{"id":200370,"date":"2022-08-07T07:43:40","date_gmt":"2022-08-07T10:43:40","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/de-emilia-a-david-a-cirurgia-que-ha-um-seculo-desafiou-a-sociedade-de-bh\/"},"modified":"2022-08-07T07:43:40","modified_gmt":"2022-08-07T10:43:40","slug":"de-emilia-a-david-a-cirurgia-que-ha-um-seculo-desafiou-a-sociedade-de-bh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/07\/de-emilia-a-david-a-cirurgia-que-ha-um-seculo-desafiou-a-sociedade-de-bh\/","title":{"rendered":"De Em\u00edlia a David: a cirurgia que, h\u00e1 um s\u00e9culo, desafiou a sociedade de BH"},"content":{"rendered":"<p><i>O ano \u00e9 1917. A cidade, Belo Horizonte. Nesse tempo e espa\u00e7o, vidas se encontram e mudam seus destinos. Pelas m\u00e3os de um m\u00e9dico mineiro, em cirurgia pioneira, a jovem Em\u00edlia, de 19 anos, torna-se David ??? rapaz que, com o nome alterado na carteira de identidade, se casaria mais tarde com uma antiga colega do col\u00e9gio feminino em que estudara antes da opera\u00e7\u00e3o. O caso ficou conhecido popularmente como a primeira ???mudan\u00e7a de sexo??? realizada em Minas Gerais e, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930, teve grande repercuss\u00e3o, pois outras interven\u00e7\u00f5es do tipo seguiram sendo feitas na cidade. Hist\u00f3rias ligadas a temas atual\u00edssimos da medicina e dos costumes, que a partir de hoje o Estado de Minas reconta, resgatando epis\u00f3dios marcantes da capital inaugurada havia apenas duas d\u00e9cadas e que ainda dispunha de poucos avan\u00e7os na \u00e1rea m\u00e9dica.<\/i><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esta reportagem, caro leitor, \u00e9 mais do que uma reuni\u00e3o de texto com fotos, entrevistas, pesquisa. Trata-se, na verdade, de um convite para uma viagem no tempo, mais exatamente \u00e0 Belo Horizonte de 1917, cidade fundada duas d\u00e9cadas antes e ent\u00e3o com cerca de 18 mil habitantes na zona urbana (perto de 55 mil moradores, no total) ??? atualmente, a capital dos mineiros, a caminho dos 125 anos, abriga cerca de 2,5 milh\u00f5es de pessoas. A s\u00e9rie ???Vidas em transi\u00e7\u00e3o ??? De Em\u00edlia a David ??? traz \u00e0 tona uma hist\u00f3ria mineira que, encoberta pelo tempo, ilumina-se com depoimentos, informa\u00e7\u00f5es e descobertas.<\/p>\n<p> Foi naquele ano ??? quando o mundo estava mergulhado na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 mudava os destinos da R\u00fassia e ocorriam as apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora, em F\u00e1tima, Portugal ??? que BH registrava um fato que marcaria sua hist\u00f3ria, com estardalha\u00e7o na imprensa. Em cirurgia considerada pioneira no estado, feita pelo m\u00e9dico mineiro David Corr\u00eaa Rabello (1885-1939), a jovem de 19 anos Em\u00edlia Soares, apelidada Miloca, tornou-se David ??? nome escolhido em homenagem ao cirurgi\u00e3o. Com mudan\u00e7a na ???carteira de idade???, como se chamava o documento de identidade, e atualiza\u00e7\u00e3o do sexo.<\/p>\n<p>????? poss\u00edvel imaginar as agruras pelas quais David Soares tenha passado naquele fim de ano e ao longo de 1918???, diz o professor, escritor e pesquisador Luiz Morando, autor do trabalho ???Miloca que virou David??? ??? Intersexualidade em Belo Horizonte (1917-1939), no qual revela a ocorr\u00eancia de mais 20 casos semelhantes at\u00e9 o fim da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Embora considerada pela imprensa uma cirurgia de ???mudan\u00e7a de sexo???, e assim tenha ca\u00eddo na boca do povo, ???n\u00e3o era isso???, corrige Morando, informando se tratar de um diagn\u00f3stico de ???hiposp\u00e1dia??? ??? uma malforma\u00e7\u00e3o genital que acomete pessoas do sexo masculino. <\/p>\n<p>Se a percep\u00e7\u00e3o popular estava errada, o certo mesmo \u00e9 que o bisturi do doutor Rabello mudou vidas, comportamentos, destinos. E David, que mais tarde se casou com uma mulher, enfrentou o Golias da mal\u00edcia, do deboche e do preconceito, gigante que costuma se levantar para assombrar brasileiros e brasileiras mais de um s\u00e9culo depois.