{"id":204668,"date":"2022-08-15T09:34:04","date_gmt":"2022-08-15T12:34:04","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/como-polarizacao-politica-se-manifesta-nos-patios-das-escolas\/"},"modified":"2022-08-15T09:34:04","modified_gmt":"2022-08-15T12:34:04","slug":"como-polarizacao-politica-se-manifesta-nos-patios-das-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/15\/como-polarizacao-politica-se-manifesta-nos-patios-das-escolas\/","title":{"rendered":"Como polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se manifesta nos p\u00e1tios das escolas"},"content":{"rendered":"<p>No recreio do Col\u00e9gio Jo\u00e3o Paulo I, uma escola privada, em Porto Alegre, o ch\u00e3o est\u00e1 rabiscado com giz. Ao inv\u00e9s de desenhos ou n\u00fameros para pular amarelinha, o que mais chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a frase escrita: &#8220;Fora Bolsonaro&#8221;. Uma menina do 4\u00ba ano observa as letras com tra\u00e7os tortos, indicando que algu\u00e9m mais novo do que ela tinha feito aquilo. Talvez alunos do 3\u00ba ano. Indignada, ela pega o giz e reescreve &#8220;Dentro Bolsonaro&#8221;. Sente um certo al\u00edvio, mas n\u00e3o sabe bem explicar o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Bem longe dali, no Col\u00e9gio Santo Agostinho Novo Leblon, uma escola privada, no Rio de Janeiro, durante o intervalo entre as aulas, quando n\u00e3o h\u00e1 nenhum professor na sala, um grupo de alunos come\u00e7a uma discuss\u00e3o. Alguns gritam &#8220;Melhor boca suja do que ladr\u00e3o!&#8221;. Os outros revidam &#8220;?? \u00f3bvio que n\u00e3o!&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 fora do alcance da supervis\u00e3o de professores ou monitores, durante intervalo ou recreio, que surgem as discuss\u00f5es mais acaloradas na Escola Municipal Paulino Melenau, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, pr\u00f3ximo a Recife. L\u00e1, uma aluna do 9\u00ba ano conta que &#8220;o debate \u00e0s vezes fica grosseiro&#8221; e n\u00e3o \u00e9 incomum escutar xingamentos como &#8220;bolsominion&#8221; e &#8220;fascista&#8221;.<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es se estendem at\u00e9 mesmo fora do ambiente escolar e v\u00e3o parar no grupo da turma no WhatsApp. &#8220;Meu filho fala que \u00e9 uma verdadeira guerra de figurinhas e memes&#8221;, conta a m\u00e3e de um aluno do 6\u00ba ano da escola estadual CIEP 112 Monsenhor Solano Dantas Menezes, na Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>Se as disc\u00f3rdias, fruto da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds, invadem o ambiente familiar e o c\u00edrculo de amizade entre os adultos, entre as crian\u00e7as a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. Afinal, elas s\u00e3o uma verdadeira esponja e absorvem, ainda sem pleno entendimento, as opini\u00f5es dos pais, principalmente.<\/p>\n<p>&#8220;A crian\u00e7a \u00e9 uma esponja porque precisa de um referencial. Quanto menor ela for, mais f\u00e1cil a crian\u00e7a estar apenas repetindo aquilo o que foi falado porque ela precisa partir de algum lugar&#8221;, explica a psicanalista Sylvia Caram, especialista em Educa\u00e7\u00e3o Infantil da PUC-Rio. ?? apenas a partir da adolesc\u00eancia que elas come\u00e7am a se aproximar de uma opini\u00e3o pr\u00f3pria, mas, at\u00e9 l\u00e1, defendem como verdades absolutas o que ouviram em casa.<\/p>\n<p>A autonomia de opini\u00e3o, no entanto, est\u00e1 cada vez mais precoce, acelerada pela maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 internet durante a pandemia, como relata Sylvia. S\u00e3o crian\u00e7as de at\u00e9 oito anos de idade que deixaram de ter somente os pais como \u00fanica refer\u00eancia, passando a escutar o que dizem influenciadores nas redes sociais, al\u00e9m de absorver o conte\u00fado dos in\u00fameros v\u00eddeos e memes que circulam pelas telas.<\/p>\n<h3>&#8220;Demoniza\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico&#8221;<\/h3>\n<p>O fato dessa troca de farpas entre alunos estar acontecendo longe da modera\u00e7\u00e3o dos professores ocorre, em parte, pelo receio que muitos docentes t\u00eam de propor um debate pol\u00edtico em sala de aula e serem acusados de um vi\u00e9s para esquerda ou direita.