{"id":59307,"date":"2022-03-20T06:34:56","date_gmt":"2022-03-20T09:34:56","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/por-que-salvador-e-feira-de-santana-tem-sotaques-diferentes\/"},"modified":"2022-03-20T06:34:56","modified_gmt":"2022-03-20T09:34:56","slug":"por-que-salvador-e-feira-de-santana-tem-sotaques-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/20\/por-que-salvador-e-feira-de-santana-tem-sotaques-diferentes\/","title":{"rendered":"Por que Salvador e Feira de Santana t\u00eam sotaques diferentes?"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/03\/20\/3elevador_lacerda_em_salvador_foto_tayse_argolo_jornal_correio_e_torre_do_tomba_feira_de_santana_foto_divulgacao_embasa.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"746\"\/><\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/03\/20\/elevador_lacerda_em_salvador_foto_tayse_argolo_jornal_correio_e_torre_do_tomba_feira_de_santana_foto_divulgacao_embasa.jpg\"\/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><strong>Elevador Lacerda, em Salvador, e Torre do Tomba, em Feira <\/strong>(Fotos: Tayse Arg\u00f4lo\/Arquivo CORREIO e Embasa\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Um famoso professor de Hist\u00f3ria, que n\u00e3o quero identificar, me faz um relato aned\u00f3tico que demonstra, para mim, o qu\u00e3o Salvador e Feira de Santana est\u00e3o cada vez mais pr\u00f3ximas. Citando recorrentes viagens \u00e0 Princesa do Sert\u00e3o ??? s\u00e3o 108 km de dist\u00e2ncia, via rodovia ???, conta que ao desembarcar por l\u00e1, sempre aparece algu\u00e9m para perguntar: ???voc\u00ea \u00e9 de que interior???? ???Como se eles fossem capital!???, revolta-se.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Entendo a fala do mestre, mas n\u00e3o h\u00e1 motivo para se incomodar, afinal, Feira \u00e9, ao menos de maneira informal, a capital do interior, e com potencial para mais! Ali\u00e1s, aqui mesmo em Baianidades, j\u00e1 colocamos isso em discuss\u00e3o no texto <a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/feira-de-santana-e-tao-parecida-com-paris-que-deveria-ser-a-capital-da-bahia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">???Feira de Santana \u00e9 t\u00e3o parecida com Paris que deveria ser a capital da Bahia???<\/a>, tese brilhantemente defendida pelo meu parceiro Andr\u00e9 Uz\u00eada.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Arrisco at\u00e9 comentar que, pensando nisso de forma mais s\u00e9ria, dificilmente voc\u00ea iria estranhar, hoje em dia, Feira como capital oficial da Bahia. E um dos \u00a0motivos, embora n\u00e3o esteja escrito, vem sendo dito pelas ruas, entre um <em>bonjour<\/em> e um <em>au revoir<\/em>: o sotaque das duas cidades est\u00e1 cada vez mais parecido!\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sempre foi assim? Pode ter\u00a0certeza que n\u00e3o, e \u00e9 o que motiva este texto, nascido do meu conv\u00edvio intenso com feirenses, barbarenses, jacuipenses, dos mais antigos aos novi\u00e7os. Muita coisa mudou na forma de falar por l\u00e1, e acho importante explicar o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Deita na BR<\/strong><br \/> Mas antes de voltar a esse ponto, precisamos viajar \u00a0algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s para demonstrar que, durante mais de metade da vida, Feira n\u00e3o trocou tanta ideia com Salvador. Emancipada h\u00e1 188 anos, a alteza sertaneja manteve pequenas intera\u00e7\u00f5es culturais, sociais e at\u00e9 econ\u00f4micas com a Roma Negra, como explica o professor de Hist\u00f3ria [dessa vez n\u00e3o \u00e9 o professor Jaime Nascimento] Rafael Dantas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ainda durante a gradua\u00e7\u00e3o na Ufba, Dantas desenvolveu um projeto de pesquisa intitulado ???Entre caminhos e encontros no interior baiano???, no qual destacava que antes da inaugura\u00e7\u00e3o da BR-324, s\u00f3 ocorrida na d\u00e9cada de 1940, essas liga\u00e7\u00f5es entre a SSA e FSA eram marcadas pelo uso de carro\u00e7as, carros de boi. E nesse contexto, h\u00e1 diversos relatos sobre a dificuldade de percorrer o itiner\u00e1rio Feira-Salvador-Feira.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Essas liga\u00e7\u00f5es existiam, de forma rudimentar, com os caminhos de terra. E depois, com as ferrovias, muda todo esse contexto???, pontua Dantas, citando a chegada, na segunda metade do s\u00e9culo 19, da Bahia and S\u00e3o Francisco Railway, estrada de ferro que vai ligar Salvador a Alagoinhas e, depois, a cidades mais pr\u00f3ximas de Feira, como Serrinha.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Relatos de viajantes da era pr\u00e9-BR, encontrados por Dantas, demonstram a dificuldade dos feirenses primordiais fazerem compras na capital ??? trajeto \u00a0que hoje, num Celtinha, se faz em menos de uma hora.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???H\u00e1 hist\u00f3rias de fazendeiros, por exemplo, que sa\u00edam para comprar m\u00f3veis em Salvador &#8211; que era o referencial de com\u00e9rcio mais sofisticado, padr\u00e3o europeu -, e narram toda essa odisseia de sair a cavalo das fazendas, ir com carro\u00e7as at\u00e9 o ponto da esta\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima, embarcar em um trem, e vir de trem at\u00e9 Salvador. Passavam a semana aqui, compravam as coisas e voltavam???