{"id":63340,"date":"2022-03-25T23:35:44","date_gmt":"2022-03-26T02:35:44","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/pantanal-da-novela-da-globo-e-mais-seco-e-menos-verde-que-o-da-manchete\/"},"modified":"2022-03-25T23:35:44","modified_gmt":"2022-03-26T02:35:44","slug":"pantanal-da-novela-da-globo-e-mais-seco-e-menos-verde-que-o-da-manchete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/25\/pantanal-da-novela-da-globo-e-mais-seco-e-menos-verde-que-o-da-manchete\/","title":{"rendered":"Pantanal da novela da Globo \u00e9 mais seco e menos verde que o da Manchete"},"content":{"rendered":"<p>O Pantanal vai voltar ao hor\u00e1rio nobre na segunda-feira (28\/3), quando estreia a nova edi\u00e7\u00e3o da novela, um cl\u00e1ssico dos anos 1990, agora feita pela TV Globo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Juma Marru\u00e1, Jove e Jos\u00e9 Le\u00f4ncio foi ao ar pela primeira vez na TV Manchete h\u00e1 32 anos e fez um enorme sucesso.<\/p>\n<ul>\n<li>A verdade sobre a cidade ecol\u00f3gica que a Ar\u00e1bia Saudita planeja no deserto <\/li>\n<\/ul>\n<p>A nova edi\u00e7\u00e3o vai contar mais uma vez essa hist\u00f3ria, com um novo elenco &#8211; mas n\u00e3o foram s\u00f3 os atores que mudaram.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Pantanal, que \u00e9 a maior plan\u00edcie alagada do mundo, vai aparecer mais seco na Globo do que na Manchete.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Eu nunca tinha visto t\u00e3o seco assim&#8221;, diz a bi\u00f3loga Edna Scremin-Dias, que \u00e9 professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e trabalha ali desde 1982.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ela conta que os meses de janeiro e fevereiro s\u00e3o \u00e9poca da cheia e que os campos do Passo do Lontra, regi\u00e3o que ela mais frequenta, ao sul, deveriam estar alagados e salpicados de lagoas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;As lagoas est\u00e3o secas em pleno mar\u00e7o, quando o pico da seca costuma ser em julho, agosto. A maioria dos campos n\u00e3o alagaram.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m tomou um susto ao ver o rio Abobral ficar sem \u00e1gua. &#8220;O rio est\u00e1 parcialmente interrompido. J\u00e1 tinha visto as \u00e1guas baixas, mas, desse jeito, foi a primeira vez.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Dados e imagens de sat\u00e9lite mostram que a superf\u00edcie coberta pela \u00e1gua est\u00e1 diminuindo significativamente no Pantanal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A imagem acima \u00e0 esquerda mostra em diferentes tons de azul as partes do Pantanal que estavam em algum momento cobertas por \u00e1gua (sua \u00e1rea inundada) em 1990, quando a novela foi ao ar pela primeira vez.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>?? direita, a \u00e1rea inundada em 2020 &#8211; ano mais recente do monitoramento feito pelo projeto MapBiomas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A iniciativa, uma coopera\u00e7\u00e3o entre universidades, empresas e ONGs, mapeia as mudan\u00e7as no uso do solo no Brasil a partir da an\u00e1lise computadorizada de imagens de sat\u00e9lite.<\/p>\n<ul>\n<li>As t\u00e9cnicas agr\u00edcolas capazes de reduzir depend\u00eancia do Brasil por fertilizantes<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esses dados mostram que a m\u00e9dia hist\u00f3rica da \u00e1rea inundada do Pantanal caiu 26% nos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A m\u00e9dia foi calculada pela BBC News Brasil com base nos dados da s\u00e9rie hist\u00f3rica do MapBiomas, que come\u00e7a em 1985.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foi levada em conta a soma da \u00e1rea coberta por rios e lagoas e tamb\u00e9m os campos alagados e p\u00e2ntanos. Os dois juntos representam a \u00e1rea inundada do Pantanal.