{"id":201819,"date":"2022-08-09T18:02:08","date_gmt":"2022-08-09T21:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/poliomielite-por-que-e-preciso-se-vacinar-contra-doenca-erradicada-ha-28-anos\/"},"modified":"2022-08-09T18:02:08","modified_gmt":"2022-08-09T21:02:08","slug":"poliomielite-por-que-e-preciso-se-vacinar-contra-doenca-erradicada-ha-28-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/09\/poliomielite-por-que-e-preciso-se-vacinar-contra-doenca-erradicada-ha-28-anos\/","title":{"rendered":"Poliomielite: Por que \u00e9 preciso se vacinar contra doen\u00e7a erradicada h\u00e1 28 anos?"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima vez que o Brasil registrou um caso de poliomielite foi em 1989. A aus\u00eancia de diagn\u00f3sticos nos cinco anos seguintes levou a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) reconhecer, em 1994, que o Pa\u00eds eliminara o v\u00edrus da paralisia infantil (como a p\u00f3lio tamb\u00e9m \u00e9 chamada) em todo territ\u00f3rio nacional. Mesmo assim, especialistas ouvidos pelo Estad\u00e3o fazem um apelo para que as crian\u00e7as sejam vacinadas contra a doen\u00e7a, mesmo que o v\u00edrus n\u00e3o tenha sido detectado h\u00e1 mais de 30 anos em terras brasileiras.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O temor se justifica por uma somat\u00f3ria de motivos: circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus pelo mundo, notifica\u00e7\u00e3o de casos em outros pa\u00edses, \u00edndices de vacina\u00e7\u00e3o abaixo da meta de 95%, e a constata\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade (Opas) de que o Brasil corre um risco real de voltar a registrar casos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O primeiro motivo levantado \u00e9 o fato do poliov\u00edrus, causador da poliomielite, n\u00e3o ter sido completamente erradicado no mundo. Embora os casos de infectados tenham sofrido uma queda de 99% nas \u00faltimas d\u00e9cadas (caiu de 350 mil casos estimados, em 1988, para 29 contamina\u00e7\u00f5es notificadas em 2018), a Opas, bra\u00e7o da OMS, alerta que se a doen\u00e7a n\u00e3o for completamente eliminada no planeta, 200 mil novas infec\u00e7\u00f5es podem acontecer a cada ano dentro de uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica M\u00f4nica Levi, diretora da Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00e3o (SBIm) concorda. &#8220;Enquanto houver circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus no mundo, sempre h\u00e1 risco de retorno da doen\u00e7a&#8221;, afirma. &#8220;Se h\u00e1 uma pessoa contaminada, em meio a uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 vacinada, o poliov\u00edrus pode se espalhar rapidamente&#8221;, explica a especialista \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p>Em julho deste ano, os Estados Unidos detectaram uma contamina\u00e7\u00e3o por poliomielite depois de 29 anos. O caso foi identificado no Condado de Rockland, em Nova York, e de acordo com o Departamento de Sa\u00fade do estado, a infec\u00e7\u00e3o pode ter acontecido fora do pa\u00eds. Tamb\u00e9m em 2022, Mo\u00e7ambique (em maio) e Malau\u00ed (em fevereiro) tamb\u00e9m registraram pacientes diagnosticados com p\u00f3lio.<\/p>\n<p>Campanha de vacina\u00e7\u00e3o contra poliomielite segue at\u00e9 o dia 9 de setembro<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que o Brasil est\u00e1 em campanha nacional de vacina\u00e7\u00e3o contra a poliomielite at\u00e9 o dia 9 de setembro. O objetivo da mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ar uma cobertura vacinal igual ou maior que 95% em crian\u00e7as de 1 a 5 anos de idade, e proteger o p\u00fablico de at\u00e9 15 anos com imunizantes do Calend\u00e1rio Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o (veja a lista das vacinas distribu\u00eddas).<\/p>\n<p>A poliomielite \u00e9 uma doen\u00e7a altamente contagiosa, que atinge principalmente crian\u00e7as com menos de cinco anos e que vivem em alta vulnerabilidade social, em locais onde n\u00e3o h\u00e1 tratamento de \u00e1gua e esgoto adequado. O poliov\u00edrus \u00e9 transmitido de pessoa para pessoa por via fecal-oral ou por \u00e1gua ou alimentos contaminados, e tamb\u00e9m de forma oral-oral, por meio de got\u00edculas expelidas ao falar, tossir ou espirrar.<\/p>\n<p>O v\u00edrus ataca o intestino, mas pode chegar ao sistema nervoso e provocar paralisia irrevers\u00edvel &#8211; da\u00ed o nome paralisia infantil &#8211; em membros como as pernas, e tamb\u00e9m dos m\u00fasculos respirat\u00f3rios, levando o paciente \u00e0 morte. A poliomielite n\u00e3o tem cura, apenas preven\u00e7\u00e3o que \u00e9 feita com a vacina.