{"id":205009,"date":"2022-08-15T20:32:03","date_gmt":"2022-08-15T23:32:03","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/08\/o-que-e-politica-de-reducao-de-danos-a-usuarios-de-drogas\/"},"modified":"2022-08-15T20:32:03","modified_gmt":"2022-08-15T23:32:03","slug":"o-que-e-politica-de-reducao-de-danos-a-usuarios-de-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/08\/15\/o-que-e-politica-de-reducao-de-danos-a-usuarios-de-drogas\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos a usu\u00e1rios de drogas"},"content":{"rendered":"<div><strong>Investigado por: <\/strong>A Gazeta, Estad\u00e3o e Correio do Estado<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Comprova Explica: <\/strong>A pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos re\u00fane uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias que visam cuidar das pessoas que usam drogas, conferindo a elas maior qualidade de vida. As interven\u00e7\u00f5es buscam, ainda, reduzir os riscos de infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>As cartilhas que tratam do assunto n\u00e3o s\u00e3o voltadas para escolas, mas para profissionais de sa\u00fade que atuam com pessoas que fazem o uso eventual de drogas e dependentes qu\u00edmicos. A iniciativa, cujo hist\u00f3rico aponta para o ano de 1926 na Inglaterra, \u00e9 adotada em diversos pa\u00edses com resultados positivos na assist\u00eancia ao p\u00fablico que faz uso de drogas. Ao longo do texto, utilizamos o termo usu\u00e1rio para fazer refer\u00eancia a qualquer pessoa que utilize subst\u00e2ncias psicoativas.<\/div>\n<div><strong><br \/><\/strong><\/div>\n<div><strong>Conte\u00fado analisado:<\/strong> V\u00eddeo da candidata ao Senado Damares Alves (Republicanos), ex-ministra da Mulher, Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que ela acusa a gest\u00e3o do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) de ???motivar??? adolescentes e jovens a usar drogas. No v\u00eddeo, publicado no YouTube, Damares l\u00ea conte\u00fado de cartilha que trata sobre o uso de entorpecentes e, ao fundo, aparecem imagens de trechos destacados da publica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m uma inser\u00e7\u00e3o de fotos de Lula, candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, com um fundo preto e as inscri\u00e7\u00f5es: ???Governo Lula ensinava em cartilha como os jovens deveriam usar crack.??? A ex-ministra diz que essa era a pol\u00edtica de preven\u00e7\u00e3o ao uso de \u00e1lcool e drogas na administra\u00e7\u00e3o petista.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><strong>Comprova Explica: <\/strong>O v\u00eddeo de Damares Alves colocou em debate a preven\u00e7\u00e3o ao uso de \u00e1lcool e outras drogas durante as administra\u00e7\u00f5es do PT. No v\u00eddeo, a ex-ministra afirma que, no governo Lula, adolescentes e jovens eram ensinados a utilizar entorpecentes. O discurso saiu do YouTube e ganhou as redes sociais, com discuss\u00f5es sobre a pol\u00edtica adotada na gest\u00e3o petista.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A cartilha apresentada pela ex-ministra de fato foi produzida pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, \u00e0 \u00e9poca sob o comando do ministro Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, no governo Lula, mas tinha como foco servi\u00e7os de sa\u00fade que acolhem usu\u00e1rios de drogas e dependentes qu\u00edmicos. Seu objetivo era auxiliar os profissionais dedicados a lidar com pessoas que se recusam a abandonar o uso de entorpecentes, mas que desejam evitar outros problemas correlacionados, como doen\u00e7as transmiss\u00edveis, por exemplo. A\u00e7\u00f5es neste sentido constituem a chamada pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Com a repercuss\u00e3o do caso, o Comprova decidiu explicar o que significa a pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos divulgada por Damares e que havia sido implementada nos governos do PT.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Cartilha apresentada por Damares Alves era distribu\u00edda entre profissionais de sa\u00fade<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Os trechos da cartilha lidos por Damares Alves fazem parte do \u00e1lbum seriado ???Preven\u00e7\u00e3o \u00e0s IST, HIV\/Aids e Hepatites entre pessoas que usam \u00e1lcool e outras drogas???, segundo Maria Ang\u00e9lica de Castro Comis, psic\u00f3loga e integrante da organiza\u00e7\u00e3o Rede Brasileira de Redu\u00e7\u00e3o de Danos e Direitos Humanos (Reduc).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A especialista informa ao Comprova que o material foi veiculado em 2008 e era destinado a profissionais do Sistema ??nico de Sa\u00fade (SUS) que atuavam junto aos usu\u00e1rios e dependentes qu\u00edmicos.