{"id":201475,"date":"2022-08-09T06:44:32","date_gmt":"2022-08-09T09:44:32","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/na-bh-de-1917-cirurgias-redefiniram-genero-de-pacientes-ate-contra-vontade\/"},"modified":"2022-08-09T06:44:32","modified_gmt":"2022-08-09T09:44:32","slug":"na-bh-de-1917-cirurgias-redefiniram-genero-de-pacientes-ate-contra-vontade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/09\/na-bh-de-1917-cirurgias-redefiniram-genero-de-pacientes-ate-contra-vontade\/","title":{"rendered":"Na BH de 1917, cirurgias redefiniram g\u00eanero de pacientes at\u00e9 contra vontade"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caso ???Em\u00edlia-David???, epis\u00f3dio em que uma cirurgia na Belo Horizonte de 1917 definiu a redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero de um rapaz com malforma\u00e7\u00e3o genital criado como menina at\u00e9 os 19 anos, n\u00e3o foi o \u00fanico a ganhar as p\u00e1ginas dos jornais no come\u00e7o do s\u00e9culo passado como opera\u00e7\u00e3o de ???mudan\u00e7a de sexo???. Uma express\u00e3o tecnicamente equivocada, j\u00e1 que se referia a diagn\u00f3sticos de pseudo-hermafroditismo ou ???hiposp\u00e1dia??? ??? condi\u00e7\u00e3o em que \u00f3rg\u00e3os genitais masculinos apresentam semelhan\u00e7a grosseira com a anatomia feminina, dado o pequeno desenvolvimento do p\u00eanis, que lembra vagamente um clit\u00f3ris hipertrofiado.<\/p>\n<\/div>\n<div>At\u00e9 a d\u00e9cada de 1930, houve em BH registro de ocorr\u00eancia de mais 20 casos semelhantes \u00e0 hist\u00f3ria de Em\u00edlia Soares (1898-1951), de 19 anos, que se submeteu a uma cirurgia e se tornou David Soares, com mudan\u00e7a na ent\u00e3o carteira de idade (hoje de identidade). Operado, David se casaria com uma antiga colega de turma do col\u00e9gio feminino e passaria a trabalhar como funcion\u00e1rio p\u00fablico. Como ele, a maioria dos outros pacientes esteve sob os cuidados do m\u00e9dico David Corr\u00eaa Rabello (1885-1939) no Hospital S\u00e3o Vicente de Paulo, atual Hospital das Cl\u00ednicas, em Belo Horizonte.<\/p>\n<\/div>\n<div>Naturais do interior de Minas, muitas pessoas que passaram pelo bisturi do doutor Rabello ficaram conhecidas, maldosamente, como ???M\u00e1rio-Maria??? ou ???Maria-M\u00e1rio???. O Estado de Minas localizou fam\u00edlias com antepassado nessa condi\u00e7\u00e3o, mas, ???por uma quest\u00e3o de respeito \u00e0 mem\u00f3ria do parente???, algumas pessoas preferiram n\u00e3o dar entrevista. Assim, determinados nomes ser\u00e3o omitidos nesta terceira reportagem da s\u00e9rie ???Vidas em transi\u00e7\u00e3o ??? De Em\u00edlia a David???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>SOB O ARCO-\u00cdRIS<\/b><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em 28 de janeiro de 1933, o EM mostrava a hist\u00f3ria de uma mulher de 20 anos, que na \u00e9poca morava havia pouco mais de 12 meses em BH. Submetida a uma cirurgia para retirada do ap\u00eandice, ???levantou-se transformada em robusto rapaz???. Eis um trecho da reportagem, intitulada ???O resultado surpreendente de uma banal opera\u00e7\u00e3o de apendicite???.