<\/p>\n<p><strong>Quedas na cobertura vacinal<\/strong><\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o da especialista n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. O Brasil registra quedas na cobertura vacinal contra a p\u00f3lio desde 2016. Segundo o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es (SI-PNI), as doses previstas para a vacina inativada contra a p\u00f3lio &#8211; as que s\u00e3o administradas em beb\u00eas com menos de 1 ano completo &#8211; atingiram a meta pela \u00faltima vez em 2015, quando a cobertura foi de 98,29%.<\/p>\n<p>Depois de 2015, a ades\u00e3o despencou. Desde 2016, o pa\u00eds n\u00e3o ultrapassa a linha de 90% de crian\u00e7as vacinadas. Em 2019, caiu para 84,19%; em 2020, muito em raz\u00e3o da pandemia de covid-19, o \u00edndice chegou a 76,15% dos beb\u00eas imunizados. Em 2021, o porcentual ficou abaixo de 70% pela primeira vez, com 69,9%. Ou seja, a cada 10 crian\u00e7as, tr\u00eas n\u00e3o est\u00e3o plenamente protegidas contra o poliov\u00edrus.<\/p>\n<p>A causa para essa queda \u00e9 multifatorial e n\u00e3o deve ser atribu\u00edda somente \u00e0 pandemia, segundo os especialistas &#8211; os \u00edndices, afinal, v\u00eam caindo antes do surto de covid-19. Entre as raz\u00f5es apontadas est\u00e3o a falta de percep\u00e7\u00e3o do risco da doen\u00e7a pela popula\u00e7\u00e3o; aumento da preocupa\u00e7\u00e3o com os poss\u00edveis efeitos colaterais do imunizante; aumento da quantidade e amplitude da dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas (fake news) sobre vacina\u00e7\u00e3o; desabastecimento tempor\u00e1rio de vacinas no setor p\u00fablico e privado, e indisponibilidade dos pais de levarem \u00e0s crian\u00e7as para receber a dose nos postos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Independente do motivo, os baixos \u00edndices levaram a Opas a agir. Em maio, a organiza\u00e7\u00e3o enquadrou o Brasil em um seleto grupo de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que correm o risco de voltar a apresentar casos da doen\u00e7a se a vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ar a subir novamente. &#8220;A cobertura da p\u00f3lio est\u00e1 baixa e muito abaixo do necess\u00e1rio para conseguir manter o Pa\u00eds seguro e impedir a reintrodu\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que a gente n\u00e3o v\u00ea h\u00e1 d\u00e9cadas&#8221;, diz M\u00f4nica Levi.<\/p>\n<p>A especialista frisa que a vacina dispon\u00edvel pelo SUS, gratuita e acess\u00edvel, \u00e9 altamente eficaz e o efeito de imuniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o atinge somente um \u00fanico indiv\u00edduo, mas \u00e9 importante para a prote\u00e7\u00e3o coletiva tamb\u00e9m. &#8220;O benef\u00edcio da vacina vai al\u00e9m da prote\u00e7\u00e3o s\u00f3 da crian\u00e7a. Impede-se a transmiss\u00e3o de outras pessoas e, nesse sentido, (a vacina\u00e7\u00e3o) \u00e9 importante para a imunidade de rebanho e para que o v\u00edrus n\u00e3o circule em comunidade.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Riscos<\/strong><\/p>\n<p>Raquel Stucchi, infectologista da Universidade de Campinas (Unicamp) e Consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, lembra que, al\u00e9m da baixa ades\u00e3o \u00e0s vacinas nos \u00faltimos anos, o aumento de pessoas em vulnerabilidade social tamb\u00e9m torna o Brasil mais propenso a registrar um caso de poliomielite depois de 33 anos.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 chances, sim, de o Brasil voltar a apresentar casos de p\u00f3lio e isso se deve, principalmente, \u00e0 baixa cobertura vacinal. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o aumento da pobreza e o crescimento da quantidade de popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel que vive onde n\u00e3o h\u00e1 saneamento b\u00e1sico e tratamento de \u00e1gua e esgoto. Isso, somado \u00e0 baixa cobertura vacinal, aumenta o risco da paralisia infantil&#8221;, diz Raquel.<\/p>\n<p>O epidemiologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz Amazonas, segue na mesma linha das colegas. Para ele, o Brasil possui chances de voltar a registrar casos de poliomielite em raz\u00e3o das baixas coberturas vacinais, e lamenta que o Pa\u00eds j\u00e1 foi exemplo para o mundo no assunto de vacina\u00e7\u00e3o. &#8220;H\u00e1 chances e elas s\u00f3 aumentam na medida em que as quedas na vacina\u00e7\u00e3o contra a doen\u00e7a se consolidam, pois temos centenas de milhares de crian\u00e7as suscet\u00edveis no Brasil e ainda h\u00e1 cadeias de transmiss\u00e3o ativas do v\u00edrus no planeta&#8221;, afirma o especialista.