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Conforme informou o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em Nota T\u00e9cnica de janeiro de 2019, ao responder a um requerimento do ent\u00e3o deputado federal Miguel Martini, que era do PHS naquele per\u00edodo, foram produzidos 10 mil \u00e1lbuns seriados ao custo de R$ 32.200 (R$ 3,22 cada) e, na \u00e9poca, 1.356 ainda estavam em estoque. A distribui\u00e7\u00e3o foi feita por mala direta aos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPs), aos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) e aos Servi\u00e7os de Aten\u00e7\u00e3o Especializada em HIV\/Aids (SAE).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Acompanhava o material uma orienta\u00e7\u00e3o expressa para que fossem utilizados exclusivamente por profissionais de sa\u00fade e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil para o trabalho dirigido \u00e0s pessoas que usam \u00e1lcool e outras drogas, em servi\u00e7os espec\u00edficos e em campo. O Comprova teve acesso ao documento via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, fornecido pela C\u00e2mara dos Deputados.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O \u00e1lbum compunha um kit lan\u00e7ado em 10 de outubro de 2008 que inclu\u00eda cart\u00e3o para qualquer usu\u00e1rio de subst\u00e2ncias psicoativas, com espa\u00e7o para anota\u00e7\u00e3o do endere\u00e7o do servi\u00e7o de refer\u00eancia, e cartaz com informa\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O objetivo do material era servir de apoio ao trabalho dos profissionais de sa\u00fade e dos agentes que atuam com redu\u00e7\u00e3o de danos na abordagem dos usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas. ???O conjunto de materiais foi concebido para contribuir na melhoria do acolhimento das pessoas que usam \u00e1lcool e outras drogas dentro do sistema de sa\u00fade e para combater o preconceito, o estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o???, informa a nota t\u00e9cnica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Segundo o documento, o acolhimento de qualidade possibilita a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, estrutura v\u00ednculos de confian\u00e7a, fortalece a auto-estima, estimula o usu\u00e1rio a cuidar de si. ???Para quem usa \u00e1lcool e outras drogas, isso pode significar redu\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, diminui\u00e7\u00e3o\/interrup\u00e7\u00e3o do consumo de subst\u00e2ncias psicoativas???, conclui o texto.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Doutora em Sa\u00fade Coletiva e pesquisadora do Grupo de Estudos em \u00c1lcool e Outras Drogas da Universidade Federal de Pernambuco (GEAD\/UFPE), Rossana Rameh acrescenta que a cartilha visava atingir usu\u00e1rios de drogas pesadas, inclusive injet\u00e1veis, e o segmento espec\u00edfico de profissionais que lidam com esse p\u00fablico. ???N\u00e3o \u00e9 uma tela para ser distribu\u00edda na escolinha ou em qualquer servi\u00e7o de sa\u00fade???, afirma. ???Era criado e feito para usu\u00e1rios de drogas, pessoas que dizem ???eu uso e n\u00e3o quero parar, n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de parar, quero usar sem me ferrar tanto, o que eu fa\u00e7o???????, diz.<\/div>\n<h2>O que \u00e9 a pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos<\/h2>\n<div>Rossana Rameh ressalta que a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma pol\u00edtica feita diretamente com o usu\u00e1rio de drogas e considera que a sociedade nunca esteve e nunca estar\u00e1 livre das drogas. Assim, afirma, a perspectiva levada em conta \u00e9 que as pessoas v\u00e3o continuar usando drogas independentemente de o governo manter ou n\u00e3o uma pol\u00edtica proibicionista.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A especialista diz, ainda, que a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 um conjunto de estrat\u00e9gias e interven\u00e7\u00f5es que visam cuidar das pessoas que usam drogas, inclusive incentivando-as a parar de us\u00e1-las, se esse for o desejo delas. Essa pol\u00edtica, continua Rossana, n\u00e3o nega abstin\u00eancia, mas tamb\u00e9m considera que algumas pessoas n\u00e3o v\u00e3o desejar parar ou n\u00e3o poder\u00e3o parar de imediato. ???Isso \u00e9 uma coisa mais complexa, mas que a gente precisa dizer que algumas pessoas v\u00e3o usar drogas na vida???.