{"id":200007,"date":"2022-08-06T08:28:04","date_gmt":"2022-08-06T11:28:04","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/o-medo-depois-de-cristal-estudantes-revelam-temor-de-andar-pelo-centro-de-salvador\/"},"modified":"2022-08-06T08:28:04","modified_gmt":"2022-08-06T11:28:04","slug":"o-medo-depois-de-cristal-estudantes-revelam-temor-de-andar-pelo-centro-de-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/06\/o-medo-depois-de-cristal-estudantes-revelam-temor-de-andar-pelo-centro-de-salvador\/","title":{"rendered":"O medo depois de Cristal: estudantes revelam temor de andar pelo centro de Salvador"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Confian\u00e7a b\u00e1sica \u00e9 o conceito da psicologia que explica, de forma resumida, a f\u00e9 que depositamos uns nos outros para vivermos juntos, em sociedade. ?? o que faz a crian\u00e7a desenvolver a certeza de que seus familiares v\u00e3o zelar por ela. ?? o que permite \u00e0s pessoas andarem nas ruas das cidades sem temer um perigo a cada esquina. A viol\u00eancia urbana, assim como abusos contra crian\u00e7as, destr\u00f3i o sentimento de confian\u00e7a b\u00e1sica. Uma adolescente de 15 anos morta com um tiro no peito em uma tentativa de assalto, a caminho da escola, gera um trauma social que estilha\u00e7a a convic\u00e7\u00e3o de que podemos sair de casa sem correr risco.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Estudantes de Salvador que fazem caminhos parecidos com o da garota assassinada, viram sua confian\u00e7a b\u00e1sica ser quebrada da mesma forma que se partiu a vida de Cristal Rodrigues Pacheco. O crime aconteceu ter\u00e7a-feira, 02, nas primeiras horas da manh\u00e3, nas imedia\u00e7\u00f5es do Campo Grande e do Comando-Geral da Pol\u00edcia Militar. As duas assaltantes, a que deu o tiro em Cristal e a comparsa, est\u00e3o presas e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. Mas, apesar delas n\u00e3o estarem mais nas ruas do Centro, onde praticavam assaltos, o medo tomou conta de outros adolescentes e de suas fam\u00edlias.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">&#8220;A gente j\u00e1 tinha medo, agora \u00e9 pavor&#8221;, afirma, sem pensar duas vezes, uma estudante do Col\u00e9gio das Merc\u00eas ??? o mesmo onde Cristal estudava &#8211; sobre a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a dos jovens da regi\u00e3o. Segundo ela, desde a morte de Cristal, o temor de ser alvo de viol\u00eancia no Centro de Salvador, que j\u00e1 existia, ficou ainda maior.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Depois de toda a repercuss\u00e3o do caso Cristal, h\u00e1bitos que eram comuns mesmo com o receio pr\u00e9vio, deixaram de existir: &#8220;Tenho o costume de sair com colegas para comer, ver umas lojas e at\u00e9 ir ao shopping porque \u00e9 bem perto daqui, mas meus pais disseram para n\u00e3o fazer isso e eu tamb\u00e9m nem quero, para n\u00e3o correr risco&#8221;, conta ela, que cursa o Ensino M\u00e9dio da escola.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na quarta-feira (03), 24 horas ap\u00f3s a morte de Cristal, em um protesto para pedir mais seguran\u00e7a no Centro, \u00a0Larissa Biazzi, 17, que tamb\u00e9m estuda nas Merc\u00eas, falou sobre o pavor que tem de circular pela \u00e1rea. &#8220;Saio de casa olhando para o lado e correndo de roubo, da viol\u00eancia. Eu t\u00f4 aqui [no protesto], mas amanh\u00e3 n\u00e3o sei se minhas amigas v\u00e3o estar vivas. ?? perigo em todos os lugares e ningu\u00e9m faz nada. A pol\u00edcia que est\u00e1 aqui hoje n\u00e3o vai estar semana que vem&#8221;, afirmou Larissa, muito emocionada.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Medo mesmo com pol\u00edcia<\/strong><br \/> Um ambulante que trabalha pr\u00f3ximo ao col\u00e9gio disse que, apesar do crime, o movimento por l\u00e1 segue parecido e que a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 o policiamento na \u00e1rea desde a morte de Cristal. &#8220;O que eu n\u00e3o tinha visto aqui antes [do crime] era policiamento, pelo menos n\u00e3o nessa quantidade que passa toda hora. Tem dois agentes da PM circulando aqui no local para evitar qualquer tipo de problema&#8221; disse ele, que preferiu n\u00e3o se identificar.