{"id":55266,"date":"2022-03-13T14:15:47","date_gmt":"2022-03-13T17:15:47","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/belfast-guerra-de-algodao\/"},"modified":"2022-03-13T14:15:47","modified_gmt":"2022-03-13T17:15:47","slug":"belfast-guerra-de-algodao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/13\/belfast-guerra-de-algodao\/","title":{"rendered":"Belfast: Guerra de algod\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Logo nas primeiras imagens do filme, a Belfast colorida e ensolarada dos dias atuais, com sua arquitetura moderna e grandiosa, cidade portu\u00e1ria charmosa, d\u00e1 lugar \u00e0 mesma localidade no final dos anos 1960, fotografada em preto-e-branco, mantendo o mesmo charme de um local acolhedor. O lugar continua ensolarado e \u00e9 ali que repousam as mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia do diretor Kenneth Branagh, encarnado aqui pelo pequeno Buddy (o primeiro papel no cinema de Jude Hill), seu alter ego de nove anos de idade.<br \/>\nE \u00e9 logo ali nas primeiras cenas tamb\u00e9m que o filme interrompe as brincadeiras de rua das crian\u00e7as, o clima calmo e pac\u00edfico da vizinhan\u00e7a, porque sem aviso irrompe no bairro uma manifesta\u00e7\u00e3o violenta de um grupo intolerante de protestantes que se lan\u00e7am contra as fam\u00edlias cat\u00f3licas do bairro; eles querem expulsar os cat\u00f3licos a todo o custo, muito embora nem todos partilhem desse mesmo desejo, como \u00e9 o caso da fam\u00edlia de Buddy, todos protestantes.<br \/>\nBelfast contrap\u00f5e, assim, as mem\u00f3rias familiares e \u00edntimas da inf\u00e2ncia com os embates pol\u00edticos e sociais que marcaram a Irlanda do Norte, onde se situa Belfast ??? territ\u00f3rio pertencente ao Reino Unido, diferente da Irlanda, que \u00e9 um pa\u00eds independente.<br \/>\n?? sob o olhar infantil que o filme observa algumas dessas movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em car\u00e1ter micro e comunit\u00e1rio, enquanto Buddy cresce e forma seu car\u00e1ter ao lado da m\u00e3e sempre presente (Caitriona Balfe) e do pai (Jamie Dornan) que trabalha na Inglaterra e volta de tempos em tempos para ver a fam\u00edlia.<br \/>\nCom isso, Buddy se relaciona muito com os av\u00f3s paternos (interpretados por Judi Dench e Ciar\u00e1n Hinds, ambos indicados ao Oscar), o irm\u00e3o mais velho, com os primos e colegas de escola. Tamb\u00e9m se mostra inocentemente apaixonado pela jovem Catherine.<br \/>\nEnquanto isso, v\u00ea os lampejos de viol\u00eancia que irrompem no bairro sem entender direito as suas motiva\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias, enquanto sua fam\u00edlia tenta decidir se \u00e9 melhor ficar em Belfast ou partir em busca de novas oportunidades longe dali.<br \/>\nEmo\u00e7\u00f5es calculadas<br \/>\nAinda que o filme se esforce para criar uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e contextual sobre os acontecimentos do per\u00edodo, Belfast n\u00e3o \u00e9 um filme interessado em investigar e se aprofundar nas quest\u00f5es de ordem hist\u00f3rica que o pr\u00f3prio filme convoca para a trama. Est\u00e1 sempre pendendo para as rela\u00e7\u00f5es familiares, para as mem\u00f3rias alegres, mesmo que fugazes da inf\u00e2ncia, para o conforto da prote\u00e7\u00e3o dos seus. Fazem-se sempre presentes as brincadeiras de inf\u00e2ncia, as muitas idas ao cinema e filmes vistos em casa, a fantasia das crian\u00e7as como v\u00e1lvula de escape da realidade.<br \/>\nMas mesmo a\u00ed, o filme tamb\u00e9m n\u00e3o consegue concentrar suas energias nas disposi\u00e7\u00f5es familiares e na rede de afetos que circulam naquele \u00e2mbito, muito embora tais nuances estejam l\u00e1 desde o in\u00edcio. Falta a Belfast se deter nelas de fato, aprofund\u00e1-las, tanto no aspecto s\u00f3cio-pol\u00edtico, como no \u00edntimo. O filme funciona como lampejos de situa\u00e7\u00f5es em que tais dimens\u00f5es se intercalam e passam a compor uma esp\u00e9cie de quebra-cabe\u00e7a emocional e hist\u00f3rico a marcar a vida desse garoto, mas que muitas vezes passam com pouca for\u00e7a para o espectador.