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Para Maria Ang\u00e9lica de Castro Comis, que atua na \u00e1rea, a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma pol\u00edtica que busca melhorar a qualidade de vida das pessoas, principalmente aquelas que usam drogas, al\u00e9m de prevenir as infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div> ???A redu\u00e7\u00e3o de danos tem como objetivo modificar o padr\u00e3o de uso de drogas, reduzir os agravos de sa\u00fade e sociais das pessoas mais vulner\u00e1veis, como usu\u00e1rias de drogas, profissionais do sexo, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, entre outros???, diz.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A psic\u00f3loga refor\u00e7a que a redu\u00e7\u00e3o de danos n\u00e3o tem como principal objetivo levar o usu\u00e1rio \u00e0 abstin\u00eancia, mas sim incentivar o cuidado. ???A redu\u00e7\u00e3o de danos pode ser um caminho para a abstin\u00eancia, mas por ser uma pol\u00edtica com baixa exig\u00eancia muitas vezes \u00e9 arbitrariamente acusada de apologia ao uso de drogas???, afirma Maria Ang\u00e9lica.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Wander Wilson J\u00fanior, doutor em Ci\u00eancias Sociais e pesquisador de drogas, sa\u00fade mental e redu\u00e7\u00e3o de danos, afirma o mesmo. Segundo ele, a redu\u00e7\u00e3o de danos n\u00e3o se trata de incitar ou n\u00e3o o uso de entorpecentes, mas falar francamente sobre o que \u00e9 o uso e lidar com uma realidade concreta que \u00e9 a exist\u00eancia de usu\u00e1rios.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Essa erradica\u00e7\u00e3o e esse mundo sem drogas \u00e9 uma utopia que nunca se cumpre, nunca vai se cumprir, e inclusive isso tem um papel em manter o que se chama de guerras \u00e0s drogas, esse fracasso que nunca se cumpre, se mant\u00e9m sempre como promessa e a resposta para essa promessa \u00e9 sempre mais encarceramento, sempre menos conversa franca???, argumenta.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O especialista explica que a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica de sa\u00fade, bem como uma tentativa \u00e9tica de cuidado com as pessoas que usam drogas. ???Voc\u00ea vai ver o usu\u00e1rio como uma pessoa que usa drogas, e se ele tiver sofrimento relacionado ao uso de drogas e o uso for considerado problem\u00e1tico, seja ele diagnosticado como depend\u00eancia ou n\u00e3o, voc\u00ea vai montar, junto com essa pessoa, possibilidades de cuidado para produzir uma vida que vale a pena ser vivida???, afirma.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Ele destaca, por\u00e9m, que este processo \u00e9 feito de forma conjunta. ???Voc\u00ea n\u00e3o vai impor uma forma de cuidado e uma moral de cima para baixo para essa pessoa, mas vai construir junto com ela???, diz: ???Algumas pessoas n\u00e3o v\u00e3o querer parar de usar drogas, outras v\u00e3o colocar isso como uma meta e ir\u00e3o demorar algum tempo, ter\u00e3o suas dificuldades, e voc\u00ea n\u00e3o vai colocar a abstin\u00eancia de drogas como uma exig\u00eancia de cuidado com essa pessoa???.<\/div>\n<h2>Hist\u00f3rico da estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos<\/h2>\n<div>Wander Wilson J\u00fanior resgata a hist\u00f3ria da estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos retornando ao ano de 1926, quando um relat\u00f3rio ingl\u00eas chamado Rolleston tentou formalizar a pr\u00e1tica, a partir da experi\u00eancia de soldados em guerra.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Muitos combatentes voltaram ao seu pa\u00eds dependentes de opioides (morfina) e alguns deles n\u00e3o conseguiam parar de utiliz\u00e1-los, mesmo querendo, o que atrapalhava a vida que levavam.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Se formalizou uma possibilidade cl\u00ednico-terap\u00eautica de se ter uma prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de opioides com doses manej\u00e1veis para que a pessoa continuasse consumindo opioides, mas mantendo a sua vida, a sua rotina corriqueira, de forma produtiva???.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>No Brasil, aponta Wander Wilson J\u00fanior, o ano de 1989 foi um marco importante quando a Prefeitura de Santos, no litoral de S\u00e3o Paulo, tentou implementar uma pol\u00edtica de distribui\u00e7\u00e3o de seringas descart\u00e1veis na regi\u00e3o portu\u00e1ria, considerando a alta incid\u00eancia de infec\u00e7\u00e3o por HIV decorrente do consumo de coca\u00edna injet\u00e1vel. ???Mas essa pol\u00edtica teve que retroceder baseada numa press\u00e3o moral que envolvia m\u00eddia, religi\u00e3o e a sociedade de modo geral???, afirma.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Wander Wilson J\u00fanior, doutor em Ci\u00eancias Sociais e pesquisador de drogas, sa\u00fade mental e redu\u00e7\u00e3o de danos, afirma o mesmo. Segundo ele, a redu\u00e7\u00e3o de danos n\u00e3o se trata de incitar ou n\u00e3o o uso de entorpecentes, mas falar francamente sobre o que \u00e9 o uso e lidar com uma realidade concreta que \u00e9 a exist\u00eancia de usu\u00e1rios.