{"id":59655,"date":"2022-03-21T06:35:24","date_gmt":"2022-03-21T09:35:24","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/colegio-sartre-graca-e-desgraca\/"},"modified":"2022-03-21T06:35:24","modified_gmt":"2022-03-21T09:35:24","slug":"colegio-sartre-graca-e-desgraca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/21\/colegio-sartre-graca-e-desgraca\/","title":{"rendered":"Col\u00e9gio Sartre, Gra\u00e7a e desgra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/Gil_Vicente_Tavares.png\" alt=\"\" width=\"630\" height=\"630\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Voltei para Salvador no in\u00edcio de 1988. Depois de ir com meses de nascido ao Rio, voltava para minha terra, moleque, carregado de sotaque e da experi\u00eancia de um Rio que me foi especial; Diretas J\u00e1, Darcy Ribeiro, Angel Vianna, conv\u00edvio com diversos artistas, e minha escola Senador Correa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">J\u00e1 em Salvador, fiz uma s\u00e9rie de testes para entrar na quinta s\u00e9rie de um col\u00e9gio onde uma prima minha estudava. E algumas condutas e procedimentos da institui\u00e7\u00e3o irritaram minha m\u00e3e. Lembro que eu teria que fazer uma reda\u00e7\u00e3o sobre uma abelha, e n\u00e3o me deram limite. Nesse dia, tiraram minha prova sem eu ter terminado o texto, que j\u00e1 estava com algumas p\u00e1ginas, e foi a gota d&#8217;\u00e1gua para minha m\u00e3e dizer que eu n\u00e3o estudaria l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Assunto encerrado. O problema, n\u00e3o. Havia passado o tempo das inscri\u00e7\u00f5es e eu corria o risco de ficar sem estudar.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Meu padrasto tinha um amigo de inf\u00e2ncia que trabalhava no Col\u00e9gio Sartre, e ele deu um jeito de agendar com Marcone, um dos diretores. Ao entrar em sua sala, deparei-me com o quadro Dinosaurier auf der Autobahn, pintado pelo su\u00ed\u00e7o Giuseppe Reichmuth em 1980. Vejam voc\u00eas: eu na Su\u00ed\u00e7a, agora, e s\u00f3 agora descubro a proced\u00eancia deste quadro que foi uma febre nos anos 80, e que retrata um dinossauro invadindo uma rodovia cheia de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Minha m\u00e3e come\u00e7ou a conversar sobre a possibilidade de algum teste, procedimentos, a conversa burocr\u00e1tica fez meus olhos fixarem-se no quadro, abstraindo todo o resto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eis que Marcone interrompe a conversa com minha m\u00e3e, olha pra mim, aponta para o quadro e diz que estava presente naquele dia. Eu, de pronto, respondi que sabia, pois estava no carro atr\u00e1s do dele. Da\u00ed em diante, entabulamos um devaneio sobre a situa\u00e7\u00e3o da estrada, do dinossauro, da gente, consequ\u00eancias e sensa\u00e7\u00f5es, quando de s\u00fabito minha m\u00e3e interrompeu a conversa. Preocupada em resolver minha situa\u00e7\u00e3o, perguntou a Marcone quando seriam os testes, e o que era preciso ser feito. Marcone respondeu: &#8220;n\u00e3o precisa, ele j\u00e1 est\u00e1 no Sartre&#8221;.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Estando longe da minha terra, no frio su\u00ed\u00e7o, deparei-me com a not\u00edcia da demoli\u00e7\u00e3o do casar\u00e3o onde aconteceu essa hist\u00f3ria, e onde estudei meu segundo grau, at\u00e9 1994. Foram sete anos de Col\u00e9gio Sartre. De professores e professoras especiais, gincanas, paix\u00f5es adolescentes, arte, filosofia, recupera\u00e7\u00f5es, minha juventude amalgamada \u00e0 hist\u00f3ria do col\u00e9gio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Pouco tempo depois, comecei a ouvir relatos de que o col\u00e9gio estava mudando. N\u00e3o era mais o mesmo. As f\u00e1bricas de produ\u00e7\u00e3o de androides para passar no vestibular foram esmagando qualquer ideia de uma filosofia de ensino, e de uma forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e humanista. A Escola Senador Correa tamb\u00e9m fechou, no Rio. Muita gente boa passou por l\u00e1. O diretor, Luis Ant\u00f4nio, e seu corpo docente, traziam um conte\u00fado pedag\u00f3gico que formava gente, e n\u00e3o m\u00e1quinas de decorar f\u00f3rmulas para passar em exames. Por isso, imagino, tenha fechado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Recentemente, numa excelente entrevista ao Roda Viva, Sidarta Ribeiro falou sobre este aprendizado mec\u00e2nico, for\u00e7ado, onde se decora para a prova um conhecimento que pouco tempo depois se esvai.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Voltarei a Salvador com o casar\u00e3o j\u00e1 demolido. Demolir \u00e9 f\u00e1cil. E nosso pa\u00eds \u00e9 craque nisso. V\u00e3o-se hist\u00f3rias, mem\u00f3rias, espa\u00e7os. Tenho andado por cidades milenares pensando que no Brasil quase tudo \u00e9 descart\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Vai ser estranho passar pela Gra\u00e7a e n\u00e3o ver mais o casar\u00e3o de p\u00e9. E, infelizmente, estaremos seguindo nosso natural caminho de, como diria L\u00e9vi-Strauss, parecer ser constru\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 ser ru\u00edna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltei para Salvador no in\u00edcio de 1988. 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