{"id":58851,"date":"2022-03-19T06:34:31","date_gmt":"2022-03-19T09:34:31","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/exonerada-policial-trans-briga-na-justica-para-ser-reintegrada-a-pm-da-bahia\/"},"modified":"2022-03-19T06:34:31","modified_gmt":"2022-03-19T09:34:31","slug":"exonerada-policial-trans-briga-na-justica-para-ser-reintegrada-a-pm-da-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/19\/exonerada-policial-trans-briga-na-justica-para-ser-reintegrada-a-pm-da-bahia\/","title":{"rendered":"Exonerada, policial trans briga na Justi\u00e7a para ser reintegrada \u00e0 PM da Bahia"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/03\/18\/Jane_representativa2.jpeg\" alt=\"'Comecei a me afirmar como Jane e a\u00ed o ass\u00e9dio foi ficando pior', relembra Jane\" width=\"1100\" height=\"684\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sozinha, Jane Oliveira, 39 anos, pegou a mochila e caminhou at\u00e9 a Rodovi\u00e1ria de Guanambi, no sudoeste da Bahia. Carregava as roupas e uma B\u00edblia. Havia se preparado por dois meses para aquela viagem a Salvador, agendada para a noite de 28 de janeiro, disposta a abandonar o sil\u00eancio. Jane foi demitida da Pol\u00edcia Militar depois de assumir que \u00e9 uma mulher transexual, e luta hoje na Justi\u00e7a para ser reinserida \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Do dia em que foi exonerada at\u00e9 a viagem, foram dois anos de espera por uma decis\u00e3o favor\u00e1vel &#8211; que nunca veio. Em 6 de mar\u00e7o de 2018, deixou a condi\u00e7\u00e3o de soldado, acusada de promover ofensas ???contra a dignidade e o decoro de um superior hier\u00e1rquico???, mas Jane d\u00e1 outro nome ao motivo da decis\u00e3o: transfobia. Em 2019, a briga judicial para que ela fosse reincorporada \u00e0 pol\u00edcia teve in\u00edcio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando, em novembro do ano passado, recebeu a not\u00edcia de que um juiz negou a readmiss\u00e3o, decidiu deixar o interior. A defesa dela recorreu da decis\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???No caminho para c\u00e1, eu pensava: essa \u00e9 viagem decisiva. Voltar para a PM \u00e9, para mim, desfazer uma injusti\u00e7a???<\/strong>, diz Jane, sentada numa sala do escrit\u00f3rio do advogado, na Avenida Tancredo Neves.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Em Guanambi, onde cresceu num lar crist\u00e3o, com os pais e tr\u00eas irm\u00e3s, Jane n\u00e3o conseguia visibilizar sua hist\u00f3ria. Todos apontavam dedos e culpas.\u00a0???Todo mundo me olhava com os olhos virados e eu sempre fiz minhas coisas honestas???, lembra.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sem emprego, ela morava de favor na casa de uma amiga. A decis\u00e3o negativa do juiz foi a gota d???\u00e1gua. Era o momento do embarque que ela tanto tinha evitado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Briga judicial \u00e9 in\u00e9dita no estado<\/strong><br \/> Jane nunca quis ser policial, mas a ideia de uma vida est\u00e1vel financeiramente agradou. Foram os amigos da gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que sugeriram o concurso. Todos fizeram a prova e ela passou.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O ano era 2008 e a PM da Bahia n\u00e3o admitia pessoas transexuais no efetivo. No \u00faltimo concurso, realizado em\u00a02019, a institui\u00e7\u00e3o permitiu, pela primeira vez, que os candidatos usassem seus nomes sociais.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Apenas h\u00e1 seis anos, um decreto federal passou a obrigar o reconhecimento do uso do nome social e da identidade de g\u00eanero na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. As for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o criaram nenhuma pol\u00edtica espec\u00edfica para contribuir com a perman\u00eancia de transexuais em seus quadros.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"bodytext\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/c\/e\/csm_Jane_Oliveira3_2524717cab.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">\n<p class=\"bodytext\"><strong>Ex-PM diz que causa da sua demiss\u00e3o foi transfobia<\/strong> (Foto: Marina Silva\/CORREIO)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">A PM n\u00e3o respondeu nenhum dos questionamentos enviados pela reportagem &#8211; nem sobre a diversidade de g\u00eanero na corpora\u00e7\u00e3o, nem sobre o caso de Jane, que protagoniza uma briga judicial in\u00e9dita no estado da Bahia, a de uma ex-policial que afirma ter sido demitida por ser quem ela \u00e9.