<\/p>\n<p>&#8220;Ali\u00e1s, \u00e9 precisamente por este motivo que a Opas colocou o Brasil de volta nesta decepcionante lista, mesmo anos depois de o Pa\u00eds ter sido um exemplo positivo, com repercuss\u00e3o mundial, no que tange \u00e0s altas coberturas vacinais contra a p\u00f3lio&#8221;, completou Orellana.<\/p>\n<p><strong>Como funciona a vacina\u00e7\u00e3o contra a poliomielite?<\/strong><\/p>\n<p>O esquema vacinal contra a poliomielite consiste na administra\u00e7\u00e3o de tr\u00eas doses iniciais, que s\u00e3o distribu\u00eddas para os beb\u00eas aos 2, 4 e 6 meses de vida com a vacina injet\u00e1vel (VIP) e de v\u00edrus inativado. Depois, como refor\u00e7o, s\u00e3o administradas duas doses adicionais de vacina oral (VOP): uma quando a crian\u00e7as est\u00e1 com 15 meses e outra entre 4 e 5 anos. H\u00e1 tamb\u00e9m vacina injet\u00e1vel contra a poliomielite indicada para pessoas de at\u00e9 19 anos ou para situa\u00e7\u00f5es especiais, como indiv\u00edduos imunocomprometidos.<\/p>\n<p>Assim como M\u00f4nica Levi, Raquel Stucchi tamb\u00e9m enfatiza que a vacina contra a poliomielite tem alta capacidade de prote\u00e7\u00e3o: &#8220;Entre 95% a 97% de prote\u00e7\u00e3o&#8221;. E ela lembra que, quem n\u00e3o conseguiu completar o esquema vacinal, pode se imunizar depois. &#8220;Quem n\u00e3o completou a vacina\u00e7\u00e3o pode, a qualquer momento, atualizar o esquema vacinal. N\u00e3o perde o que j\u00e1 foi administrado. S\u00f3 se completa com as doses que est\u00e3o faltando.&#8221;<\/p>\n<p>Os especialistas explicam que os que est\u00e3o imunizados com todas as doses devem voltar a se imunizar quando precisarem sair do Pa\u00eds rumo a uma regi\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o do poliov\u00edrus.<\/p>\n<p>&#8220;Devido ao risco de importa\u00e7\u00e3o da p\u00f3lio em regi\u00f5es com hist\u00f3rico de registro da doen\u00e7a, h\u00e1 um protocolo da Coordena\u00e7\u00e3o-Geral do Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o do Brasil (acessar o protocolo), tanto para quem n\u00e3o foi vacinado, como para quem cumpriu parcialmente ou totalmente o esquema de vacina\u00e7\u00e3o contra a poliomielite, o qual deve ser rigorosamente seguido&#8221;, orientou Jesem Orellana.<\/p>\n<p><strong>Volta do sarampo como exemplo<\/strong><\/p>\n<p>O passado recente do Brasil, lembra M\u00f4nica Levi, da Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00e3o (SBIm), mostra que o receio do retorno da p\u00f3lio no Pa\u00eds &#8220;n\u00e3o \u00e9 um risco hipot\u00e9tico&#8221;. Para a especialista, as baixas ades\u00f5es para alguns dos imunizantes que comp\u00f5em o calend\u00e1rio infantil est\u00e3o colocando o Brasil sob risco de reintrodu\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as que j\u00e1 foram controladas e eliminadas. Um exemplo \u00e9 o sarampo.<\/p>\n<p>&#8220;Em 2016 n\u00f3s recebemos o certificado de elimina\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus (de sarampo) no Pa\u00eds. Mas dois anos depois, por conta das baixas coberturas vacinais, tivemos um surto da doen\u00e7a na Regi\u00e3o Norte, que se espalhou rapidamente para demais estados do Brasil e n\u00e3o conseguimos controlar totalmente at\u00e9 o momento&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em 2019, no ano seguinte ao surto e tr\u00eas anos depois de ter adquirido o selo que reconhecia a elimina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no Pa\u00eds, o Brasil perdeu a certifica\u00e7\u00e3o de pa\u00eds livre do sarampo.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, a paralisia infantil tamb\u00e9m \u00e9 uma doen\u00e7a muito grave, com sequelas permanentes, que est\u00e1 nos amea\u00e7ando de retorno&#8221;, alerta M\u00f4nica Levi. &#8220;?? f\u00e1cil manter o controle, desde que as pessoas sejam conscientizadas e vacinem as crian\u00e7as novamente. Queremos voltar a ser o exemplo que \u00e9ramos antes, retomando as altas coberturas vacinais. Esse \u00e9 o atual objetivo do PNI (Plano Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o)&#8221;, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima vez que o Brasil registrou um caso de poliomielite foi em 1989. 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