{"id":64272,"date":"2022-03-28T06:36:19","date_gmt":"2022-03-28T09:36:19","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/a-vida-das-mulheres-trans-e-travestis-nas-ruas-de-bh\/"},"modified":"2022-03-28T06:36:19","modified_gmt":"2022-03-28T09:36:19","slug":"a-vida-das-mulheres-trans-e-travestis-nas-ruas-de-bh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/28\/a-vida-das-mulheres-trans-e-travestis-nas-ruas-de-bh\/","title":{"rendered":"A vida das mulheres trans e travestis nas ruas de BH"},"content":{"rendered":"<div>A cantora Linn da Quebrada tatuou o pronome ???ela??? na testa para que a m\u00e3e n\u00e3o a chamasse pelo pronome masculino. ???Fiz essa tatuagem na verdade por causa da minha m\u00e3e, porque no come\u00e7o da minha transi\u00e7\u00e3o ela ainda errava por me tratar por um pronome masculino. Eu falei: ???M\u00e3e, vou tatuar ela aqui na minha testa para ver se a senhora n\u00e3o erra&#8221;&#8217;, relembrou Linn em rede nacional, no Big Brother Brasil 22, depois de ter sido chamada, erroneamente no masculino, reiteradas vezes pelos colegas da casa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Linna \u00e9 travesti, a segunda mulher trans que participa do reality show mais assistido do pa\u00eds e a \u00fanica a se tornar l\u00edder na competi\u00e7\u00e3o. A primeira participante trans foi Ariadna Andrade em 2011, e foi a primeira eliminada do BBB11. <\/p>\n<p>Depois de mais de uma d\u00e9cada da participa\u00e7\u00e3o de Ariadna, Linna, apesar de se sentir violentada ao ser chamada de ???ele???, orientou de forma paciente seus colegas: ???Ficou na d\u00favida, l\u00ea e da\u00ed voc\u00eas lembram que eu quero ser tratada no pronome feminino???.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O esfor\u00e7o da cantora para explicar aos colegas de confinamento e \u00e0 audi\u00eancia os motivos pelos quais \u00e9 fundamental que uma pessoa transg\u00eanero seja tratada pelo pronome correto inspira a s\u00e9rie &#8220;Bonequinhas&#8221; e o podcast produzido pelos N\u00facleos Multim\u00eddia e DiversEM do<b> Estado de Minas<\/b>. Essa reportagem investiga o caminho que as travestis precisam percorrer para poderem ser vistas como mulheres.<\/div>\n<div><\/p>\n<div>O termo &#8220;bonequinhas&#8221; \u00e9 uma forma como as mulheres trans e travestis se referem a elas mesmas. A express\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com a apar\u00eancia delas e remete \u00e0s bonecas, pois elas est\u00e3o sempre bem arrumadas e maquiadas. E algumas passam por procedimentos cir\u00fargicos que aumentam a similaridade com as bonecas.<\/div>\n<div>\n<p><\/div>\n<\/div>\n<div>Ser denominada no masculino \u00e9 uma das muitas viol\u00eancias a que pessoas trans est\u00e3o submetidas. No cotidiano, elas s\u00e3o agredidas e at\u00e9 assassinadas simplesmente por serem o que s\u00e3o. <\/p>\n<p>A s\u00e9rie de reportagem do<b> Estado de Minas <\/b>adentra no universo de pessoas trans em Belo Horizonte para entender como \u00e9 viver em uma sociedade ainda muito guiada pelo preconceito em rela\u00e7\u00e3o a essas identidades de g\u00eanero. A s\u00e9rie tem o prop\u00f3sito de mostrar um pouco a viv\u00eancia de travestis e transexuais, que lutam diariamente para existir.<\/p>\n<\/div>\n<div>A reportagem entrou em contato com diversas travestis para que pudessem dar entrevistas, muitas preferiram n\u00e3o falar com medo do que a exposi\u00e7\u00e3o pudesse trazer. At\u00e9 que conseguiu entrevistar Amanda Quirino Rodrigues Chaves, de 39 anos, assessora parlamentar da vereadora Duda Salabert (PDT). Amandinha, como \u00e9 conhecida, \u00e9 travesti e ativista da causa na cidade.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Amandinha prontamente nos atendeu, e lan\u00e7ou o desafio: ???Voc\u00eas querem saber qual \u00e9 a viv\u00eancia das travestis em BH? Ent\u00e3o, vamos at\u00e9 as ruas para que voc\u00eas possam falar com elas???. <\/p>\n<p>No Brasil, segundo a pesquisa da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% da popula\u00e7\u00e3o trans tem a prostitui\u00e7\u00e3o como principal fonte de renda e \u00fanica possibilidade de subsist\u00eancia. As ruas, portanto, s\u00e3o os locais em que elas passam boa parte do tempo, onde trabalham e onde tamb\u00e9m constroem a sociabilidade, as redes de afeto e de prote\u00e7\u00e3o.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>A equipe de reportagem topou e passamos algumas horas da noite de uma sexta-feira em companhia das meninas nas ruas do Bairro Santa Am\u00e9lia, na Regi\u00e3o da Pampulha. Nossa primeira mudan\u00e7a no olhar foi quando o nome que pretend\u00edamos nomear a s\u00e9rie caiu por terra. Pensamos em chamar a s\u00e9rie de Sereias.