{"id":649156,"date":"2026-02-24T11:26:58","date_gmt":"2026-02-24T14:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2026\/02\/24\/a-justica-que-veste-toga-quando-o-patriarcado-absolve-o-inabsolvivel\/"},"modified":"2026-02-24T11:28:17","modified_gmt":"2026-02-24T14:28:17","slug":"a-justica-que-veste-toga-quando-o-patriarcado-absolve-o-inabsolvivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2026\/02\/24\/a-justica-que-veste-toga-quando-o-patriarcado-absolve-o-inabsolvivel\/","title":{"rendered":"A Justi\u00e7a que veste toga: quando o patriarcado absolve o inabsolv\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p> <meta name=\"description\" content=\"An\u00e1lise resumida sobre a decis\u00e3o do TJMG que absolveu homem de estupro de vulner\u00e1vel, apontando as ra\u00edzes coloniais do patriarcado, a cultura do estupro e a necessidade de descolonizar a justi\u00e7a.\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caso repercutiu por expor a for\u00e7a de uma l\u00f3gica patriarcal dentro das institui\u00e7\u00f5es. O Tribunal de Justi\u00e7a de Minas Gerais absolveu um homem por estupro de vulner\u00e1vel sob o argumento de um \u201cv\u00ednculo afetivo consensual\u201d, colocando em evid\u00eancia como a viol\u00eancia contra meninas ainda \u00e9, para parte do sistema, confundida com afeto. A senten\u00e7a traz \u00e0 tona a pergunta: at\u00e9 que ponto a justi\u00e7a pode legitimar a viol\u00eancia ao interpretar consentimento e v\u00ednculos familiares de forma inadequada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O patriarcado n\u00e3o \u00e9 uma lei natural; \u00e9 uma m\u00e1quina de perpetua\u00e7\u00e3o<\/strong>. Essa frase sintetiza o n\u00facleo do debate: o poder sobre os corpos das mulheres e meninas se reproduce nas institui\u00e7\u00f5es, nas leis e nas decis\u00f5es que desconceptualizam a vulnerabilidade infantil. Desmontar esse modelo exige reconhecer que a estrutura n\u00e3o nasceu aqui, mas foi implantada ao longo de s\u00e9culos, moldando culturas, h\u00e1bitos e entendimentos sobre o que \u00e9 permitido ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o alinhamento hist\u00f3rico, \u00e9 fundamental olhar para o Brasil colonial. As culturas ind\u00edgenas tinham organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, com pap\u00e9is significativos de mulheres na vida comunit\u00e1ria. A escrita colonizadora reconfigurou essas narrativas, impondo hierarquias de g\u00eanero que antes n\u00e3o ocupavam o centro da m\u00e1quina social. Tamb\u00e9m entre povos africanos trazidos ao pa\u00eds, havia formas de parentesco e lideran\u00e7a que foram deslegitimadas pela vis\u00e3o patriarcal estrangeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados sobre a viol\u00eancia contra meninas ajudam a dimensionar o problema. Entre 2021 e 2023, houve mais de 164 mil casos de estupro de vulner\u00e1vel envolvendo v\u00edtimas de 0 a 19 anos. A pesquisa do IPEA de 2014 mostrou que 58,5% dos brasileiros aceitariam, em algum grau, a ideia de que se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros. Al\u00e9m disso, estima-se que apenas 10% dos casos de estupro s\u00e3o registrados, sugerindo uma pr\u00e1tica de invisibiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chamada \u201ccultura do estupro\u201d n\u00e3o \u00e9 um acidente, mas a consequ\u00eancia de uma sociedade patriarcal que normaliza a viol\u00eancia. Quando mulheres aparecem objetificadas na m\u00eddia, quando as v\u00edtimas s\u00e3o culpabilizadas ou quando crian\u00e7as s\u00e3o entregues a adultos sob a justificativa de afeto, o patriarcado funciona como um sistema que transforma crime em HTTP erro de interpreta\u00e7\u00e3o: o discurso de que viol\u00eancia se confunde com rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 virando pr\u00e1tica institucional. A senten\u00e7a que tratou o v\u00ednculo entre homem e menina como algo comum exp\u00f5e essa l\u00f3gica de forma aguda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso tamb\u00e9m exp\u00f5e fragilidades institucionais. O corregedor nacional de Justi\u00e7a classificou a decis\u00e3o de \u201cretrocesso civilizat\u00f3rio\u201d e afirmou que ao menos duas supostas v\u00edtimas ser\u00e3o ouvidas. A tens\u00e3o entre julgamento individual e responsabilidade coletiva revela que o problema n\u00e3o \u00e9 um caso isolado, mas parte de um mecanismo que precisa ser revisto para resguardar a integridade de crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do incidente espec\u00edfico, o texto aponta uma necessidade clara: descolonizar a justi\u00e7a. Reconhecer que o patriarcado \u00e9 uma heran\u00e7a colonial implica desfazer a ideia de que corpos femininos s\u00e3o mercadorias ou propriedade. A luta por um Brasil que proteja meninas exige transformar institui\u00e7\u00f5es, leis e mentalidades, assegurando que estupro seja visto exatamente como crime e n\u00e3o como uma forma de rela\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convido voc\u00ea a compartilhar sua vis\u00e3o sobre como avan\u00e7ar na descoloniza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, na prote\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas e na desconstru\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es que naturalizam a viol\u00eancia. Comente abaixo suas experi\u00eancias, ideias e caminhos pr\u00e1ticos para promover uma sociedade mais justa e segura para todas as crian\u00e7as. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um caso repercutiu por expor a for\u00e7a de uma l\u00f3gica patriarcal dentro das institui\u00e7\u00f5es. 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