{"id":63844,"date":"2022-03-27T09:35:43","date_gmt":"2022-03-27T12:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/d-pedro-1o-como-personalidade-explosiva-do-monarca-moldou-a-historia-do-brasil\/"},"modified":"2022-03-27T09:35:43","modified_gmt":"2022-03-27T12:35:43","slug":"d-pedro-1o-como-personalidade-explosiva-do-monarca-moldou-a-historia-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/27\/d-pedro-1o-como-personalidade-explosiva-do-monarca-moldou-a-historia-do-brasil\/","title":{"rendered":"D. Pedro 1\u00ba: como personalidade &#8216;explosiva&#8217; do monarca moldou a hist\u00f3ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>&#8220;O Brasil ser\u00e1 escravizado, mas os brasileiros n\u00e3o&#8221;, escreveu D. Pedro 1\u00ba em carta a seu pai, D. Jo\u00e3o 6\u00ba, duas semanas depois da proclama\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia do Brasil. <\/p>\n<p>&#8220;Enquanto houver sangue nas veias, h\u00e1 de correr e primeiramente h\u00e3o de conhecer melhor o rapazinho e at\u00e9 que ponto chega sua capacidade.&#8221;<\/p>\n<ul>\n<li>&#8216;Historiadores dir\u00e3o que momento atual foi o in\u00edcio da 3\u00aa Guerra Mundial&#8217;, diz pesquisador<\/li>\n<\/ul>\n<p>O coloquial &#8220;rapazinho&#8221; na correspond\u00eancia real \u00e9 uma refer\u00eancia ir\u00f4nica (e raivosa) ao apelido que D. Pedro 1\u00ba ganhou de seus detratores em Lisboa.<\/p>\n<p>As palavras escolhidas na correspond\u00eancia d\u00e3o mostras da atitude de confronto que seria uma constante na trajet\u00f3ria do monarca, cujos tra\u00e7os de personalidade exerceram grande influ\u00eancia sobre a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pol\u00edtica e territorial brasileira.<\/p>\n<p>Foi o imperador que contestou ideais do poder absoluto da monarquia, ao mesmo tempo que governou de modo desp\u00f3tico e violento. <\/p>\n<p>Tomou decis\u00f5es com coragem e responsabilidade em epis\u00f3dios dram\u00e1ticos e cruciais, mas tamb\u00e9m foi o homem que sujeitou Dona Leopoldina &#8211; esposa, imperatriz e elemento importante no processo de independ\u00eancia &#8211; a uma longa e cruel humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<h3>Quem foi D. Pedro 1\u00ba<\/h3>\n<p>D. Pedro 1\u00ba nasceu em Portugal no ano de 1798. Uma \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, em que os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e o abalo provocado em reinos europeus continuavam a ganhar tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portugal j\u00e1 era um imp\u00e9rio colonial decadente, tinha perdido a for\u00e7a mar\u00edtima de s\u00e9culos antes e sofria com problemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos. <\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o 6\u00ba, retratado por historiadores como um mandat\u00e1rio indeciso e vacilante, havia assumido efetivamente o poder no final do s\u00e9culo 18 com a morte de seu irm\u00e3o mais velho e a deteriora\u00e7\u00e3o do estado mental da rainha, Maria 1\u00aa.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Napole\u00e3o Bonaparte e seu \u00edmpeto expansionista pelo continente europeu, no in\u00edcio do s\u00e9culo seguinte, levaram D. Jo\u00e3o 6\u00aa a uma fuga ca\u00f3tica de Portugal &#8211; a corte e a infraestrutura real foram amontoadas \u00e0s pressas em navios e parte da comitiva foi apedrejada pela popula\u00e7\u00e3o no caminho para o porto.<\/p>\n<p>O importante epis\u00f3dio da hist\u00f3ria brasileira conhecido como a vinda da fam\u00edlia real em 1808 tamb\u00e9m representou uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita na trajet\u00f3ria da Europa: pela primeira vez, um rei do continente colocava os p\u00e9s no &#8220;Novo Mundo&#8221;.