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nos primeiros anos como policial, Jane recebia apelidos pejorativos, sofria preconceito, mas, segundo ela, ???nada t\u00e3o grave??? quanto o que ocorreu com a chegada de um novo colega. Em 2012, quando iniciou o processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, a situa\u00e7\u00e3o piorou.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Comecei a me afirmar como Jane e a\u00ed o ass\u00e9dio foi ficando pior. Ele me impedia de descansar, me chamava de viadinho, eu tinha medo???<\/strong>, conta Jane.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">O policial ao qual Jane se refere est\u00e1, atualmente, impedido de trabalhar porque n\u00e3o comprovou ter se vacinado contra a covid-19. A imuniza\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria aos servidores p\u00fablicos na Bahia, mas 141 funcion\u00e1rios da PM, como ele, n\u00e3o se vacinaram. Por isso, foram afastados, em janeiro deste ano.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Esse agente, segundo Jane, a assediava moral e sexualmente. Chegava a tocar nos seios dela e, sempre que fazia isso, dizia: ???Deixa eu ver os peitinhos dessa menina???. O ass\u00e9dio tinha outras formas e Jane denunciou a situa\u00e7\u00e3o a superiores.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ap\u00f3s as queixas, ela passava per\u00edodos longe do policial, mas a mudan\u00e7a n\u00e3o era definitiva e os problemas seguiam. At\u00e9 que, numa noite de folga, ela e amigos foram a um bar, em Guanambi. O futuro seria desenhado naquela madrugada.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Da demiss\u00e3o ao desemprego<\/strong><br \/> J\u00e1 passava de 1h da manh\u00e3 quando Jane avistou o colega entrar no estabelecimento. Um conflito teve in\u00edcio quase imediatamente e ela n\u00e3o recorda exatamente como, porque tinha bebido, mas saiu do bar presa por ???desacato ao superior hier\u00e1rquico???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na queixa \u00e0 17\u00aa Companhia de Pol\u00edcia Militar, o ent\u00e3o cabo acusa a colega, abaixo no n\u00edvel hier\u00e1rquico,\u00a0de ofend\u00ea-lo. Jane, no dia da pris\u00e3o e todas as vezes em que foi questionada, afirmou \u00a0que ele a perseguia. A confus\u00e3o gerou um Processo Administrativo Disciplinar (DAP) contra Jane.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O artigo n\u00famero 298 do C\u00f3digo Penal Militar (CPM) define que desacatar e ofender a ???dignidade e o decoro??? de um superior \u00e9 crime pass\u00edvel de reclus\u00e3o de at\u00e9 quatro anos. A pena \u00e9 agravada se o superior \u00e9 oficial general ou comandante da unidade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Jane esperou o resultado do processo em atividade e esperava que a penalidade, se existisse, fosse mais branda. O resultado, em mar\u00e7o de 2018, mostrou o contr\u00e1rio: a partir dali ela n\u00e3o fazia mais parte da PM. ???Caiu o meu ch\u00e3o, minha vida virou???, conta Jane, aos prantos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A demiss\u00e3o da ent\u00e3o policial foi amparada no Artigo 57 do CPM, por ???insubordina\u00e7\u00e3o ou desrespeito grave contra o superior???.\u00a0Quatro meses depois da demiss\u00e3o de Jane, o colega que ela acusa de ass\u00e9dio &#8211; aquele que n\u00e3o se vacinou contra a covid-19 &#8211; foi promovido a sargento. A PM n\u00e3o respondeu a quantidade de policiais demitidos por insubordina\u00e7\u00e3o ou desrespeito ao superior.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???N\u00e3o \u00e9 comum um policial ser demitido pela raz\u00e3o que Jane foi. Em nenhum momento o processo [administrativo] fala do g\u00eanero de Jane, \u00e9 um preconceito travestido de desrespeito ao superior hier\u00e1rquico. Ela \u00e9 pioneira, \u00e9 a primeira [mulher transexual na PM da Bahia] que se tenha registro p\u00fablico???<\/strong>, afirma Dinoermeson Nascimento, advogado de Jane.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), Keila Simpson afirmou que n\u00e3o existe dados sobre pessoas transexuais na pol\u00edcia &#8211; os casos conhecidos s\u00e3o aqueles que repercutiram na imprensa.