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Eduardo Rosa, respons\u00e1vel no MapBiomas pelo monitoramento do Pantanal, explica que analisar essa \u00e1rea de inunda\u00e7\u00e3o toda, em vez de apenas um dos dois elementos sozinhos, mostra melhor como a superf\u00edcie de \u00e1gua variou na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por sua vez, a escolha pela m\u00e9dia amenizou as oscila\u00e7\u00f5es anuais da \u00e1rea de inunda\u00e7\u00e3o que s\u00e3o naturais do ciclo do Pantanal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 anos em que ele enche mais e em outros, menos. Por isso, comparar dois anos isolados n\u00e3o reflete o quanto o Pantanal perdeu de \u00e1gua ao longo desse tempo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas a tend\u00eancia de queda fica clara na evolu\u00e7\u00e3o tanto da \u00e1rea de inunda\u00e7\u00e3o total quanto da m\u00e9dia ao longo dos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A \u00e1gua devolve a vida ao Pantanal. A fauna e a flora se desenvolvem, se renovam, mas o Pantanal alaga cada vez menos&#8221;, diz Rosa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que a \u00e1rea m\u00e1xima coberta pela \u00e1gua registrada a cada ano est\u00e1 diminuindo, a \u00e1rea m\u00ednima tamb\u00e9m est\u00e1 ficando cada vez menor.<\/p>\n<ul>\n<li>O rio que secou na Amaz\u00f4nia colombiana e deixou popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas ???\u00f3rf\u00e3s???<\/li>\n<\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em alguns dos anos mais recentes no gr\u00e1fico acima, o n\u00edvel m\u00e1ximo de inunda\u00e7\u00e3o chegou a ficar abaixo do m\u00ednimo registrado no come\u00e7o dos anos 1990.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O rio Paraguai atingiu em outubro do ano passado o segundo menor n\u00edvel em 121 anos de medi\u00e7\u00e3o na cidade de Lad\u00e1rio, no Mato Grosso do Sul &#8211; esse \u00edndice tem inclusive nome pr\u00f3prio: r\u00e9gua de Lad\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As cheias tamb\u00e9m est\u00e3o ficando mais curtas, diz Felipe Dias, diretor-executivo do Instituto SOS Pantanal, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dedicada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do bioma.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;No passado, o Pantanal ficava tr\u00eas, quatro, at\u00e9 cinco meses inundado, hoje diminuiu para um, dois meses&#8221;, afirma Dias.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Isso \u00e9 especialmente cr\u00edtico em um ecossistema que tem sua ess\u00eancia nesse vai-e-vem das \u00e1guas &#8211; e que depende disso para sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e1gua tem no Pantanal um papel que vai al\u00e9m de regenerar o ecossistema. A inunda\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma barreira natural para o homem.<\/p>\n<ul>\n<li>Como sucesso do a\u00e7a\u00ed amea\u00e7a biodiversidade da Amaz\u00f4nia<\/li>\n<\/ul>\n<p>As \u00e1reas que ficam alagadas por muito tempo n\u00e3o servem para a pecu\u00e1ria ou a agricultura e mant\u00eam essas atividades econ\u00f4micas nas bordas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Um Pantanal mais seco \u00e9, portanto, um Pantanal mais prop\u00edcio \u00e0 expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria &#8211; e tamb\u00e9m mais vulner\u00e1vel ao desmatamento e aos inc\u00eandios, que causaram em 2020 a maior trag\u00e9dia ambiental em d\u00e9cadas, quando 30% do Pantanal queimou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A imagem acima \u00e0 esquerda mostra em amarelo a \u00e1rea do Pantanal que era ocupada pelo homem em 1990, ao lado da mesma imagem em 2020.<\/p>\n<p>?? poss\u00edvel ver o avan\u00e7o do homem sobre a natureza no Pantanal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Embora o Pantanal seja considerado um dos biomas mais conservados do pa\u00eds, Felipe Dias, da SOS Pantanal, ressalta que a \u00e1rea desmatada no Pantanal dobrou nos \u00faltimos 30 anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Os 16% que temos hoje eram 8% nos anos 1990&#8221;, afirma Dias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Desmatamento inclui aqui n\u00e3o s\u00f3 \u00e1rvores derrubadas, mas tamb\u00e9m os lugares onde a grama nativa dos campos da regi\u00e3o foi substitu\u00edda por outra mais prop\u00edcia para a cria\u00e7\u00e3o de gado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O \u00edndice est\u00e1 estacionado mais ou menos neste patamar nos \u00faltimos dez anos, diz o pesquisador, mas isso deve mudar porque a \u00faltima cheia do Pantanal foi h\u00e1 quatro anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Com esta seca dos \u00faltimos anos, acredito que o desmatamento voltou a aumentar. Est\u00e3o plantando muitas plantas ex\u00f3ticas no lugar das nativas, e a soja, que ainda est\u00e1 fora dos limites do pantanal, est\u00e1 chegando perto das bordas&#8221;, avalia Dias.