<\/p>\n<\/div>\n<div>???A mo\u00e7a que se deitara na mesa operat\u00f3ria, sob os cuidados do dr. David Rabello, levantou-se transformada em robusto rapaz. A hist\u00f3ria pitoresca de um menino que foi criado por seus pais como se pertencesse ao sexo feminino. Uma lenda antiga culpa o arco-\u00edris de certas metamorfoses humanas. Diz a supersti\u00e7\u00e3o popular que o homem que passa sob o arco-\u00edris transforma-se em mulher. E reciprocamente???, dizia o texto da \u00e9poca.<\/p>\n<\/div>\n<div>Prosseguiu o rep\u00f3rter: ???No planalto em que foi plantada Belo Horizonte, o arco-\u00edris \u00e9 um acontecimento raro. Entretanto, o destino parece ter escolhido a capital mineira para palco de suas mais extravagantes e ir\u00f4nicas experi\u00eancias. A popula\u00e7\u00e3o guarda mem\u00f3ria de uma senhorita que, subitamente, com o aux\u00edlio de conhecido cirurgi\u00e3o, transformou-se em varonil\u00edssimo mancebo, hoje casado e exemplar pai de fam\u00edlia.???<\/p>\n<\/div>\n<div>No seu recente trabalho ???Miloca que virou David ??? Intersexualidade em Belo Horizonte (1917-1939)???, o escritor, pesquisador e professor Luiz Morando revela a frequ\u00eancia de registro, nos textos jornal\u00edsticos de ent\u00e3o, ???de certo processo de metamorfose, emprego ir\u00f4nico e abusivo do prefixo ???ex?????? e um contraste entre os termos ???gentil senhorita??? e a figura forte do Davi b\u00edblico. ???Na pequena capital mineira de ent\u00e3o, David Soares encarnava o mito do indiv\u00edduo que, ao passar sob o arco-\u00edris, tinha seu sexo alterado, confrontando a rigidez biol\u00f3gica e cient\u00edfica do binarismo sexual???, escreveu o autor.<\/p>\n<p><\/p>\n<h2><b>Maioria dos pacientes tinha origem humilde<\/b><\/h2>\n<p><\/p>\n<div>Luiz Morando chama a aten\u00e7\u00e3o para a origem social humilde da maioria das pessoas afetadas pela repentina mudan\u00e7a de g\u00eanero a partir da cirurgia de desambigua\u00e7\u00e3o de sexo, entre elas uma pessoa da zona rural de Curvelo, na Regi\u00e3o Central de Minas. A exemplo de outras pessoas, era chamada de ???mulher-homem???, e n\u00e3o sabia explicar por que, ???possuindo fei\u00e7\u00e3o masculina, voz aguda, m\u00fasculos desenvolvidos, um bu\u00e7o sombreando-lhe o l\u00e1bio superior???, fora criada como pertencente ao sexo feminino.<\/p>\n<\/div>\n<div>Em fevereiro de 1934, o poeta Djalma Andrade narrava outras a\u00e7\u00f5es do doutor Rabello, no extinto Di\u00e1rio da Tarde: ???Ser ou n\u00e3o ser&#8230; A quest\u00e3o\/pode trazer confus\u00e3o\/Toda a incerteza de Hamlet&#8230;\/Somente o fero escalpelo\/do doutor David Rabello\/Inspira confian\u00e7a e f\u00e9???.<\/p>\n<\/div>\n<div>Dois meses depois, a maioria dos jornais ???ocultou??? a cirurgia de adolescente do interior de Minas, da fam\u00edlia de um prefeito. Em junho, foi a vez de a servente de uma escola de Santa Luzia, na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte, submeter-se ao ???bisturi milagroso??? de Rabello e ???passar a ser um aut\u00eantico homem???.<\/p>\n<\/div>\n<div>O relato est\u00e1 em mat\u00e9ria do Estado de Minas de 7 de junho de 1934: ???Ap\u00f3s queixar-se de fortes dores no abd\u00f4men \u00e0 diretora, essa examinou a funcion\u00e1ria, pensando tratar-se de apendicite, e constatou o ???fen\u00f4meno??????. A mat\u00e9ria diz que, ap\u00f3s a cirurgia, a d\u00e9cima do tipo realizada pelo doutor Rabello, o paciente foi muito visitado por diversos curiosos da capital e da cidade vizinha.