<\/p>\n<\/div>\n<div>O s\u00edmbolo da torcida de Linn no reality \u00e9 uma sereia, uma imagem que remete \u00e0 ideia de um ser h\u00edbrido: metade mulher e metade ser aqu\u00e1tico. No entanto, quando falamos com as meninas em BH sobre essa refer\u00eancia para denomin\u00e1-las, elas levaram um susto. E explicaram: na g\u00edria das ruas, ???fazer a sereia??? \u00e9 quando uma travesti usa de uma estrat\u00e9gia para roubar um cliente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>H\u00e1 entre elas um r\u00edgido c\u00f3digo de conduta que \u00e9 contr\u00e1rio ao roubo. Ali\u00e1s, existe um grupo secreto de clientes que elabora uma esp\u00e9cie de avalia\u00e7\u00e3o das meninas. Nesse espa\u00e7o, s\u00e3o indicadas as meninas que costumam roubar e tamb\u00e9m os clientes que querem transar sem usar preservativos. ?? importante ser bem avaliada neste grupo at\u00e9 para manter a clientela.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As meninas disseram \u00e0 reportagem que a imagem que mais as contempla, e \u00e9 tamb\u00e9m a maneira como os clientes as costumam chamar, \u00e9 ???bonequinha??? ??? denomina\u00e7\u00e3o que nomeia nossa s\u00e9rie.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nas ruas, podemos ver que essas bonecas investem na autoimagem. Isso porque precisam chamar aten\u00e7\u00e3o dos clientes, pode-se concluir numa an\u00e1lise superficial, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A imagem \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de como elas querem ser vistas pelo mundo, num equil\u00edbrio da express\u00e3o de como se sentem e de como o feminino \u00e9 representado na sociedade que ainda se baseia em conceitos machistas. <\/p>\n<p>Diante disso, muitas se apresentam com cabelos longos, quase sempre at\u00e9 a altura da cintura; os peitos grandes; cinturas bem marcadas e as unhas bem-feitas. Tamb\u00e9m usam salto alto e uma delas contou \u00e0 reportagem que um dos clientes t\u00eam como fetiche transar com as travestis de salto alto, inclusive no momento do ato.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>O ideal de feminilidade das passarelas se repete ali. Mas esse padr\u00e3o n\u00e3o representa a totalidade das meninas que trabalham com a prostitui\u00e7\u00e3o. Muitas meninas s\u00e3o mais simples, algumas ainda n\u00e3o colocaram implantes de silicone, outras trabalham de chinelos; algumas est\u00e3o acima dos 30 anos, faixa considerada jovem e mais procurada pelos homens. <\/p>\n<p>O racismo tamb\u00e9m se manifesta na prostitui\u00e7\u00e3o e elas revelam que h\u00e1 menos procura pelas travestis negras do que pelas brancas.<\/p><\/div>\n<div>O senso comum costuma afirmar que a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 ???vida f\u00e1cil???. Mas essa vida f\u00e1cil est\u00e1 muito distante da realidade das travestis que atuam como profissionais do sexo. Elas trabalham muitas horas e n\u00e3o h\u00e1 tempo para o lazer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>POUCA SEGURAN??A\u00a0<\/b><\/div>\n<div>Ir para as ruas trabalhar \u00e9 uma decis\u00e3o que muitas travestis tomam por ser a prostitui\u00e7\u00e3o um emprego poss\u00edvel devido a in\u00fameras causas, mas entre elas, certamente est\u00e1 o preconceito contra as trans. Os olhares de desaprova\u00e7\u00e3o, muitas vezes, \u00e9 o que levam as meninas a se prostituir. <\/p>\n<p>Muitos homens se relacionam com as travestis, mas querem manter em segredo. No entanto, nas ruas, elas podem ser elas, sem medo de julgamentos. Mas, ao mesmo tempo, est\u00e3o sujeitas aos riscos da noite: viol\u00eancia das mais diferentes ordens e vindas n\u00e3o s\u00f3 dos clientes.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Eu me previno. Vou embora cedo. N\u00e3o me arrisco&#8230; se for dois homens eu n\u00e3o vou. Mas eu sou vivida. Sou mulher de rua, sou esperta, sabe?!???, afirma Ingrid, de 44 anos. Mesmo com todo o cuidado, ela j\u00e1 foi assaltada duas vezes. ???Uma vez com rev\u00f3lver e outra com faca. Mas fiquei quieta. As meninas falam ???eu fa\u00e7o isso, eu fa\u00e7o aquilo???. Eu n\u00e3o fa\u00e7o nada. Pode levar. A vida \u00e9 mais importante do que brigar por R$ 100, 150???, avalia Ingrid.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com a crise econ\u00f4mica que atinge o Brasil, no entanto, as meninas precisam fazer cada vez mais programas para conseguir uma renda m\u00ednima. ???A gente ganhava muito. Era assim, faz\u00edamos 10, 12 e at\u00e9 15 programas por noite. Era muito dinheiro mesmo. Mais de R$ 1 mil. Hoje, para tirar R$ 200, tem que suar???, revela Ingrid. Se h\u00e1 alguns anos era poss\u00edvel fazer at\u00e9 R$ 1 mil por noite, nos \u00faltimos tempos, \u00e9 imposs\u00edvel conseguir esse valor. ???Tinha cliente que pagava R$ 800. Hoje, ele paga R$ 50.???