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Essa erradica\u00e7\u00e3o e esse mundo sem drogas \u00e9 uma utopia que nunca se cumpre, nunca vai se cumprir, e inclusive isso tem um papel em manter o que se chama de guerras \u00e0s drogas, esse fracasso que nunca se cumpre, se mant\u00e9m sempre como promessa e a resposta para essa promessa \u00e9 sempre mais encarceramento, sempre menos conversa franca???, argumenta.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>O especialista explica que a redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica de sa\u00fade, bem como uma tentativa \u00e9tica de cuidado com as pessoas que usam drogas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div> ???Voc\u00ea vai ver o usu\u00e1rio como uma pessoa que usa drogas, e se ele tiver sofrimento relacionado ao uso de drogas e o uso for considerado problem\u00e1tico, seja ele diagnosticado como depend\u00eancia ou n\u00e3o, voc\u00ea vai montar, junto com essa pessoa, possibilidades de cuidado para produzir uma vida que vale a pena ser vivida???, afirma.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Ele destaca, por\u00e9m, que este processo \u00e9 feito de forma conjunta. ???Voc\u00ea n\u00e3o vai impor uma forma de cuidado e uma moral de cima para baixo para essa pessoa, mas vai construir junto com ela???, diz: ???Algumas pessoas n\u00e3o v\u00e3o querer parar de usar drogas, outras v\u00e3o colocar isso como uma meta e ir\u00e3o demorar algum tempo, ter\u00e3o suas dificuldades, e voc\u00ea n\u00e3o vai colocar a abstin\u00eancia de drogas como uma exig\u00eancia de cuidado com essa pessoa???.<\/div>\n<h2>Hist\u00f3rico da estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos<\/h2>\n<div>Wander Wilson J\u00fanior resgata a hist\u00f3ria da estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o de danos retornando ao ano de 1926, quando um relat\u00f3rio ingl\u00eas chamado Rolleston tentou formalizar a pr\u00e1tica, a partir da experi\u00eancia de soldados em guerra.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Muitos combatentes voltaram ao seu pa\u00eds dependentes de opioides (morfina) e alguns deles n\u00e3o conseguiam parar de utiliz\u00e1-los, mesmo querendo, o que atrapalhava a vida que levavam.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>???Se formalizou uma possibilidade cl\u00ednico-terap\u00eautica de se ter uma prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de opioides com doses manej\u00e1veis para que a pessoa continuasse consumindo opioides, mas mantendo a sua vida, a sua rotina corriqueira, de forma produtiva???.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>No Brasil, aponta Wander Wilson J\u00fanior, o ano de 1989 foi um marco importante quando a Prefeitura de Santos, no litoral de S\u00e3o Paulo, tentou implementar uma pol\u00edtica de distribui\u00e7\u00e3o de seringas descart\u00e1veis na regi\u00e3o portu\u00e1ria, considerando a alta incid\u00eancia de infec\u00e7\u00e3o por HIV decorrente do consumo de coca\u00edna injet\u00e1vel. ???Mas essa pol\u00edtica teve que retroceder baseada numa press\u00e3o moral que envolvia m\u00eddia, religi\u00e3o e a sociedade de modo geral???, afirma.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em mar\u00e7o de 1997, S\u00e3o Paulo aprovou a primeira Lei Estadual de Redu\u00e7\u00e3o de Danos (9.758\/97). Sete anos depois, em outubro de 2004, a Portaria 2.197 integra a Redu\u00e7\u00e3o de Danos ao SUS e as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o regulamentadas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade pela Portaria 1028, de julho de 2005. No mesmo ano, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas a Pol\u00edtica Nacional Sobre Drogas, com um cap\u00edtulo destinado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de danos. J\u00e1 em 2006, foi sancionada a Lei 11.343, que excluiu a pena de pris\u00e3o para usu\u00e1rios de subst\u00e2ncias il\u00edcitas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o desta verifica\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade enviou resposta ao contato anterior da equipe do Comprova. Na nota, o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o informa se adota, atualmente, alguma pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos. Al\u00e9m disso, o minist\u00e9rio n\u00e3o deu um posicionamento acerca das afirma\u00e7\u00f5es feitas pela ex-ministra Damares. O Minist\u00e9rio informou apenas sobre medidas de atendimento psicossocial realizadas atualmente.