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe Pedro, filho de D. Jo\u00e3o 6\u00ba com a espanhola Carlota Joaquina, tinha 9 anos quando aportou no Brasil.<\/p>\n<p>Destacou-se na adolesc\u00eancia por cultivar atividades f\u00edsicas, gostar de trabalhos manuais e pela inclina\u00e7\u00e3o musical. Aprendeu v\u00e1rios instrumentos como flauta, violino e fagote. <\/p>\n<p>Apesar de ser retratado muitas vezes como um imperador pouco sofisticado, D. Pedro 1\u00ba se tornaria compositor erudito.<\/p>\n<ul>\n<li>Tr\u00eas grandes matem\u00e1ticos \u00e1rabes que fizeram importantes descobertas para a ci\u00eancia<\/li>\n<\/ul>\n<p>Escreveu a melodia do Hino da Independ\u00eancia, que tem letra de Evaristo da Veiga (&#8220;J\u00e1 podeis da p\u00e1tria filhos&#8230;&#8221;), e teve pe\u00e7a de abertura apresentada no fim da vida em Paris por Rossini, autor da famosa \u00f3pera <i>O Barbeiro de Sevilha<\/i>.<\/p>\n<p>No entanto, segundo o livro<i> Dom Pedro Empereur du Br\u00e9sil, Roi de Portugal<\/i> (Dom Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal, em franc\u00eas), de Denyse Dalbian, jornais da capital francesa ironizaram o j\u00e1 ex-imperador em 1831 dizendo que os brasileiros pediram sua abdica\u00e7\u00e3o por causa da qualidade da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Mas, de fato, a juventude passada no Rio de Janeiro imperial ajudou a forjar a imagem do D. Pedro 1\u00ba impulsivo e dado a fortes emo\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>O ent\u00e3o pr\u00edncipe sofreu diversos acidentes ao pilotar carruagens em alta velocidade que resultaram em les\u00f5es e costelas quebradas. Por outro lado, tornou-se um excelente cavaleiro. Tamb\u00e9m j\u00e1 sofria os ataques epil\u00e9ticos que perdurariam ao longo da vida.<\/p>\n<p>Os registros hist\u00f3ricos falam de uma &#8220;viv\u00eancia indisciplinada&#8221; do pr\u00edncipe e distante de quest\u00f5es pol\u00edticas e administrativas at\u00e9 seus 19 anos.<\/p>\n<p>As novas ideias que provocavam mudan\u00e7as dram\u00e1ticas na Europa e nos Estados Unidos, no entanto, j\u00e1 fermentavam na cabe\u00e7a do jovem monarca. Era o D. Pedro &#8220;liberal&#8221;, ou seja, contr\u00e1rio \u00e0 velha ordem absolutista.<\/p>\n<p>&#8220;Boa parte dessas ideias liberais, em contraposi\u00e7\u00e3o aos ideais absolutistas, chegaram, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 Europa, mas \u00e0 Am\u00e9rica, trazidos pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e pela chamada Era Napole\u00f4nica, quando os direitos dos homens e dos cidad\u00e3os mudaram em boa parte da Europa invadida por Napole\u00e3o Bonaparte&#8221;, afirma o escritor e pesquisador Paulo Rezzutti, autor de <i>D. Pedro &#8211; A Hist\u00f3ria N\u00e3o Contada<\/i> (Leya, 2015).<\/p>\n<p>Ao menos enquanto um ideal, o monarca demonstrou apoio \u00e0 causa abolicionista. Em um texto ap\u00f3crifo que tem a letra de D. Pedro 1\u00ba e est\u00e1 no arquivo do Museu Imperial de Petr\u00f3polis (RJ) \u00e9 afirmado que &#8220;todo senhor de escravo desde pequeno come\u00e7a a olhar o seu semelhante com desprezo&#8221; e &#8220;eu sei que o meu sangue \u00e9 da mesma cor que o dos negros&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Rezzutti, &#8220;era um mundo novo, com ideias e atitudes e uma forma nova de se pensar que ia contra as formas pol\u00edticas anteriores&#8221;.<\/p>\n<p>Um pensamento avan\u00e7ado para um integrante de uma monarquia da \u00e9poca, embora a corte imperial n\u00e3o abrisse m\u00e3o da escravid\u00e3o para atend\u00ea-la.<\/p>\n<h3>Agita\u00e7\u00f5es<\/h3>\n<p>Entre meados da d\u00e9cada de 1810 e o come\u00e7o do ano de 1821, a queda de Napole\u00e3o e as consequentes mudan\u00e7as e agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Espanha e em Portugal (tutelado pela Inglaterra) colocaram press\u00e3o sobre a fam\u00edlia imperial.