9 o ano 2000, quando a Globo decidiu contratar o humorista de novo, para apresentar o Programa do J\u00f4, que seguia o mesmo formato da atra\u00e7\u00e3o do SBT e foi exibida at\u00e9 2016.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><iframe loading=\"lazy\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/D5WTjG6j-xQ\" title=\"YouTube video player\" width=\"560\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"bodytext\">O humorista tamb\u00e9m teve uma bem-sucedida carreira como escritor. Sua estreia, com o romance Xang\u00f4 de Baker Street (1995), inspirou um filme, adaptado para o cinema em 2001. As obras seguintes foram O Homem que Matou Get\u00falio Vargas (1998), Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005) e As Esganadas (2011).<\/p>\n<p class=\"bodytext\">E no teatro, ealizou turn\u00eas com seus mon\u00f3logos. Os mais conhecidos foram Ame um Gordo Antes que Acabe (1976), Viva o Gordo e Abaixo o Regime! (1978), Um Gordoid\u00e3o no Pa\u00eds da Infla\u00e7\u00e3o (1983), Um Gordo em Concerto (1994) e Na Mira do Gordo (2007).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as n\u00e3o eram o p\u00fablico-alvo de J\u00f4 Soares. 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