<\/p>\n<h2><b>Ela n\u00e3o queria, mas foi operada<\/b><\/h2>\n<p><\/p>\n<div>Em Lagoa Santa, tamb\u00e9m na Grande BH, em setembro de 1938, ganhou destaque o caso emblem\u00e1tico de empregada dom\u00e9stica de 27 anos, tamb\u00e9m com diagn\u00f3stico de malforma\u00e7\u00e3o. Conforme reportagem do EM, ela declarava que queria continuar vivendo como mulher. Trazida a BH, foi alvo de um debate sobre a conveni\u00eancia de uma cirurgia contra a sua vontade, e se posicionou: ???Se for para virar homem, n\u00e3o me deixarei operar???. Mesmo sob\u00a0 protestos, a decis\u00e3o da paciente n\u00e3o foi respeitada: o pai autorizou a cirurgia em 4 de setembro de 1938.<\/p>\n<\/div>\n<div>???Essas hist\u00f3rias culminam com as ideias centrais que as narrativas apresentadas cont\u00eam: corrigir um (suposto) erro da natureza, restabelecer uma (suposta) verdade, desconsiderar a vontade do (a) paciente???, ressalta o pesquisador Luiz Morando. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, o caso de Lagoa Santa \u00e9 emblem\u00e1tico sob v\u00e1rios aspectos: ???O lugar do paciente face ao homem da lei (no caso, o m\u00e9dico); o conflito de interesses a ser resolvido, sempre pendente para o lado da autoridade m\u00e9dica ou paterna; o discurso do masculino marcando a diferen\u00e7a de g\u00eaneros e hierarquizando-os; o foco distorcido sobre a monstruosidade ??? para os m\u00e9dicos, \u00e9 necess\u00e1rio corrigir a natureza para a paciente deixar de ser monstro; para a paciente, ela passa a ser monstro ao ter ???corrigido??? seu corpo, n\u00e3o se conformando com o ???malfeito??????.<\/p>\n<\/div>\n<div><b>RECUSA<\/b><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em fevereiro de 1939, uma lavadeira do Grande Hotel de Belo Horizonte, identificada como homem ao fazer um exame para obter a carteira de sa\u00fade, tamb\u00e9m se recusou a fazer a cirurgia. Coincidentemente, uma de suas irm\u00e3s havia sido considerada ???mulher-homem??? e operada. Curioso \u00e9 que a divulga\u00e7\u00e3o do caso da lavadeira ocorreu uma semana ap\u00f3s a morte, em 10 de fevereiro de 1939, do m\u00e9dico David Rabello, que, apesar das controv\u00e9rsias, tornou-se cirurgi\u00e3o respeitad\u00edssimo, teve seus m\u00e9ritos cient\u00edficos reconhecidos e se tornou patrono da cadeira de n\u00famero 62 da Academia Mineira de Medicina.\u00a0<\/p>\n<p><i>Vidas em transi\u00e7\u00e3o\u00a0 Ontem: M\u00e9dico que fez 1\u00aa interven\u00e7\u00e3o para desambigua\u00e7\u00e3o de sexo em BH deixou seu nome marcado na hist\u00f3ria\u00a0<br \/>Amanh\u00e3: No t\u00fanel do tempo ??? Como eram BH e o mundo na \u00e9poca em que Em\u00edlia se tornou David<br \/><\/i><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caso ???Em\u00edlia-David???, epis\u00f3dio em que uma cirurgia na Belo Horizonte de 1917 definiu a redesigna\u00e7\u00e3o de g\u00eanero de um rapaz com malforma\u00e7\u00e3o genital\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":201476,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-201475","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201475\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}