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o lusitana pedia a volta da fam\u00edlia real a Lisboa, a obedi\u00eancia a uma Constitui\u00e7\u00e3o ainda a ser escrita (e com menos poderes para o rei) e a revers\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es mais privilegiadas que o Brasil recebeu como sede do imp\u00e9rio. <\/p>\n<p>A esse cen\u00e1rio complicado somavam-se movimentos independentistas no Nordeste brasileiro, que poderiam fracionar o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o 6\u00ba decidiu embarcar para Portugal em abril de 1821.<\/p>\n<p>D. Pedro 1\u00ba permaneceu no pa\u00eds com Dona Leopoldina, filha do imperador da \u00c1ustria, com quem havia se casado alguns anos antes. A uni\u00e3o entre os Habsburgos e a Casa de Bragan\u00e7a era um passo fundamental para um projeto de poder na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Na juventude, a imperatriz brasileira foi amiga do compositor austr\u00edaco Franz Schubert e conviveu com o escritor alem\u00e3o Goethe. Essa bagagem cultural foi transmitida ao marido D. Pedro 1\u00ba, que lamentava n\u00e3o ter recebido instru\u00e7\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>Leopoldina ajudou o marido com conselhos e an\u00e1lises pragm\u00e1ticas no processo que resultou na independ\u00eancia do pa\u00eds.<\/p>\n<ul>\n<li>Como o naufr\u00e1gio mais profundo do mundo foi detectado <\/li>\n<\/ul>\n<p>Um exemplo foi seu papel na articula\u00e7\u00e3o, junto a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, do &#8220;Fico&#8221; de D. Pedro, que havia sido instado a voltar a Portugal e oficializar assim o retorno do Brasil \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Antes do retorno a Portugal, por sinal, D. Jo\u00e3o 6\u00ba disse: &#8220;Pedro, se o Brasil se separar, antes seja por ti, que me h\u00e1s de respeitar do que para algum desses aventureiros&#8221;.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio influenciou D. Pedro 1\u00ba at\u00e9 o momento da not\u00f3ria frase &#8220;como \u00e9 para o bem de todos e felicidade geral da na\u00e7\u00e3o, estou pronto: diga ao povo que fico&#8221;, publicada em um edital do Senado em 10 de janeiro de 1822 &#8211; e n\u00e3o proferida no dia anterior como se pensa popularmente.<\/p>\n<p>O processo de independ\u00eancia se firmou.<\/p>\n<h3>Car\u00e1ter explosivo<\/h3>\n<p>D. Pedro 1\u00ba escutava conselhos de pessoas como D. Leopoldina e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, mas, como se fixou a imagem popular, tinha um car\u00e1ter explosivo.<\/p>\n<p>Rezzutti lembra que &#8220;ele n\u00e3o pensou duas vezes em combater diretamente a divis\u00e3o militar portuguesa que se levantou contra os cariocas ap\u00f3s o Dia do Fico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Certamente, o temperamento exaltado e impulsivo de D. Pedro 1\u00ba, totalmente diverso do temperamento de seu pai, contribuiu para o avan\u00e7o da causa dos brasileiros&#8221;, analisa Isabel Lustosa, autora de <i>D. Pedro I: Um Her\u00f3i sem Nenhum Car\u00e1ter<\/i> (Cia. das Letras, 2006).<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de n\u00e3o ser exatamente um homem ilustrado, era inteligente e sabia ouvir as pessoas mais preparadas&#8221;, complementa a historiadora.<\/p>\n<p>No 7 de Setembro, D. Pedro 1\u00ba recebeu o comunicado das Cortes portuguesas (uma assembleia representativa da \u00e9poca) com novas medidas que inclu\u00edam a pris\u00e3o de membros do governo e a renova\u00e7\u00e3o da exig\u00eancia de que o pr\u00edncipe voltasse a Lisboa. Logo partiu para a rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o relato do padre Belchior, que estava junto no momento da proclama\u00e7\u00e3o, D. Pedro 1\u00ba disse: &#8220;As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e brasileiro. Pois ver\u00e3o agora quanto vale o rapazinho&#8221; &#8211; em outra men\u00e7\u00e3o ao apelido jocoso usado pelos advers\u00e1rios em Portugal.