<\/p>\n<p>?? a &#8220;demoniza\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico&#8221;, como descreve Patr\u00edcia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, que coordena o EducaM\u00eddia, um programa de educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica direcionado aos jovens e que tem parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). <\/p>\n<p>&#8220;Depois daquele movimento da &#8216;Escola sem partido&#8217;, em que as escolas estavam sendo acusadas de doutrinar os jovens com conte\u00fado de direita ou de esquerda, principalmente, houve um processo de criminalizar o debate sobre pol\u00edtica. O professor passou a se sentir desincentivado a tratar desse tema em sala de aula&#8221;, afirma Patr\u00edcia.<\/p>\n<p>Ela cita a pesquisa Juventudes e Pol\u00edtica, do instituto Ipec, publicada neste ano, a qual aponta que o jovem est\u00e1 interessado em quest\u00f5es pol\u00edticas, mas vem se informando e formando sua opini\u00e3o a partir de influenciadores que muitas vezes t\u00eam o mesmo n\u00edvel de conhecimento que ele em tais temas. <\/p>\n<p>&#8220;Da\u00ed a import\u00e2ncia de a escola entrar nesse debate formando esse jovem para que ele possa ir atr\u00e1s de informa\u00e7\u00f5es e construir sua pr\u00f3pria opini\u00e3o. N\u00e3o podemos deix\u00e1-lo \u00e0 margem e s\u00f3 convid\u00e1-lo a se manifestar na \u00e9poca da elei\u00e7\u00e3o. Temos que dar subs\u00eddios para que ele possa fazer uma escolha bem informada, que entenda quais s\u00e3o os crit\u00e9rios que deve levar em conta na hora de decidir o voto. Isso transcende a quest\u00e3o partid\u00e1ria&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>Na Escola Nova, no Rio de Janeiro, desde o 4\u00ba ano do Ensino Fundamental h\u00e1 um exerc\u00edcio feito com regularidade em sala de aula para quebrar o engessamento de opini\u00f5es que geram brigas. A diretora Vera Affonseca conta que s\u00e3o escolhidos temas pol\u00eamicos. A sala \u00e9 dividida em grupos que defendem um ponto de vista e depois eles invertem as posi\u00e7\u00f5es. &#8220;?? uma pr\u00e1tica que temos para que os alunos entendam como o outro pensa. Para que aquele que \u00e9 contra um determinado assunto assuma um posicionamento a favor&#8221;, conta. Para os mais velhos, j\u00e1 foram debatidos temas como demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e porte de armas, e, com a proximidade das elei\u00e7\u00f5es, nomes de pr\u00e9-candidatos. <\/p>\n<p>&#8220;?? uma brincadeira muito interessante porque eles precisam pensar em como defender aquilo que detonaram tanto, vivenciar os dois lados. Com pol\u00edtica, fica mais acirrado. Ent\u00e3o tem que ter o professor como mediador e regras. Saber discutir sem agredir. Eles aprendem a respeitar o ponto de vista do outro&#8221;, diz a educadora.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de simulados de elei\u00e7\u00f5es \u00e9 outra forma que escolas encontram para incentivar o debate pol\u00edtico construtivo. Foi o que fez, por exemplo, o Col\u00e9gio Militar de Para\u00edso do Tocantins em parceria com a Escola Judici\u00e1ria do Tribunal Regional Eleitoral e o cart\u00f3rio local, que, juntos, desde 2018, promovem o projeto &#8220;Agentes da Democracia &#8211; Forma\u00e7\u00e3o de Eleitores e Pol\u00edticos do Futuro&#8221;. Participaram todos os alunos do Ensino M\u00e9dio e muitos sa\u00edram do evento j\u00e1 com o t\u00edtulo eleitoral encaminhado.