<\/p>\n<p>Resgatar a hist\u00f3ria de Em\u00edlia (1898-1951), que virou David Soares, \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, pois o protagonista n\u00e3o teve filhos. Foi miss\u00e3o tamb\u00e9m cheia de surpresas. No cart\u00f3rio do Primeiro Subdistrito do Registro Civil, o mais antigo da capital, foi feita, especialmente para o Estado de Minas, uma pesquisa da documenta\u00e7\u00e3o existente entre 1897 e 1935, n\u00e3o sendo encontrado o nome de Em\u00edlia. <\/p>\n<p>Mas como o pai de Em\u00edlia era funcion\u00e1rio p\u00fablico, transferido para BH com a mudan\u00e7a da capital, surgiu a possibilidade de ela ter nascido em Ouro Preto, na Regi\u00e3o Central de Minas, o que acabou sendo confirmado. Em\u00edlia veio ao mundo um ano ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o de BH.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Cemit\u00e9rio do Bonfim, h\u00e1 o registro do sepultamento em 29 de maio de 1951 de David Pereira Soares, funcion\u00e1rio p\u00fablico, filho de Ant\u00f4nio Pereira Soares. A causa da morte foi tuberculose pulmonar e caquexia. A m\u00e3e, Castorina Soares, morreu dois anos antes da cirurgia da ???filha???.\u00a0 <\/p>\n<p>Aos poucos, luzes v\u00e3o se acendendo sobre a hist\u00f3ria, que tem parte guardada no Centro de Mem\u00f3ria da Medicina (Cememor) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em BH, onde h\u00e1 um rico acervo contando a trajet\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o de ensino por meio de obras raras, mobili\u00e1rio, equipamentos m\u00e9dico-cient\u00edficos, pain\u00e9is fotogr\u00e1ficos de turmas e outros registros.<\/p>\n<p>Um espa\u00e7o do Cememor reserva aten\u00e7\u00e3o especial ao rumoroso caso, que gerou a apresenta\u00e7\u00e3o de uma monografia na ent\u00e3o denominada Faculdade de Medicina de Bello Horizonte, pelo professor David Corr\u00eaa Rabello. <\/p>\n<p>Entre fotos, documentos e desenhos, salta aos olhos o retrato em preto e branco da turma de alunas da Escola Normal (atual Instituto de Educa\u00e7\u00e3o de Minas Gerais). Na foto, Em\u00edlia \u00e9 a primeira da fila. <\/p>\n<p>N\u00e3o se destaca apenas pela posi\u00e7\u00e3o no grupo de 15 jovens, mas especialmente pela altura.<br \/>Diante do acervo, a historiadora Ethel Mizrahy Cuperschmid, do Cememor, apresenta documentos importantes, como a tese de concurso para professor substituto de Rabello, de 1918, com base na cirurgia realizada no ano anterior. H\u00e1 tamb\u00e9m fotos, desenhos e publica\u00e7\u00f5es a respeito do caso. <\/p>\n<h3>Maria se tornou Marino, servidor da Aeron\u00e1utica<\/h3>\n<p>Entre os casos semelhantes ao de Em\u00edlia registrados at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930 est\u00e1 o de Maria Marques da Silva, natural de Lagoa Santa, na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), que, ap\u00f3s a cirurgia, em setembro de 1938, tornou-se Marino Marques da Silva. <\/p>\n<p>????? uma hist\u00f3ria rara, n\u00e3o \u00e9? Tenho muito orgulho dele, respeito, gratid\u00e3o!???, diz, emocionado, o aposentado Laerte Ant\u00f4nio Jac\u00f3 Ferreira, de 70 anos, sobre o padrasto Marino, que era servidor da Aeron\u00e1utica na mesma cidade, se casou com a vi\u00fava Maria dos Prazeres Marques, j\u00e1 m\u00e3e de quatro crian\u00e7as, e faleceu em 1978.