<\/p>\n<p>O padre descreve a cena contando que D. Pedro 1\u00ba arrancou do chap\u00e9u o la\u00e7o azul e branco, s\u00edmbolo de Portugal como na\u00e7\u00e3o, e disse: &#8220;La\u00e7os fora soldados. Viva a Independ\u00eancia, a liberdade e a separa\u00e7\u00e3o do Brasil!&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o religioso, &#8220;D. Pedro embainhou a espada&#8221; e declarou: &#8220;Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante ser\u00e1 Independ\u00eancia ou Morte!&#8221;.<\/p>\n<p>Paulo Rezzutti diz que D. Pedro 1\u00ba era &#8220;intempestivo&#8221;, mas &#8220;n\u00e3o era burro&#8221;. &#8220;Ele j\u00e1 sabia que o caminho do rompimento seria inevit\u00e1vel para a manuten\u00e7\u00e3o da autonomia do Brasil.&#8221;<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o em tom heroico do 7 de Setembro que \u00e9 feita pelo padre Belchior inclui uma passagem de fama aned\u00f3tica: D. Pedro viveu esse dia crucial afetado &#8220;por uma disenteria que o obrigava a todo momento a apear-se para prover&#8221;.<\/p>\n<p>O historiador Ot\u00e1vio Tarqu\u00ednio de Sousa relata que &#8220;A 7 (de Setembro) voltava o pr\u00edncipe da terra dos Andradas e dos Gusm\u00f5es (a cidade de Santos), num estado de sa\u00fade que, embora sem nenhuma gravidade, por certo o aborrecia. A mudan\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o, um gole de \u00e1gua menos pura, fosse o que fosse, a verdade \u00e9 que suas fun\u00e7\u00f5es intestinais acusavam dist\u00farbios impertinentes, que o obrigavam a alterar o ritmo da marcha, a separar-se da comitiva, em paradas incoerc\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p>Assumidos os t\u00edtulos de primeiro imperador brasileiro e &#8220;defensor perp\u00e9tuo&#8221; do pa\u00eds, D. Pedro 1\u00ba viveu um per\u00edodo curto de aclama\u00e7\u00e3o p\u00f3s-independ\u00eancia. Menos de um ano depois, entraria em choque com opositores e, mais tarde, at\u00e9 apoiadores, como Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio.<\/p>\n<h3>Vida amorosa atribulada<\/h3>\n<p>Al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a atribulada vida amorosa e sexual de D. Pedro I ganharia aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico.<\/p>\n<p>Conhecido por um grande n\u00famero de casos com mulheres da corte desde cedo, o imperador agora vivia de forma cada vez mais aberta a intensa rela\u00e7\u00e3o com a amante Domitila de Castro Canto e Melo, que se tornaria a Marquesa de Santos.<\/p>\n<p>&#8220;A favorita do imperador&#8221; ganhava n\u00e3o apenas presentes car\u00edssimos como tamb\u00e9m t\u00edtulos de nobreza, posses de terrenos e controlava, junto com seus parentes, o tr\u00e1fico de influ\u00eancia para quem precisava de favores na burocracia real.<\/p>\n<p>&#8220;Domitila teve a intelig\u00eancia de usar um h\u00e1bito real que estava em desuso na Europa. At\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, reis com suas &#8216;favoritas&#8217; eram um sinal de virilidade, de um monarca potente. Depois virou um sin\u00f4nimo de decad\u00eancia e fragilidade&#8221;, diz a historiadora Mary del Priore, que escreveu <i>A Carne e o Sangue &#8211; A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos<\/i> (Rocco, 2012).<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que D. Pedro ter\u00e1 caricaturas espalhadas no Rio e em Salvador &#8216;montado&#8217; por Domitila.