{"id":64234,"date":"2022-03-28T05:35:22","date_gmt":"2022-03-28T08:35:22","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/eu-sinto-medo-na-longa-estrada\/"},"modified":"2022-03-28T05:35:22","modified_gmt":"2022-03-28T08:35:22","slug":"eu-sinto-medo-na-longa-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/28\/eu-sinto-medo-na-longa-estrada\/","title":{"rendered":"Eu sinto medo na longa estrada"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/paulo_sales.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"650\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ferreira Gullar certa vez escreveu que ???n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7o maior que despedir-se da vida???. J\u00e1 Alain Delon planeja despedir-se dela em breve. Aos 86 anos, o ator franc\u00eas \u00e9 sobrevivente de um AVC, mas viu a mulher morrer de um c\u00e2ncer no p\u00e2ncreas, provavelmente uma experi\u00eancia traum\u00e1tica pela qual n\u00e3o deseja passar. Ele pretende recorrer \u00e0 eutan\u00e1sia quando chegar a hora que julgar adequada.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Delon mora na Su\u00ed\u00e7a, onde a eutan\u00e1sia \u00e9 permitida. ???A partir de certa idade, de um determinado momento, temos o direito de dar o fora com calma, sem passar por hospitais, inje\u00e7\u00f5es ou coisas assim???, afirmou numa entrevista. ?? justo. Foi um dos atores mais bonitos da hist\u00f3ria do cinema e na tela deu vida ao jovem prolet\u00e1rio de Rocco e Seus Irm\u00e3os e ao aristocrata arrivista de O Leopardo, ambos de Luchino Visconti, entre tantos pap\u00e9is cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mudo de assunto: hoje lembrei de um caso triste da inf\u00e2ncia. Eu tinha um azul\u00e3o ainda filhote engaiolado na casa onde mor\u00e1vamos. Uma noite, um gato conseguiu abrir o viveiro e comeu o azul\u00e3o. No outro dia, quando fui olhar, s\u00f3 havia restado a cabe\u00e7a do animal. Diminuta, com os olhos entreabertos e a parte seccionada mostrando o interior vermelho vivo. Chorei muito nesse dia observando a cabecinha do passarinho, at\u00e9 que a joguei no quintal.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">?? poss\u00edvel que tenha sido o meu primeiro contato direto com a morte. Antes minha av\u00f3 morrera, mas dela guardo s\u00f3 a lembran\u00e7a da sua presen\u00e7a na casa ??? uma cama de ferro, dessas de hospital ??? e da imagem que minha mente construiu quando minha m\u00e3e disse que ela tinha ido para um jardim florido. Criei outros passarinhos na inf\u00e2ncia, dos quais o meu preferido era uma cuiubinha. Cantava para ela depois do almo\u00e7o e ela fechava os olhos, provavelmente de raiva e enfado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Outro foi um cardeal. Era lindo, com a cabe\u00e7a vermelha, o corpo branco e as asas matizadas de preto. Um dia ele morreu, enquanto eu estava na escola. Minha m\u00e3e, com sua abnega\u00e7\u00e3o, saiu para procurar outro antes que eu desse por falta. Ela precisou ir at\u00e9 a casa de uma pessoa que criava p\u00e1ssaros, num lugar bem distante, e enfim achou o cardeal substituto. S\u00f3 fui saber disso muito tempo depois, j\u00e1 adolescente. Minha m\u00e3e me preservou de uma nova perda.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Certa vez, nas minhas travessuras, botei a m\u00e3o dentro do viveiro e um periquito conseguiu escapar. Voou r\u00e1pido para longe. Eles n\u00e3o gostavam de n\u00f3s. ??ramos carcereiros sem d\u00f3, embora n\u00e3o me desse conta disso \u00e0 \u00e9poca. Hoje me arrependo muito e deploro animais engaiolados. Seja um can\u00e1rio num al\u00e7ap\u00e3o ou um tigre no Zool\u00f3gico. O \u00faltimo passarinho que tive, um coleirinha, morreu nas minhas m\u00e3os, provavelmente intoxicado pelo cheiro de tinta da parede do apartamento para onde t\u00ednhamos acabado de mudar. Eu o enterrei no jardim.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mudo de novo de assunto (ou talvez sejam s\u00f3 varia\u00e7\u00f5es sobre o mesmo tema): esta noite fui assolado pela ins\u00f4nia. Um territ\u00f3rio por vezes in\u00f3spito, no qual empreendemos longas jornadas rumo ao passado. Lembrei de uma garota de Jundia\u00ed que conheci na juventude. Ela me apresentou aos seguintes versos: ???Quebrei meus pensamentos \/ E andei descal\u00e7a sobre eles \/ Feri meus p\u00e9s???. N\u00e3o lembro se os versos eram dela ou de uma amiga, s\u00f3 sei que gostava muito deles. A garota se foi sem deixar vest\u00edgios, a lembran\u00e7a do rosto dela tamb\u00e9m. Os versos ficaram.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nessas noites em claro, os pensamentos costumam nos ferir como nos versos da garota, s\u00f3 que provocando pequenas incis\u00f5es no nosso c\u00f3rtex cerebral, e n\u00e3o nos p\u00e9s. Temo que o meu c\u00f3rtex esteja tomado por cicatrizes como o bra\u00e7o de um viciado em hero\u00edna. A madrugada insone tamb\u00e9m me fez remoer um fato recente: um antigo colega de escola que esta semana perdeu o filho, adolescente ainda. Mais cedo, tinha visto fotos dos dois em uma rede social e lido o depoimento devastador do pai. Aquilo me deixou mal.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eu sinto medo nessa longa estrada. Um medo estranho e inexplic\u00e1vel. Por vezes irrompe de repente, outras hiberna. Medo da dor, da velhice, das perdas, da extin\u00e7\u00e3o. Talvez eu seja ainda aquele garoto t\u00edmido e gordinho \u00e0s voltas com a cabe\u00e7a do azul\u00e3o, incapaz de compreender os mecanismos brutais que fazem a natureza avan\u00e7ar. Ou talvez esteja esbo\u00e7ando para mim mesmo, ainda que involuntariamente, o que para Alain Delon j\u00e1 parece t\u00e3o claro: a partir de determinado momento, temos o direito de dar o fora com calma. S\u00f3 espero que o momento n\u00e3o chegue t\u00e3o cedo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ferreira Gullar certa vez escreveu que ???n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7o maior que despedir-se da vida???. J\u00e1 Alain Delon planeja despedir-se dela em breve. Aos 86\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":64235,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-64234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64234\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}