{"id":200187,"date":"2022-08-06T17:33:43","date_gmt":"2022-08-06T20:33:43","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/exatamente-um-transa\/"},"modified":"2022-08-06T17:33:43","modified_gmt":"2022-08-06T20:33:43","slug":"exatamente-um-transa__trashed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/06\/exatamente-um-transa__trashed\/","title":{"rendered":"Exatamente um Transa"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Era um apezinho miudinho no Rio. Humait\u00e1. Perto da Cobal, da Lagoa e de todos os novos desejos daqueles meus 28 anos. ???Retorno de Saturno???, diziam. Eu tinha feito um trabalho grande na Bahia e ganhei uma quantidade de dinheiro jamais vista em minha conta. H\u00e1 meses, eu pensava em Rio de Janeiro quase todo santo dia. Tanto que, uma vez, num ponto de \u00f4nibus, em Itapu\u00e3, um homem desconhecido passou por mim e disse: ???voc\u00ea vai pro Rio de Janeiro???. Devia saber ler pensamento, o sacaninha que nunca mais vi pra dizer a ele que fui mesmo. Pois, quando olhei pro dinheiro, aluguei esse apartamento por telefone (adiantando tr\u00eas meses de pagamento) e fui de mudan\u00e7a, embarcada na viagem que mudou minha vida todinha. Por causa dela, inclusive, \u00e9 que tenho a felicidade de ser m\u00e3e do meu filho.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nessa \u00e9poca, Transa, o disco de Caetano que agora faz 50 anos, tinha 30. Ele nasceu em 1972, dois anos antes de mim, mas n\u00e3o sei por qual motivo, eu nunca tinha escutado certinho, na sequ\u00eancia, do in\u00edcio ao fim. No Manoel &#038; Juaquim de Copacabana, fiz um amigo e ele foi morar comigo, por pouco tempo, no apartamento miudinho. Renato. Entre os incr\u00edveis, engra\u00e7ados e amorosos momentos que vivemos juntos, tem ele me dar esse CD de presente. Rapidamente, essa passou a ser trilha sonora de muitos dos nossos papos e de algumas faxinas. Ali, vendo o Redentor pela janela, eu redesenhava a minha vida, enquanto escutava uma sequ\u00eancia de m\u00fasicas das quais \u00e9 imposs\u00edvel se cansar. Mesmo que voc\u00ea queira muito. Tem algum neg\u00f3cio estranho l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">(Voc\u00ea n\u00e3o me conhece mesmo)<br \/> Tanto que, dez anos depois, na varanda do apartamento da Barra, de volta \u00e0 Salvador, rec\u00e9m-separada, saindo de uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto, quando eu voltei a cantar (pra mim), era o Transa. Algu\u00e9m deve ter me xingado, em algum pr\u00e9dio vizinho, mas cantar You don\u00b4t know me, bem alto, em looping (para o que acho que ela foi feita porque o fim encaixa no come\u00e7o), era uma coisa que me refazia. Um delicioso exerc\u00edcio de fisioterapia para a minha alma que se fortalecia, aos pouquinhos. Conforme eu dizia aquelas palavras em ingl\u00eas e em portugu\u00eas, a minha voz ia ficando mais forte, saindo mais de dentro, a ponto de eu voltar a achar bonita, at\u00e9. Voc\u00ea n\u00e3o me conhece mesmo, era o que eu estava falando. ???Dext\u00e1???. ???T\u00f4 voltando???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">(I???m alive viva muito viva)<br \/> H\u00e1 quem goste do CD todo, sempre. Eu, nem todo dia. Tem isso tamb\u00e9m. Mas a segunda faixa tem um efeito rebite que eu adorava nos desjejuns tardios, acompanhando aquele p\u00e3o com um peda\u00e7o indecente de queijo coalho e vitamina de frutas que eu pedia no Sanduka. Principalmente, nas piores ressacas. A m\u00fasica garantindo que eu tava viva, por\u00e9m nem eu acreditava. A comida ajudando a lembrar do que tinha acontecido na v\u00e9spera, entre os finados Fosfobox e Dama de Ferro. V\u00e1rios arrepios e muitos ???n\u00e9 poss\u00edvelll!??? ditos s\u00f3 pra mim. Depois, um banho e ???walk down Portobello road to the sound of reggae??? ou algo assim que \u00e9 o que se chama, hoje, de cropped e diz que a pessoa usa pra reagir.