&#8221;<\/p>\n<p>As cartas trocadas entre D. Pedro 1\u00ba e Domitila mostravam um grande envolvimento amoroso, eram assinadas com apelidos como &#8220;Demon\u00e3o&#8221; e &#8220;Fogo Foguinho&#8221; e temperadas com detalhes er\u00f3ticos dirigidas a &#8220;Tit\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p>Os privil\u00e9gios e as vantagens dadas a Domitila chegaram a tal ponto que ela circulava e at\u00e9 viajava ao lado de D. Leopoldina quando toda a corte tinha clareza do status das mulheres em torno do imperador.<\/p>\n<p>&#8220;Leopoldina foi certamente molestada psicologicamente&#8221;, afirma Del Priore. A primeira imperatriz brasileira morreu em 1826, aos 29 anos. Correspond\u00eancia para o imp\u00e9rio austr\u00edaco cita &#8220;estado convulsivo&#8221; da imperatriz antes dos momentos finais.<\/p>\n<p>A Marquesa de Santos virou, ao final, uma inconveni\u00eancia pol\u00edtica para D. Pedro 1\u00ba. Entre idas e vindas, ele encerrou o relacionamento. Numa carta, diz a ela: &#8220;Eu te amo, mas amo mais a minha reputa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Tu n\u00e3o h\u00e1s de querer a minha ru\u00edna nem a ru\u00edna de teu e meu pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<h3>Crise pol\u00edtica e abdica\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Apesar de saudado pela simpatia \u00e0s ideias liberais e esp\u00edrito reformista do absolutismo, D. Pedro 1\u00ba suspendeu direitos da popula\u00e7\u00e3o em prov\u00edncias brasileiras. <\/p>\n<p>Integrantes de movimentos separatistas foram presos, deportados ou executados.<\/p>\n<p>&#8220;Pode-se dizer que ele foi sempre um homem dividido. Entre ser brasileiro e ser portugu\u00eas e entre ser liberal e ser absolutista. Mas tamb\u00e9m pode-se de considerar que ele foi um sucesso dentro dessa contradi\u00e7\u00e3o pois fundou o Brasil como estado independente e manteve a dinastia Bragan\u00e7a no trono dos dois pa\u00edses&#8221;, diz Isabel Lustosa.<\/p>\n<p>Em maio de 1823, quando a Assembleia Geral come\u00e7ou os trabalhos para elaborar uma carta constitucional, D. Pedro 1\u00ba leu um discurso com o seguinte trecho: &#8220;Aceitarei e defenderei a Constitui\u00e7\u00e3o, se for digna do Brasil e de mim&#8221;.<\/p>\n<p>A sugest\u00e3o de que a palavra final sobre o texto teria que ser do imperador marcou uma disputa de anos com parlamentares e outros atores pol\u00edticos. D. Pedro 1\u00ba, mais tarde, dissolveria com um decreto a Assembleia Constituinte por ver, segundo ele, &#8220;a p\u00e1tria em perigo&#8221;.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o acirrou \u00e2nimos entre brasileiros e portugueses residentes no pa\u00eds e contrastava com a imagem de monarca reformador e simp\u00e1tico aos ideias liberais que se espalhava no exterior.<\/p>\n<ul>\n<li>Reconstitui\u00e7\u00e3o mostra verdadeiro rosto de D. Pedro 1\u00ba com fratura no nariz<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8220;Ao mesmo tempo em que ele foi o campe\u00e3o do liberalismo na Europa, aqui ele deixou diversas lembran\u00e7as de seus arroubos, quando ele mandou fechar a Assembleia Constituinte e ele mesmo outorgou uma constitui\u00e7\u00e3o para o Brasil, mais liberal que aquela que a Assembleia estava fazendo que, por outro lado, inclu\u00eda o Poder Moderador permitindo ao imperador nomear seu pr\u00f3prio minist\u00e9rio sem interfer\u00eancia do Parlamento&#8221;, explica Rezzutti.<\/p>\n<p>Quando o conflito acerca da carta e de seu gabinete de ministros recrudesceu, o monarca declarou: &#8220;Prefiro abdicar a aceitar imposi\u00e7\u00f5es violentas contr\u00e1rias \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m disse : &#8220;Entre mim e o Brasil tudo est\u00e1 acabado e para sempre&#8221;. No entanto, fez diversas manifesta\u00e7\u00f5es com afeto sobre o pa\u00eds at\u00e9 o fim da vida.