<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Amandinha lembra de muitos casos de homens que transam com travestis e depois as matam. ???O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata travestis. Ao mesmo tempo \u00e9 o que mais consome pornografia com travestis. Essa conta n\u00e3o bate???, diz.\u00a0<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ou\u00e7a no podcast DiversEM as hist\u00f3rias das travestis que trabalham na regi\u00e3o da Pampulha e conversaram com a nossa reportagem.\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<div><\/p>\n<h3><b>Sem lei, sem prote\u00e7\u00e3o<\/b><\/h3>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o h\u00e1 uma lei que enquadra a prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil como uma atividade econ\u00f4mica. Os projetos de lei, que tentam regulamentar a atividade, equiparar a prostitui\u00e7\u00e3o como qualquer outra atividade profissional, n\u00e3o avan\u00e7am no Congresso Nacional. ???Regulamentar \u00e9 uma forma de resguardar os direitos da profissional do sexo como qualquer outra profissional seja ele sob o v\u00ednculo da CLT, seja sob o v\u00ednculo de profissional aut\u00f4nomo???, afirma a advogada Bruna Andrade, uma mulher l\u00e9sbica que, junto \u00e0 esposa, est\u00e1 \u00e0 frente da organiza\u00e7\u00e3o ???Bicha da Justi\u00e7a???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Na avalia\u00e7\u00e3o da advogada, esses projetos n\u00e3o saem do papel devido ao preconceito e \u00e0s quest\u00f5es morais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Sem uma lei, os servi\u00e7os que elas prestam n\u00e3o s\u00e3o resguardados: n\u00e3o h\u00e1 formas de garantir o pagamento a elas e garantir a integridade f\u00edsica, quest\u00f5es referentes \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 insalubridade. Tamb\u00e9m fica mais dif\u00edcil criar pol\u00edticas p\u00fablicas para atend\u00ea-las.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desde 2002, foi feita a inclus\u00e3o do profissional do sexo na Classifica\u00e7\u00e3o Brasileira de Ocupa\u00e7\u00f5es, que \u00e9 vinculada ao Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego. ???A inclus\u00e3o no CBO permite que os profissionais do sexo possam recolher as contribui\u00e7\u00f5es junto ao INSS e fazer jus aos benef\u00edcios pr\u00f3prios desse v\u00ednculo institucional, como s\u00e3o, por exemplo, as contribui\u00e7\u00f5es para aposentadoria, aux\u00edlio-doen\u00e7a, entre outras pol\u00edticas p\u00fablicas, que est\u00e3o associadas a esse recolhimento da contribui\u00e7\u00e3o???, afirma a advogada.<\/p>\n<\/div>\n<div>A prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma atividade considerada il\u00edcita. ???A profissional do sexo, enquanto profissional liberal, n\u00e3o est\u00e1 praticando nenhum crime???, esclarece a advogada. Entretanto, a legisla\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a explora\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 muito associada \u00e0s casas de explora\u00e7\u00e3o dessas profissionais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???S\u00e3o pessoas que mant\u00eam as profissionais do sexo como fonte de explora\u00e7\u00e3o, como forma de auferir lucro e obter renda. Isso \u00e9 proibido no Brasil. A profissional do sexo n\u00e3o est\u00e1 cometendo nenhum crime. Ela tem prote\u00e7\u00e3o do Estado, na medida em que a atividade profissional passa a ser reconhecida pelo Minist\u00e9rio do Trabalho, mas explorar a prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil continua sendo crime???, ressalta a advogada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Um projeto de Lei 98, de 2003, de autoria do ent\u00e3o deputado federal Fernando Gabeira, propunha aposentadoria para essas profissionais, estabelecendo crit\u00e9rios espec\u00edficos, j\u00e1 que \u00e9 uma profiss\u00e3o exposta ao risco e que gera uma degrada\u00e7\u00e3o do corpo. Outro projeto de Lei 4.211, na \u00e9poca do deputado federal Jean Wyllys, procura fazer a regulamenta\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o para que essas profissionais sejam tuteladas e protegidas pelo Estado, al\u00e9m de prever a possibilidade de aposentadoria especial.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cantora Linn da Quebrada tatuou o pronome ???ela??? na testa para que a m\u00e3e n\u00e3o a chamasse pelo pronome masculino. ???Fiz essa tatuagem\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":64273,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8648],"tags":[],"class_list":["post-64272","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-minas-gerais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64272"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64272\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}