<\/p>\n<p>&#8220;O intuito era mostrar que a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um grande vil\u00e3o. Eles fizeram um trabalho muito din\u00e2mico, com uma roda de conversa. Falaram sobre diversos temas, como, por exemplo, a seguran\u00e7a da urna eletr\u00f4nica. Inclusive eles trouxeram urnas, explicaram como elas funcionam&#8221;, conta Jordana Marques, orientadora disciplinar do Col\u00e9gio Militar de Para\u00edso do Tocantins. <\/p>\n<h3>&#8220;P\u00e3o com salame por voto&#8221;<\/h3>\n<p>O conhecimento de todas as esferas do poder e o entendimento das fun\u00e7\u00f5es de cada cargo pol\u00edtico foram vitais para acabar com os conflitos na Escola Estadual Jos\u00e9 Ferreira Maia, em Tim\u00f3teo, Minas Gerais. ?? de l\u00e1 a professora Karina Let\u00edcia Pinto, vencedora do Pr\u00eamio Professor Transformador 2021 pelo trabalho que fez na constru\u00e7\u00e3o de valores democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>&#8220;O projeto surgiu por causa da intoler\u00e2ncia em sala de aula, havia uma polariza\u00e7\u00e3o muito forte. A gente via a replica\u00e7\u00e3o da fala dos pais nos alunos. Dava muita confus\u00e3o porque um n\u00e3o aceitava o que o outro falava e eram crian\u00e7as de nove a dez anos de idade. A discuss\u00e3o terminava com um dizendo &#8216;l\u00e1 fora na sa\u00edda vou te pegar&#8217;. Isso atrapalhava o conv\u00edvio. Eu nunca tinha visto aquilo em 13 anos de sala de aula&#8221;, lembra a docente.<\/p>\n<p>Karina percebeu que as brigas ocorriam por motivos que as crian\u00e7as nem entendiam direito. Foi a\u00ed que teve a ideia de falar sobre o que \u00e9 pol\u00edtica. &#8220;Comecei explicando o que era o poder Legislativo, porque as crian\u00e7as achavam que s\u00f3 o presidente mandava no pa\u00eds. Mas eles foram entendendo como surgem as leis, como s\u00e3o votadas e por quem, quando passam a valer e como interferem em nossas vidas&#8221;, relata. Depois seguiram as li\u00e7\u00f5es sobre os poderes Executivo e Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Ensinei tudo de uma forma bem did\u00e1tica. Expliquei a independ\u00eancia dos tr\u00eas poderes, mas que os tr\u00eas precisam ser amigos, que nenhum faz uma coisa sem o outro, que eles colaboram com o outro. Foi a partir da\u00ed que o debate em sala de aula passou a ser mais construtivo. Os alunos expressavam suas ideias, mas sabendo que deveriam respeitar a ideia do colega&#8221;, diz Karina.<\/p>\n<p>O primeiro exerc\u00edcio de democracia aconteceu na escolha do l\u00edder de sala de aula e a professora conta que o processo eleitoral teve at\u00e9 den\u00fancia de compra de voto. &#8220;Alguns alunos vieram relatar, indignados, que teve gente querendo trocar a merenda, um p\u00e3o com salame, por voto&#8221;, conta em meio a risadas. &#8220;Mas eles tinham aprendido o que era corrup\u00e7\u00e3o e que aquilo era errado.&#8221;<\/p>\n<p>Os alunos tamb\u00e9m aprenderam sobre or\u00e7amento, entrevistaram o prefeito de Tim\u00f3teo e chegaram a fazer uma sess\u00e3o simulada no plen\u00e1rio da c\u00e2mara municipal. Enquanto buscava mais ideias de atividades, Karina descobriu o Plenarinho, uma iniciativa educacional da C\u00e2mara dos Deputados voltada \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8220;Vi que tinha um concurso nacional. As dez melhores reda\u00e7\u00f5es de professores sobre toler\u00e2ncia dentro da escola eram selecionadas para levar os alunos ao Congresso Nacional, onde seriam deputados mirins por um dia&#8221;, conta. O texto de Karina foi escolhido. Professora, alunos e pais foram para Bras\u00edlia &#8211; depois de, com muito esfor\u00e7o, conseguirem juntar dinheiro para a viagem, j\u00e1 que a maioria n\u00e3o tinha recursos.<\/p>\n<p>&#8220;Foi um impacto para toda a fam\u00edlia. Muito interessante as crian\u00e7as quando chegaram em Bras\u00edlia e explicaram para os pais o que era o Congresso Nacional. No STF, uma das alunas com dez anos explicou para a m\u00e3e o que representava aquela est\u00e1tua com os olhos vendados. Eles captaram todas as li\u00e7\u00f5es&#8221;, conta a docente. &#8220;Eu n\u00e3o tive mais briga, bate-boca. Essa experi\u00eancia deixou bem claro que \u00e9 pelo conhecimento que evitamos a escalada de conflitos destrutivos.&#8221;<\/p>\n<p><i>&#8211; Este texto foi publicado originalmente em <\/i>https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-62440996<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? Inscreva-se no nosso canal! <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No recreio do Col\u00e9gio Jo\u00e3o Paulo I, uma escola privada, em Porto Alegre, o ch\u00e3o est\u00e1 rabiscado com giz. 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