<\/div>\n<h2>Pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos em outros pa\u00edses<\/h2>\n<div>A pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade do Brasil. V\u00e1rios pa\u00edses implementaram a estrat\u00e9gia, visando minimizar os impactos do uso de drogas. Maria Ang\u00e9lica afirma que a medida \u00e9 amplamente adotada em pa\u00edses como Canad\u00e1, Alemanha, Su\u00ed\u00e7a, Austr\u00e1lia, Estados Unidos, Holanda, Espanha, Portugal e Fran\u00e7a. Nesses locais, segundo ela, as pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o de danos est\u00e3o articuladas a outras pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, assist\u00eancia social, habitacional, seguran\u00e7a p\u00fablica e trabalho. ???Muitos desses pa\u00edses t\u00eam espa\u00e7os de uso seguro de drogas, que evitam mortes por overdose e s\u00e3o articulados com servi\u00e7os para desintoxica\u00e7\u00e3o???, afirma.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Para Rossana Rameh, a utiliza\u00e7\u00e3o de salas seguras, como ocorre na Su\u00ed\u00e7a e Espanha, por exemplo, est\u00e1 longe de ocorrer no Brasil. ???Aqui \u00e9 algo extremamente impens\u00e1vel nos dias atuais, no sentido do moralismo, do medo???, diz.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A pesquisadora observa que, no Brasil, fala-se muito em guerra \u00e0s drogas, mas ela avalia que essa guerra \u00e9 mais voltada aos usu\u00e1rios. ???E tem um foco. Essa guerra tem cor e classe social. O Uruguai, com toda a sua pol\u00edtica de regula\u00e7\u00e3o do uso da cannabis, traz uma regulamenta\u00e7\u00e3o que facilita o controle dessa subst\u00e2ncia e do usu\u00e1rio. H\u00e1 um mapeamento dessas pessoas de forma muito tranquila, sem julgamento e persegui\u00e7\u00e3o, mas com a possibilidade de essas pessoas n\u00e3o se colocarem mais em risco e em viol\u00eancia porque est\u00e3o comprando uma subst\u00e2ncia numa boca de fumo, por exemplo.???<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Wander Wilson pontua que as abordagens nos diversos pa\u00edses que adotam as estrat\u00e9gias podem ser diferentes, pensando no territ\u00f3rio e nas especificidades de cada lugar, mas est\u00e3o frequentemente articuladas com outras pol\u00edticas, estabelecendo uma rede de cuidado.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Por que explicamos: O Comprova investiga conte\u00fados suspeitos sobre a pandemia, elei\u00e7\u00f5es presidenciais e pol\u00edticas p\u00fablicas do governo federal que viralizaram nas redes sociais. A ferramenta Comprova Explica \u00e9 utilizada para a divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es a partir de conte\u00fados que viralizam e causam confus\u00e3o. A redu\u00e7\u00e3o de danos \u00e9 uma estrat\u00e9gia de sa\u00fade p\u00fablica que busca controlar consequ\u00eancias adversas ao consumo de psicoativos ??? l\u00edcitos ou il\u00edcitos ??? sem, necessariamente, interromper esse uso. A estrat\u00e9gia n\u00e3o deve ser confundida com apologia ao consumo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Alcance da publica\u00e7\u00e3o: At\u00e9 o dia 12 de agosto, o v\u00eddeo da Damares Alves alcan\u00e7ou mais de 10,7 mil visualiza\u00e7\u00f5es no YouTube.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Outras publica\u00e7\u00f5es sobre o tema: O v\u00eddeo da ex-ministra repercutiu na imprensa profissional nesta semana (Veja, Correio Braziliense), mas este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico tema relacionado a Lula recentemente. O Comprova j\u00e1 demonstrou em outras verifica\u00e7\u00f5es que o ex-presidente n\u00e3o disse que vai implantar a ditadura no Brasil, nem h\u00e1 registros de declara\u00e7\u00f5es de Lula para eliminar o agroneg\u00f3cio da Terra. H\u00e1 dois anos, o G1 apontou que era fake a alega\u00e7\u00e3o de que governos do PT haviam criado ???bolsa usu\u00e1rio??? para viciados em drogas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Esta reportagem foi atualizada em 15 de agosto para incorporar informa\u00e7\u00f5es enviadas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e recebidas ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Investigado por: A Gazeta, Estad\u00e3o e Correio do Estado \u00a0 Comprova Explica: A pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de danos re\u00fane uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias que\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":205010,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-205009","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=205009"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205009\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=205009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=205009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=205009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}