<\/p>\n<p>Conversar com o simp\u00e1tico Laerte Ant\u00f4nio, apelidado Toninho, \u00e9 como mergulhar na hist\u00f3ria sorvendo avidamente cada palavra, e buscando no sil\u00eancio a compreens\u00e3o para a for\u00e7a das l\u00e1grimas que \u00e0s vezes brotam. <\/p>\n<p>???Meu padrasto era reservado, n\u00e3o falava sobre esse assunto, a cirurgia&#8230; Mas n\u00f3s, os filhos, sab\u00edamos. Era honesto, trabalhador, cat\u00f3lico praticante, desses de n\u00e3o perder missa, e gostava demais de plantar, cuidar de horta, manter o quintal sempre limpo???, lembra Toninho, que tem quatro filhos.<\/p>\n<p>Na sua casa no Bairro V\u00e1rzea, em Lagoa Santa, Toninho conta que o padrasto e a m\u00e3e, que chegara de Jaboticatubas (na Grande BH) vi\u00fava, com os filhos, conheceram-se no trabalho. ???Um agradou do outro. <\/p>\n<p>Comigo, ent\u00e3o, tinha um carinho especial, me tratava bem, mas tamb\u00e9m sabia ser severo, se preciso.??? Segurando a c\u00f3pia de documentos funcionais de Marino e da m\u00e3e, ele diz n\u00e3o ter objetos e retratos pertencentes ao padrasto.<\/p>\n<p>Muitas vezes, o passado assombrou a vida de Marino, antes ???mo\u00e7a muito bonita, de cabelo na cintura???, que quase se casou com um conterr\u00e2neo. <\/p>\n<p>Mas o ???problema??? que levaria \u00e0 cirurgia de desambigua\u00e7\u00e3o de sexo foi revelado publicamente e a uni\u00e3o n\u00e3o aconteceu. Ao longo do tempo, n\u00e3o foram poucas as vezes em que antigos conhecidos, ao enxergarem Marino com roupas masculinas, recorriam ao deboche para atingi-lo com as flechas do preconceito. <\/p>\n<p>???Como era ousado para a \u00e9poca, ele n\u00e3o se calava e atirava pedras. O mundo mudou, mas meu padrasto sofreu muito no tempo em que viveu. Foi um homem de coragem para enfrentar tudo???, afirma.<\/p>\n<h3>Mergulho no passado de BH<\/h3>\n<p>Foram necess\u00e1rios cinco meses de trabalho por parte da equipe do EM para buscar informa\u00e7\u00f5es, apurar os fatos, iluminar caminhos desconhecidos da maioria dos brasileiros e dar forma \u00e0 s\u00e9rie ???De Em\u00edlia a David ??? Vidas em transi\u00e7\u00e3o???. <\/p>\n<p>??rg\u00e3os p\u00fablicos, cart\u00f3rios, registros de cemit\u00e9rio, centros de pesquisa, e, claro, mineiros de boa mem\u00f3ria que nasceram na primeira metade do s\u00e9culo passado foram fundamentais para o resultado aqui apresentado. Infelizmente, muito se perdeu de um per\u00edodo t\u00e3o marcante da hist\u00f3ria da medicina e dos estudos do comportamento humano. <\/p>\n<h2>Um ser humano em choque com corpo e o ambiente<\/h2>\n<p>Para conhecer melhor a hist\u00f3ria de Em\u00edlia Soares, que aos 19 anos se tornou David pelas m\u00e3os do doutor Rabello na Belo Horizonte de 1917, o leitor deve fazer uma necess\u00e1ria volta no tempo, tirando da bagagem qualquer preconceito e procurando entender a \u00e9poca, as limita\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia e a sociedade local no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. <\/p>\n<p>Em resumo, estava em cena uma vida humana em choque com seu corpo e com o ambiente. ???Em\u00edlia Soares era considerada uma pessoa estranha para os padr\u00f5es da \u00e9poca: criada como mulher, n\u00e3o correspondia \u00e0 imagem f\u00edsica que se fazia de pessoas femininas ??? n\u00e3o possu\u00eda seios, tinha ombros avantajados, rosto com tra\u00e7os masculinos, era desajeitada???, diz Luiz Morando, professor e escritor que se debru\u00e7ou sobre o caso.