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">(Triste Rec\u00f4ncavo, oh qu\u00e3o dessemelhante)<br \/> ???Pule essa m\u00fasica a\u00ed falando mal de minha terra???, eu brincava assim ao escutar os primeiros acordes. Renato dizia ???\u00f4, Nega, deixe, isso \u00e9 lindo??? e n\u00e3o adiantava nada. Quando eu tava sozinha n\u00e3o deixava nem come\u00e7ar. Era uma saudade t\u00e3o fodida que me dava, mesmo podendo ir e voltar quando quisesse. Uma dorzinha de ter decidido correr o risco de perder um tico que fosse do meu sotaque do Rec\u00f4ncavo, de onde ele ??? Caetano ??? e eu somos. \u00a0Eu, nascida em Salvador, mas criada aqui. At\u00e9 o vapor de Cachoeira, que eu nunca vi navegar, por lembrar que n\u00e3o navega mais, me do\u00eda. Hoje, \u00e9 gostoso ouvir, de volta, do lado de muita bandeira branca enfiada em pau forte.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">(N\u00e3o somos t\u00e3o fortes, senhor)<br \/> Outro dia, um amigo me mandou um mantra, dizendo ele que ia fazer bem pra minha casa. Podia at\u00e9 ser, mas antes disso, me deprimiria. Gosto n\u00e3o de coisa repetida em indian\u00eas, eu sem saber o que significa. Ele registrou que eu n\u00e3o gosto de mantra, s\u00f3 que a pura verdade \u00e9 que adoro. Mas dos meus. Essa m\u00fasica, por exemplo, pra mim, s\u00f3 tem duas frases: ???we&#8217;re not that strong, my Lord??? ??? que serve pra trazer o lugar de humildade &#8211; e ???It&#8217;s a long way??? que \u00e9 pra gente se aquietar e Caetano ficar brincando com a l\u00edngua no ???long??? conduzindo a medita\u00e7\u00e3o. O resto tamb\u00e9m \u00e9 bonito, mas a onda forte \u00e9 essa a\u00ed. V\u00e1 por mim. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"> (Mora na filosofia)<br \/> Em Salvador, varanda do finado teatro Maria Beth\u00e2nia, havia um bar incr\u00edvel chamado Intermezzo. Toda vez que escuto essa m\u00fasica, me lembro de um namorado que, numa noite nesse bar, cantou isso pra mim me fazendo conhecer a estrofe ???se seu corpo ficasse marcado por l\u00e1bios ou m\u00e3os carinhosas, eu saberia, ora, vai mulher, a quantos voc\u00ea pertencia???. Que eu achei entre bel\u00edssima e profundamente escrota. Nunca consegui construir outra mem\u00f3ria relacionada, portanto. Toda vez penso a mesma coisa. Nem sei falar dela. Pulemos, pois.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Neolitic Man e Nostalgia se misturam, pra mim, de alguma maneira. O que pode ser uma grande ignor\u00e2ncia de minha parte. A\u00ed, ainda que eu ache t\u00e3o besta esse tal ???e tudo bem???, \u00e9 o caso de us\u00e1-lo. Eu n\u00e3o estudo m\u00fasica, n\u00e3o critico m\u00fasica. Eu sei que esse \u00e9 um disco cheio de especificidades t\u00e9cnicas e hist\u00f3ricas, t\u00e1 tudo a\u00ed escrito e reescrito, estudad\u00edssimo, cada acorde e inten\u00e7\u00e3o, detalhadamente. N\u00e3o \u00e9 essa a minha fun\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 quero dizer que o Transa \u00e9 um amigo velho, um br\u00f3der, meu e de muitas pessoas. Daqueles que sabem coisa pra cacete da gente, que v\u00e3o junto, que completam as frases que come\u00e7amos. Do tipo que estava l\u00e1 quando coisas importantes aconteceram, que aparecem nas fotos antigas, que est\u00e3o ali. Pra mim, \u00e9 desse jeito e, pra ser sincera, se eu fosse um disco, era bem isso que eu queria ser: exatamente um Transa. E Caetano \u00e9 foda (pra n\u00e3o perder o costume). Desde sempre e toda vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um apezinho miudinho no Rio. Humait\u00e1. 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