\u00a0Um dos mais populares <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/influencer-e-policial-trans-paulo-vaz-morre-aos-36-anos-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">era o PM paulista Paulo Vaz, 37, homens trans encontrado morto na \u00faltima ter\u00e7a (25) <\/a>&#8211;\u00a0a suspeita \u00e9 de morte por suic\u00eddio.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???N\u00e3o temos dados de pol\u00edcias na pol\u00edcia. Na verdade, n\u00e3o temos dados que n\u00e3o sejam de assassinatos???<\/strong>, lamentou Keila.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Ano passado, <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/bahia-e-o-2o-estado-do-brasil-com-mais-assassinatos-de-pessoas-trans-e-travestis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">13 pessoas trans ou travestis foram mortas na Bahia<\/a>, o segundo estado mais violento no ranking nacional,\u00a0atr\u00e1s de S\u00e3o Paulo, com 25 assassinados. No Brasil, foram 150 mortes.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>PM ser\u00e1 questionada pela OAB<\/strong><br \/> Na semana passada, Jane e o advogado dela se reuniram com representantes das comiss\u00f5es de Direitos Humanos e Diversidade Sexual e de G\u00eanero da Ordem dos Advogados da Bahia (OAB). Ives Menezes, presidente do segmento relacionado \u00e0 diversidade, ir\u00e1 oficiar o comandante-geral da PM, Paulo Coutinho, para ???entender quais procedimentos a corpora\u00e7\u00e3o adota, externa e internamente, para pessoas transexuais???.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Queremos saber se eles t\u00eam no\u00e7\u00e3o do contingente de pessoas, se existe pol\u00edtica de apoio a elas. Pretendo que tenhamos uma reuni\u00e3o para que exista algum avan\u00e7o nas pol\u00edticas de inclus\u00e3o???<\/strong>, compartilha Menezes. \u00a0\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Depois da demiss\u00e3o, Jane nunca encontrou um trabalho fixo e, por medo, n\u00e3o falava publicamente sobre os ass\u00e9dios e a transfobia sofridos. ???A PM \u00e9 vingativa???, justifica a ex-policial. Os amigos mais pr\u00f3ximos, da \u00e9poca do curso de forma\u00e7\u00e3o da PM, a incentivaram ao longo dos anos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em Guanambi, Jane passou a trabalhar como diarista e voltou para casa dos pais, pois n\u00e3o conseguia bancar uma resid\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">\n<p class=\"bodytext\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/3\/6\/csm_Jane_representativa_a3d4340543.jpeg\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">\n<p class=\"bodytext\"><strong>Depois da exonera\u00e7\u00e3o, Jane come\u00e7ou a trabalhar como diarista<\/strong> (Foto: Marina Silva\/CORREIO)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Como nem sempre encontrava trabalho, a situa\u00e7\u00e3o piorava a cada dia. Os amigos, quando podiam, ajudavam. No fim do ano passado, Jane foi morar numa casa emprestada por um pastor. A m\u00e3e dela intermediou o empr\u00e9stimo. Mas a perman\u00eancia n\u00e3o durou. O pastor exigia que Jane ???vestisse roupas de homem???.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Ele me expulsou, me obrigou a sair da casa dele, porque eu me vestia como a mulher que eu sou???<\/strong>, conta ela.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Em Salvador, Jane encontrou abrigo com uma tia, que j\u00e1 vivia na cidade. Aqui, ela n\u00e3o s\u00f3 tenta ser readmitida PM, como busca uma vaga de trabalho. Jane n\u00e3o concluiu a forma\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, mas recebeu o diploma de pedagoga, tamb\u00e9m pela Uneb, em 2018.\u00a0???Eu preciso de um emprego. O fato de eu querer ter o direito a meu trabalho como PM de volta \u00e9 desfazer uma injusti\u00e7a???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Passado, presente e futuro<\/strong><br \/> O caminho de pessoas transexuais dentro das for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica come\u00e7ou a ser pavimentado em 1998, no estado de Goi\u00e1s. Depois de 22 anos na For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB), <a href=\"https:\/\/www.marialuizafilme.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maria Luiza comunicou aos superiores sua identidade de g\u00eanero<\/a>. Foi a primeira pessoa transexual na FAB. A resposta institucional veio em seguida: um laudo m\u00e9dico respaldou a aposentadoria compuls\u00f3ria de Maria por ???incapacidade???