\u00a0<br \/>\nO filme se escora na pr\u00f3pria ideia de um olhar infantil que observa tudo isso com ingenuidade, o que n\u00e3o significa que ele precise ser t\u00e3o frio e esquem\u00e1tico ??? ainda mais por se tratar de algo caro ao diretor, ligado \u00e0s suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias e forma\u00e7\u00e3o pessoal. Filmes como o brasileiro O Ano em que Meus Pais Sa\u00edram de F\u00e9rias (2006), de Cao Hamburguer, o chileno Machuca (2005), de Andr\u00e9s Wood, e mesmo uma produ\u00e7\u00e3o como Roma (2018), de Alfonso Cuar\u00f3n, s\u00e3o filmes em que o olhar infantil n\u00e3o impede a profundidade das quest\u00f5es ali tratadas, por vezes muito s\u00e9rias e historicamente importantes para seus respectivos pa\u00edses, para al\u00e9m do impacto emocional nos pequenos indiv\u00edduos que futuramente contar\u00e3o suas hist\u00f3rias.<br \/>\nNesse sentido, \u00e9 como se tudo em Belfast fosse um tanto calculado, orquestrado e minimamente pensado para demonstrar determinadas emo\u00e7\u00f5es e acontecimentos, mas apenas como impress\u00f5es moment\u00e2neas e n\u00e3o como fatos realmente marcantes. O filme at\u00e9 que se esfor\u00e7a para criar momentos que sejam fortes, bonitos e carinhosos (a trama est\u00e1 repleta deles), mas dificilmente eles se fixam na mente do espectador.\u00a0<br \/>\nComposi\u00e7\u00e3o limpa<br \/>\nDepois de lan\u00e7ar o drama de mist\u00e9rio Morte no Nilo, baseado em obra de Agatha Christie, Branagh chega agora em uma chave mais autoral e pessoal, capacidade que tem em alternar as duas dimens\u00f5es narrativas dentro da ind\u00fastria hollywoodiana. H\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, o filme era considerado um dos mais fortes concorrentes ao Oscar, favoritismo que atualmente j\u00e1 perdeu para Ataque dos C\u00e3es, de Jane Campion.\u00a0<br \/>\nAinda assim, o filme segue firme na disputa com sete indica\u00e7\u00f5es (incluindo Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original). Curiosamente, n\u00e3o foi lembrado nem nas categorias de montagem nem em dire\u00e7\u00e3o de fotografia. Esse \u00faltimo quesito \u00e9 interessante de se pensar. A ilumina\u00e7\u00e3o em P&#038;B \u00e9 realmente muito bonita e super bem composta, criando quadros realmente vistosos, mas ela tamb\u00e9m d\u00e1 um aspecto muito clean ao filme, quase que pasteurizado demais.\u00a0<br \/>\nIsso acaba refor\u00e7ando o mesmo tipo de frieza e a falta de nuances que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria e a condu\u00e7\u00e3o da trama apresentam. Filmado em parte na pr\u00f3pria Belfast, o filme d\u00e1 uma impress\u00e3o de loca\u00e7\u00f5es padronizadas e estanques, quase como que sendo poss\u00edvel de serem registradas em diversos lugares da Irlanda e do Reino Unido, especialmente para quem n\u00e3o \u00e9 familiarizado com a geografia do lugar.\u00a0\u00a0<br \/>\nBranagh certamente fez o filme que ele quis fazer, contando sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria com a riqueza de detalhes que sua mem\u00f3ria foi capaz de manter (e com o n\u00edvel de fabula\u00e7\u00e3o que ele construiu a partir disso). H\u00e1 de se respeitar sempre a mem\u00f3ria afetiva de qualquer um, mas ela precisa tamb\u00e9m tocar o emocional do p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo nas primeiras imagens do filme, a Belfast colorida e ensolarada dos dias atuais, com sua arquitetura moderna e grandiosa, cidade portu\u00e1ria charmosa, d\u00e1\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":55267,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-55266","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55266"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55266\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55267"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}