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Em\u00edlia est\u00e1 descrita no Centro de Mem\u00f3ria da Medicina (Cememor), da UFMG: ???Em 1917, o professor David Rabello recebeu em seu gabinete m\u00e9dico a paciente E.S.. Em trajes femininos, E.S. d\u00e1 logo a ideia de estar em travesti, a toilette muito pouco cuidada. A blusa cai-lhe simplesmente sobre o peito inteiramente chato e as saias fogem-lhe sobre as ancas sem nenhum apoio; traz sapatos fortes???.<\/p>\n<p>???E.S foi criado como mulher at\u00e9 os 19 anos, educado em um dos melhores col\u00e9gios femininos de Belo Horizonte antigo, compartilhando dormit\u00f3rio, banhos e segredos com mo\u00e7oilas de sua idade. Logo ao primeiro exame, o m\u00e9dico verificou se tratar de um caso de malforma\u00e7\u00e3o genito-urin\u00e1ria. A mo\u00e7oila E.S. era um rapaz!???<\/p>\n<p>Conforme a explica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, ???vistos em conjunto, os \u00f3rg\u00e3os genitais apresentam uma semelhan\u00e7a grosseira com os \u00f3rg\u00e3os genitais femininos, dado o pequeno desenvolvimento do p\u00eanis, que lembra vagamente um clit\u00f3ris hipertrofiado. A circunst\u00e2ncia de apresentar a uretra aberta, em sua parte inferior, desde o meato at\u00e9 a uretra membranosa, faz com que tamb\u00e9m a mucosa exposta lembre um pouco a vulva entreaberta. Entretanto, um exame, mesmo superficial, n\u00e3o deixa nenhuma d\u00favida sobre o caso???.<\/p>\n<p>Documentos existentes contam que ???E.S. foi operada pelo m\u00e9dico que, finalmente, conseguiu revelar o rapag\u00e3o David, escondido pela ignor\u00e2ncia e pudores da tradicional fam\u00edlia mineira. De acordo com Pedro Nava (escritor mineiro, 1903-1984), o doutor David Rabello corrigia os erros gramaticais da natureza, quando p\u00f5e no feminino o que o masculino deveria ser. David se casou com uma colega de escola por quem j\u00e1 tinha sentimentos que considerava pervertidos, enquanto ainda o cobria a roupagem feminina???.<\/p>\n<p>???O esc\u00e2ndalo gerado pelo fato de um homem ter compartilhado as intimidades de jovens donzelas casadouras foi abafado pelas fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas das Alterosas, o que n\u00e3o impediu a circula\u00e7\u00e3o do caso \u00e0 boca pequena e at\u00e9 mesmo a encena\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a de teatro chamada ???O patinho torto???, obra escrita por Coelho Netto (1864-1934).???<\/p>\n<p>O Cememor da Faculdade de Medicina da UFMG conserva um exemplar com o texto da pe\u00e7a, explica a historiadora Ethel Mizrahy Cuperschmid, assim como outras publica\u00e7\u00f5es a respeito do caso e documentos, entre eles teses escritas pelo doutor Rabello, inclusive com base na cirurgia de Em\u00edlia\/David. ???Na \u00e9poca, o caso foi um esc\u00e2ndalo, mas evidenciava um desconhecimento das pessoas com o pr\u00f3prio corpo???, resume Ethel.<\/p>\n<h2>Entrevista\/Luiz Morando &#8211; Professor e escritor<\/p>\n<p><\/h2>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Podemos dizer que, naqueles tempos, a ???hist\u00f3ria de Miloca que virou David??? era uma vit\u00f3ria da ci\u00eancia contra a ignor\u00e2ncia e a favor da felicidade humana?<br \/><\/b><br \/>N\u00e3o necessariamente. Em\u00edlia Soares era considerada uma pessoa estranha para os padr\u00f5es da \u00e9poca: criada como mulher, n\u00e3o correspondia \u00e0 imagem f\u00edsica que se fazia de pessoas femininas ??? n\u00e3o possu\u00eda seios, tinha ombros avantajados, rosto com tra\u00e7os masculinos, era desajeitada. H\u00e1 uma imagem de corpo inteiro dela no livro ???O desatino da rapaziada???, de Humberto Werneck. <\/p>\n<p>Para a mentalidade e os padr\u00f5es da \u00e9poca, era uma pessoa que a medicina considerava um ???erro da natureza??? pass\u00edvel de ser corrigido. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 uma ???vit\u00f3ria da ci\u00eancia contra a ignor\u00e2ncia???, mas imposi\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o e uma perspectiva de que a medicina deve regular os corpos e os h\u00e1bitos, independentemente do que uma pessoa deseja para si. <\/p>\n<p>Talvez, no caso espec\u00edfico de Em\u00edlia Soares, ela tenha desejado passar a expressar quem ela realmente desejava ser, mas diversos outros casos nas d\u00e9cadas subsequentes demonstram que m\u00e9dicos impunham sua vontade ao paciente, executando procedimentos sem consult\u00e1-los ou passando por cima da vontade deles.<\/p>\n<p><b>O caso m\u00e9dico ocorrido em 1917, em BH, foi pioneiro no pa\u00eds? Qual era a especialidade do doutor David Rabello?<br \/><\/b><br \/>N\u00e3o daria para dizer que foi o pioneiro, mas foi o primeiro a ganhar notoriedade e grande repercuss\u00e3o na \u00e9poca. David Rabello era cirurgi\u00e3o. Relata-se que ele fez uma cirurgia de ap\u00eandice em si mesmo para um grupo de alunos&#8230;<\/p>\n<p><b>A imprensa da \u00e9poca tratou o caso como ???mudan\u00e7a de sexo???, o que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. O que foi, ent\u00e3o, a cirurgia em Em\u00edlia Soares?<br \/><\/b><br \/>Em\u00edlia Soares era portadora de hiposp\u00e1dia, uma malforma\u00e7\u00e3o da genit\u00e1lia que acomete pessoas do sexo masculino. A hiposp\u00e1dia (na \u00e9poca, referida tamb\u00e9m como pseudo-hermafroditismo) \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o cong\u00eanita relativamente rara (de origem gen\u00e9tica ou hormonal), na qual o indiv\u00edduo do sexo masculino apresenta a abertura da uretra n\u00e3o na extremidade da glande, mas em algum ponto da face ventral do p\u00eanis. <\/p>\n<p>H\u00e1 formas mais leves de manifesta\u00e7\u00e3o, em que a uretra est\u00e1 mais pr\u00f3xima da extremidade da glande, e formas mais graves, em que a por\u00e7\u00e3o final da uretra se encontra na bolsa escrotal ou no per\u00edneo. O fato \u00e9 que, quanto mais extremo o grau de hiposp\u00e1dia, mais amb\u00edgua se torna a defini\u00e7\u00e3o do sexo do rec\u00e9m-nascido por um m\u00e9dico ou parteira (como era bastante comum no in\u00edcio do s\u00e9culo 20). <\/p>\n<p>O caso de Em\u00edlia Soares n\u00e3o foi de ???mudan\u00e7a de sexo???, como divulgado \u00e0 \u00e9poca, mas uma altera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica para desambigua\u00e7\u00e3o do sexo. No entanto, \u00e9 fato que ao deixar de ser Em\u00edlia para passar a ser David (em homenagem ao m\u00e9dico que a operou), ocorreu um processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero em que uma pessoa de 19 anos deixou de se vestir e de ter h\u00e1bitos considerados femininos para adotar vestimenta e h\u00e1bitos considerados masculinos.<br \/><b><br \/>Podemos dizer que doutor Rabello fez uma ???corre\u00e7\u00e3o????<\/b><br \/>Aos olhos de hoje, David Rabello fez uma cirurgia para desambiguizar a genit\u00e1lia de Em\u00edlia. N\u00e3o h\u00e1 propriamente uma corre\u00e7\u00e3o (que remete \u00e0 ideia de erro, de desvio), mas uma adequa\u00e7\u00e3o da genit\u00e1lia. <\/p>\n<p>A ideia de corre\u00e7\u00e3o sempre esteve presente nesses casos. O caso de 1938, de Maria Marques, foi gritante: ela\/ele falou que n\u00e3o queria ser operado\/a, segundo a cobertura jornal\u00edstica da \u00e9poca, e ainda assim foi submetido \u00e0 cirurgia. E sempre com a ideia de que s\u00e3o desviantes, que precisam ser restaurados \u00e0 ordem, \u00e0 norma.