<\/strong>, menciona o professor, dando a dimens\u00e3o do ???isolamento geogr\u00e1fico??? anterior \u00e0 rodovia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Acento sertanejo<\/strong><br \/> Mas tal situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 era referente a Salvador, afinal, um isolamento geral n\u00e3o permitiria que Feira se tornasse a maior cidade do interior baiano, e o maior entroncamento rodovi\u00e1rio da parte de cima do Brasil.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Feira de Santana \u00e9 uma cidade que recebe muita migra\u00e7\u00e3o interna, tanto de cidades da Bahia, principalmente do sert\u00e3o (regi\u00e3o sisaleira, entre outras), como de outros estados do Nordeste. Essa migra\u00e7\u00e3o interna foi muito intensa entre as d\u00e9cadas de 50 e 80. E esses migrantes trouxeram consigo sua forma de falar que influenciou muito o falar local???, delimita a professora Norma Almeida, professora de Lingu\u00edstica da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), que pesquisa sobre o assunto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">?? ela tamb\u00e9m quem ???denuncia??? que o sotaque feirense vem perdendo antigas caracter\u00edsticas, e se aproximando cada vez mais do de Salvador, principalmente entre os mais jovens.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Hoje j\u00e1 percebemos uma diminui\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, que pode estar relacionada ao maior contato entre os dois locais (BR-324), aos meios de comunica\u00e7\u00e3o???<\/strong>, assinala a professora, que tamb\u00e9m \u00e9 doutora em Lingu\u00edstica pela Unicamp.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Mas quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas marcantes do sotaque feirense que est\u00e3o caindo numa esp\u00e9cie de desuso por l\u00e1? ???Um exemplo que pode ser dado \u00e9 a pron\u00fancia do ???t??? e do ???d??? diante do ???i???. Em Feira, j\u00e1 tivemos mais grupos usando o que chamamos de pron\u00fancia dental, como se pronuncia no sert\u00e3o, sem o ???chiado???. Hoje, esse tipo de pron\u00fancia s\u00f3 se percebe entre alguns feirenses mais velhos e nos migrantes de outras regi\u00f5es???, diz a professora, indicando a quem quiser se aprofundar no assunto o projeto ???A l\u00edngua portuguesa falada no semi\u00e1rido baiano???, sediado na Uefs, com participa\u00e7\u00e3o dela pr\u00f3pria e das pr\u00f3s Zenaide Carneiro, Silvana Ara\u00fajo e Eliana Pitombo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Processo<\/strong><br \/> Tamb\u00e9m h\u00e1 diferen\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente relacionadas ao sotaque, como o uso do tu em detrimento do voc\u00ea.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>???Essa \u00e9 uma marca bem feirense, mas que ocorre tamb\u00e9m em outras cidades do interior. H\u00e1 uma tese de doutorado sendo feita sobre esse fen\u00f4meno e h\u00e1 estudos de mestrado. Esse uso muito disseminado do tu em Feira pode, \u00e9 uma hip\u00f3tese, estar relacionado \u00e0 grande migra\u00e7\u00e3o de nordestinos???<\/strong>, comenta a especialista, para a qual estamos no meio de uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, que ainda precisam ser melhor analisadas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Entre elas, tamb\u00e9m est\u00e1 o apagamento do ???r??? em final de s\u00edlaba, como falar ceveja ao inv\u00e9s de cerveja, o uso do ???ni??? ao inv\u00e9s da preposi\u00e7\u00e3o em, tamb\u00e9m muito comum por l\u00e1, entre outras escolhas particulares de cada cidade. ???Outras palavras mais comuns em comunidades rurais podem ser encontradas na periferia de Feira, como o uso de ???em riba???, ???arrudear???. Seriam formas de falar da periferia influenciada por um falar mais rural???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, afinal, Feira continua sendo uma zona de influ\u00eancia econ\u00f4mica para 75 munic\u00edpios, de acordo com pesquisa do professor S\u00edlvio Bandeira de Melo. ???Penso que s\u00e3o zonas de m\u00fatuas influ\u00eancias lingu\u00edsticas???, acrescenta Norma Almeida.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Prova de que trocas sociais e culturais mais intensas t\u00eam influ\u00eancia no sotaque pode ser observada no caso de Alagoinhas, cidade com perfil semelhante ao de \u00a0Feira, mas que tinha uma antiga liga\u00e7\u00e3o direta com Salvador, pela linha f\u00e9rrea. Fernanda, minha namorada, \u00e9 alagoinhense, e mesmo que n\u00e3o tivesse liga\u00e7\u00e3o direta comigo, poderia ser tranquilamente escalada para atuar em ????? pa\u00ed, \u00f3???, e ningu\u00e9m de Salvador jamais perguntaria (como nunca perguntou) de que interior ela veio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elevador Lacerda, em Salvador, e Torre do Tomba, em Feira (Fotos: Tayse Arg\u00f4lo\/Arquivo CORREIO e Embasa\/Divulga\u00e7\u00e3o) Um famoso professor de Hist\u00f3ria, que n\u00e3o quero\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":59308,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2737],"tags":[],"class_list":["post-59307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bahia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59307\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}