<\/p>\n<p>O imperador oficialmente abriu m\u00e3o do trono brasileiro, que passava para o filho Pedro, com 5 anos nesse momento. O pa\u00eds seria governado por uma reg\u00eancia at\u00e9 que o menino completasse 15 anos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a abdica\u00e7\u00e3o, D. Pedro 1\u00ba foi abrigado em navios estrangeiros na Ba\u00eda da Guanabara, auxiliada pelas embaixadas da Fran\u00e7a e da Inglaterra. O primeiro destino com a nova esposa, D. Am\u00e9lia de Leuchtenberg, seria a regi\u00e3o francesa da Normandia.<\/p>\n<h3>A batalha final<\/h3>\n<p>D. Pedro 1\u00ba, no entanto, se estabeleceria em Paris. E a recep\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a marcou uma grande diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao que o ex-imperador havia vivido nos \u00faltimos anos no Brasil. <\/p>\n<p>D. Pedro 1\u00ba era celebrado como exemplo de monarca europeu com ideias modernas. Foi acolhido por Lu\u00eds Filipe 1\u00ba, o &#8220;rei-cidad\u00e3o&#8221;, e frequentava a vida cultural parisiense e convescotes da alta sociedade.<\/p>\n<p>Apesar da rotina festiva, D. Pedro 1\u00ba tinha o projeto de recuperar o poder em Portugal, agora nas m\u00e3os do irm\u00e3o mais novo, D. Miguel &#8211; este visto na pol\u00edtica europeia como algu\u00e9m que estava promovendo uma retomada absolutista.<\/p>\n<p>Para isso, liderou um plano considerado quase quixotesco em que arregimentou, entre portugueses exilados e mercen\u00e1rios, uma for\u00e7a de cerca de 8 mil homens. Do outro lado, as for\u00e7as de D. Miguel somavam 80 mil. O equipamento de guerra do lado &#8220;liberal&#8221; tamb\u00e9m era parco e de qualidade ruim.<\/p>\n<p>D. Pedro 1\u00ba, no entanto, superou o progn\u00f3stico largamente desfavor\u00e1vel e conseguiu tirar D. Miguel do poder. <\/p>\n<p>?? contabilizado como fator da vit\u00f3ria da desacreditada campanha a lideran\u00e7a do ex-imperador brasileiro e sua atua\u00e7\u00e3o na frente de batalha, cavando trincheiras e circulando pr\u00f3ximo de bombas e tiroteios.<\/p>\n<p>O trono portugu\u00eas iria para a filha Maria da Gl\u00f3ria, de 15 anos, que se tornaria a rainha Maria 2\u00aa. Quando D. Jo\u00e3o 6\u00ba morreu, em 1826, D. Pedro 1\u00ba estava sob forte desconfian\u00e7a de que estava deixando de lado os assuntos brasileiros em nome de um interesse na Coroa portuguesa &#8211; al\u00e9m de um desencadear um processo que poderia acabar em uma temida reunifica\u00e7\u00e3o. Assim, seguiu o conselho de renunciar.<\/p>\n<p>&#8220;A coer\u00eancia maior da sua luta contra o absolutismo \u00e9 ele ter abdicado de duas coroas e lutado contra o irm\u00e3o, campe\u00e3o dos absolutistas portugueses, para colocar a sua filha, D. Maria 2\u00aa, no trono de Portugal e fazer valer a constitui\u00e7\u00e3o que ele deu ao pa\u00eds em 1826&#8221;, diz Rezzutti.<\/p>\n<p>Ao final da batalha pela retomada do poder em Portugal, D. Pedro 1\u00ba se viu com crises de falta de ar e tuberculoso. Morreu em 24 de setembro de 1834, aos 35 anos. <\/p>\n<p>Segundo o escritor Ant\u00f3nio Feliciano de Castilho, as ruas de Lisboa ficaram &#8220;inundadas de portugueses&#8221; enquanto a carruagem seguia com o corpo do monarca.<\/p>\n<p>Os restos mortais voltaram ao Brasil em 1972, nos 150 anos da independ\u00eancia do pa\u00eds, e foram exumados em 2012 pela arque\u00f3loga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel. <\/p>\n<p>As an\u00e1lises mostraram fraturas de quedas de cavalo e que o imperador tinha entre 1,66m e 1,73m de altura.<\/p>\n<p>Sua ossada est\u00e1, junto com as de suas duas esposas, na cripta imperial, no Parque da Independ\u00eancia, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? 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