<\/p>\n<p><b>De Miloca para David, houve uma transi\u00e7\u00e3o de sexo?<br \/><\/b><br \/>Houve uma transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, uma vez que o sexo de Em\u00edlia era masculino ??? ter um p\u00eanis, que se desenvolveu malformado. No entanto, ela precisou transicionar de g\u00eanero: desconstruir o g\u00eanero\/padr\u00e3o\/norma feminino e construir um g\u00eanero masculino. Nesse sentido, a teoria de que o g\u00eanero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o sociocultural \u00e9 correta.<\/p>\n<p><b>Com a cirurgia, houve altera\u00e7\u00e3o de nome e atualiza\u00e7\u00e3o de sexo no documento de identidade de Em\u00edlia. Sem d\u00favida, um grande avan\u00e7o para a \u00e9poca&#8230;<br \/><\/b><br \/>Sim, houve essas altera\u00e7\u00f5es baseadas em laudo emitido pelo m\u00e9dico David Rabello. ?? uma situa\u00e7\u00e3o bem diferente do que ocorre com pessoas transg\u00eanero, que n\u00e3o s\u00e3o portadoras de hiposp\u00e1dia, mas que n\u00e3o se reconhecem com o sexo que lhes foi atribu\u00eddo no nascimento. <\/p>\n<p>Promoveu-se um verdadeiro esc\u00e2ndalo na \u00e9poca. David Soares foi alvo de chacota e piada nos jornais belo-horizontinos e de outras capitais, quando apareceu na capital mineira vestido como se atribui ao modo masculino. Isso j\u00e1 deixa transparecer um per\u00edodo de humilha\u00e7\u00e3o pelo qual passou em Belo Horizonte ap\u00f3s a cirurgia. Mas ele viveu at\u00e9 28 de maio de 1951.<\/p>\n<p><b>Ap\u00f3s a cirurgia, David recebeu algum acompanhamento psicol\u00f3gico? Como a fam\u00edlia reagiu, j\u00e1 que, naqueles tempos, casos assim eram considerados ???aberra\u00e7\u00e3o????<br \/><\/b><br \/>N\u00e3o tenho not\u00edcia de que David Pereira Soares tenha recebido algum tipo de acompanhamento psicol\u00f3gico. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi mencionado nos jornais como a fam\u00edlia reagiu. Mas seu caso inspirou o romancista e dramaturgo Coelho Netto a escrever a pe\u00e7a ???O patinho torto???, em 1918.<\/p>\n<p><b>Passados 105 anos, qual \u00e9 a ???moral da hist\u00f3ria???? No sentido de li\u00e7\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es seguintes&#8230;<br \/><\/b><br \/>Acho que a mensagem que fica \u00e9 que todos t\u00eam direito a viver da maneira mais prazerosa, saud\u00e1vel e confort\u00e1vel como acham que deve ser para si.<\/p>\n<p><b><i>Clique na imagem para ampliar e veja a hist\u00f3ria de Em\u00edlia\/David em quadrinhos<\/i><\/b><\/p>\n<h3>Leia amanh\u00e3: <\/h3>\n<p><i>Quem era David Rabello, cirurgi\u00e3o que fez hist\u00f3ria e se tornou patrono de cadeira 62 da Academia Mineira de Medicina<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano \u00e9 1917. A cidade, Belo Horizonte. Nesse tempo e espa\u00e7o, vidas se encontram e mudam seus destinos. Pelas m\u00e3os de um m\u00e9dico\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":200371,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-200370","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=200370"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/200370\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=200370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=200370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=200370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}