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Maria brigou para permanecer na ativa. A disputa judicial se arrastou por duas d\u00e9cadas e o Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) reconheceu nela uma v\u00edtima de ???discrimina\u00e7\u00e3o???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando a Justi\u00e7a Federal de Bras\u00edlia determinou que ela n\u00e3o poderia ser afastada das atividades, j\u00e1 n\u00e3o havia tempo h\u00e1bil. Maria tinha 48 anos, idade m\u00e1xima para atuar como cabo. A aposentadoria, ent\u00e3o, foi mantida. A luta de Maria Luiza \u00e9 contada no filme que leva o nome dela, do diretor Marcelo D\u00edaz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Outras mulheres transexuais tamb\u00e9m tentaram, sem \u00eaxito na maioria das vezes, manterem seus postos. Como n\u00e3o possui pol\u00edtica relacionada a servidores transexuais, um dos artif\u00edcios institucionais\u00a0utilizado pelas corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 afastar funcion\u00e1rios por alegada incapacidade ou criar situa\u00e7\u00f5es que levem ao afastamento ou demiss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ano passado, a sargento Alice Costa, do Mato Grosso do Sul, foi afastada. A depress\u00e3o e crises de ansiedade sofridas por ela, que havia assumido sua identidade de g\u00eanero, aparecem como algumas das justificativas usadas para impedi-la de trabalhar. A defesa jur\u00eddica de Alice \u00e9 assinada por Bianca Figueira, capit\u00e3 da Marinha aposentada compulsoriamente pelo mesmo motivo que a cliente, no Rio de Janeiro. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">As hist\u00f3rias se repetem. H\u00e1 cinco anos, <a href=\"https:\/\/brunabenevidex.medium.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruna Benevides, mulher trans, tenta judicialmente continuar na Marinha<\/a>. No laudo m\u00e9dico, ela aparece como incapacitada de exercer suas atividades, embora esteja com pleno vigor f\u00edsico. A Marinha do Brasil n\u00e3o respondeu \u00e0 reportagem.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???A decis\u00e3o foi revertida, mas a Marinha tenta retardar meu retorno. O que mais chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que se tenta dizer que as for\u00e7as s\u00e3o isentas de discri\u00e7\u00e3o???<\/strong>, afirma Bruna, natural do Cear\u00e1, que aos 17 anos saiu de casa para entrar na Marinha, para ???fugir da repress\u00e3o???.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Hoje, Bruna trabalha em organiza\u00e7\u00f5es pela defesa dos direitos de pessoas transexuais. Ao ouvir parte da trajet\u00f3ria de Jane, e relembrar a pr\u00f3pria, Bruna diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Vivemos o n\u00e3o reconhecimento da nossa identidade. Sempre haver\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de uma narrativa tendenciosa. N\u00f3s, mulheres transexuais, somos assediadas e, quando respondemos, somos colocadas como as assediadoras. ?? uma forma da transfobia nos deslegitimar<\/strong>???.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Jane n\u00e3o conhece Maria Luiza, Bianca, Alice, nem Bruna. Mas acredita que sua briga n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por ela, mas por todas que vir\u00e3o. &#8220;N\u00e3o posso mais me calar&#8221;, ela diz. Aos poucos, em Salvador, a ex-PM\u00a0se adapta a uma nova rotina. Na maior parte do tempo, estuda &#8211; ela quer passar num concurso p\u00fablico.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os livros preferidos &#8211; como os romances policiais de Agatha Christie &#8211; ficaram em Guanambi. A b\u00edblia, ela l\u00ea todos os dias. ?? a leitura favorita dela.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No \u00faltimo domingo, convidada por uma amiga, Jane foi a um culto evang\u00e9lico. Enquanto assistia \u00e0 prega\u00e7\u00e3o, passado e presente se confrontaram \u00e0 sua frente e uma passagem b\u00edblica n\u00e3o sa\u00eda da cabe\u00e7a dela: ???Maldito \u00e9 o homem que confia no homem???.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sozinha, Jane Oliveira, 39 anos, pegou a mochila e caminhou at\u00e9 a Rodovi\u00e1ria de Guanambi, no sudoeste da Bahia. 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