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto a reportagem esteve na regi\u00e3o, quatro duplas de agentes da PM a p\u00e9 foram vistas realizando rondas nas avenidas Sete de Setembro e Carlos Gomes. Uma viatura estava parada na frente da Pra\u00e7a da Piedade e outros dois agentes, ao lado de uma moto, davam plant\u00e3o no encontro entre a Rua Forte de S\u00e3o Pedro e a Avenida Sete. Equipes da Guarda C\u00edvil Municipal (GCM) tamb\u00e9m montaram plant\u00e3o em frente ao Passeio P\u00fablico, onde Cristal foi morta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A maior presen\u00e7a policial, no entanto, n\u00e3o tranquiliza quem tem filhos e netos estudando na \u00e1rea. Uma av\u00f3 de estudante de escola p\u00fablica do Centro, que preferiu n\u00e3o se identificar, disse temer todos os dias que algo aconte\u00e7a ao neto. &#8220;Ele j\u00e1 n\u00e3o vinha sozinho, agora que n\u00e3o vem mesmo. O pai traz de manh\u00e3 e eu sempre busco agora perto do meio dia. Estamos vivendo com um temor muito grande, fazendo ora\u00e7\u00f5es, protegendo ele da forma que \u00e9 poss\u00edvel e esperando que nada de mal aconte\u00e7a&#8221;, diz a av\u00f3, que mora na Ladeira da Independ\u00eancia, \u00a0em Nazar\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Al\u00e9m dos pais, o medo tamb\u00e9m se colou aos jovens. &#8220;Meus pais trabalham muito, n\u00e3o t\u00eam tanto tempo e nem sempre podem me buscar e trazer. Desde ter\u00e7a-feira, n\u00e3o me deixam vir e nem voltar sozinho. Eu tamb\u00e9m estou com medo, obede\u00e7o o que me dizem pra n\u00e3o acontecer nada&#8221;, fala ele, que tem apenas 10 anos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>De onde vem o problema?\u00a0<\/strong><br \/> Como os pr\u00f3prios moradores e trabalhadores da regi\u00e3o central de Salvador relatam, a sensa\u00e7\u00e3o de medo nessa \u00e1rea da cidade n\u00e3o \u00e9 recente. Cientista social e pesquisadora do Observat\u00f3rio de Seguran\u00e7a da Bahia, Luciene Santana explica que a regi\u00e3o \u00e9 caracterizada para crimes situacionais, sem planejamento. &#8220;S\u00e3o assaltos de oportunidade. Geralmente, acontecem em hor\u00e1rios espec\u00edficos, com pessoas que acabam aparecendo, ou em lugares de muito tumulto. Como \u00e9 um espa\u00e7o com grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas e que em alguns pontos \u00e0s vezes fica deserto, a oportunidade surge&#8221;, explica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O acontecimento de crimes de oportunidade como o que vitimou Cristal, para ela, decorre de um problema que \u00e9 estrutural e antigo: a falta do direito \u00e0 cidade. &#8220;Quando n\u00e3o se tem uma situa\u00e7\u00e3o prop\u00edcia com, por exemplo, ilumina\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e equipamentos que fa\u00e7am as pessoas acessarem o espa\u00e7o p\u00fablico, o direito \u00e0 cidade \u00e9 perdido por conta da inseguran\u00e7a. Por meio da viol\u00eancia, as pessoas n\u00e3o conseguem ir e vir, acessar espa\u00e7os de lazer e fazer outras atividades&#8221;, avalia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Outro ponto destacado pela pesquisadora como fator \u00e9 a facilita\u00e7\u00e3o \u00e0s armas garantido pelo tr\u00e1fico de drogas at\u00e9 para a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua. Ela pontua, no entanto, que \u00e9 preciso ter cuidado ao colocar a culpa do problema em quem n\u00e3o tem lugar para morar. &#8220;?? uma popula\u00e7\u00e3o que vive em vulnerabilidade e sofre com estigma por conta de crimes que acontecem. De fato, muitos acabam sendo cometidos por essa popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, \u00e9 preciso cuidado porque estamos falando de uma pessoa majoritariamente negra que ocupa as ruas n\u00e3o por vontade pr\u00f3pria, mas porque n\u00e3o teve uma outra op\u00e7\u00e3o&#8221;, completa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>*Orientado pela editora Mariana Rios e com a colabora\u00e7\u00e3o da subeditora Andreia Santana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confian\u00e7a b\u00e1sica \u00e9 o conceito da psicologia que explica, de forma resumida, a f\u00e9 que depositamos uns nos outros para vivermos juntos, em sociedade.\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":200008,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-200007","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-policia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=200007"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200007\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=200007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=200007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=200007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}