<\/p>\n<h3>A \u00e1gua que abastece o Pantanal<\/h3>\n<p>Para entender o que est\u00e1 acontecendo no Pantanal, os cientistas dizem que \u00e9 preciso olhar para fora dele, especialmente para a Amaz\u00f4nia e o Cerrado, de onde vem a maioria da \u00e1gua que alaga o Pantanal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Os n\u00edveis de chuva s\u00e3o baixos no Pantanal, de 70% a 80% da \u00e1gua vem de fora&#8221;, afirma Dias &#8211; e tem chegado menos \u00e1gua ali.<\/p>\n<ul>\n<li>Os celulares que voc\u00ea mesmo pode desmontar e consertar <\/li>\n<\/ul>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Eduardo Rosa, do MapBiomas, aponta que um dos motivos est\u00e1 nos rios que descem do planalto do Cerrado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Diminuiu a quantidade de \u00e1gua que eles trazem porque teve uma perda muito grande de vegeta\u00e7\u00e3o no planalto, e isso deixa os rios assoreados. Houve muito rio e nascente que passaram por cima para fazer campo e pasto&#8221;, diz Rosa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Outra parte da \u00e1gua chega ao Pantanal pelo ar. Ela \u00e9 lan\u00e7ada no ar pelas \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia e \u00e9 carregada pelos ventos, formando um corredor de umidade conhecido como rio voador, que passa sobre o Pantanal a caminho do sul do Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os sinais n\u00e3o s\u00e3o bons tamb\u00e9m nesse caso, diz a meteorologista Renata Lisbonati dos Santos, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laborat\u00f3rio de Aplica\u00e7\u00f5es de Sat\u00e9lites Ambientais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A pesquisadora destaca que a umidade do ar no Pantanal caiu 25% desde 1980.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00e1rios estudos apontam que o desmatamento na Amaz\u00f4nia alterou o ciclo de \u00e1gua da floresta e afetou esse fluxo de umidade. Pode estar vindo menos umidade ou essa umidade pode estar sendo direcionada para outro lugar&#8221;, afirma a cientista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, tudo isso pode ser parte do ciclo natural do Pantanal.<\/p>\n<p>Enquanto os monitoramentos mais modernos datam dos anos 1980, os dados da r\u00e9gua de Lad\u00e1rio percorrem mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Eles mostram que j\u00e1 houve per\u00edodos de seca t\u00e3o intensa quanto agora &#8211; o \u00faltimo deles na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas tem uma diferen\u00e7a importante a\u00ed: o clima mudou nos \u00faltimos anos. O Pantanal ficou n\u00e3o s\u00f3 mais seco, mas tamb\u00e9m mais quente<\/p>\n<p>Lisbonati aponta que a temperatura m\u00e9dia na regi\u00e3o aumentou pouco mais de 2\u00baC nos \u00faltimos 30 anos. &#8220;Foi mais do que a m\u00e9dia global&#8221;, diz a meteorologista, &#8220;mas a gente ainda n\u00e3o sabe o porqu\u00ea disso&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as chuvas est\u00e3o ficando mais esparsas e intensas, o que n\u00e3o \u00e9 ideal. Porque o calor faz mais \u00e1gua evaporar do solo, e para que ele volte a alagar as chuvas precisam ser mais constantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Se tem uma chuva hoje e outra s\u00f3 daqui a 20 dias, vai demorar a encharcar ou nem chega a isso&#8221;, diz Felipe Dias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim, tudo vai ficando mais seco &#8211; e, a cada peda\u00e7o que seca, o Pantanal perde um pouco daquilo que faz dele o Pantanal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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