{"id":65356,"date":"2022-03-29T04:37:58","date_gmt":"2022-03-29T07:37:58","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/mulheres-trans-e-travestis-identidade-negada-a-partir-da-fala\/"},"modified":"2022-03-29T04:37:58","modified_gmt":"2022-03-29T07:37:58","slug":"mulheres-trans-e-travestis-identidade-negada-a-partir-da-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/29\/mulheres-trans-e-travestis-identidade-negada-a-partir-da-fala\/","title":{"rendered":"Mulheres trans e travestis: identidade negada a partir da fala"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>A fil\u00f3sofa Simone de Beauvoir teorizou que se tornar mulher \u00e9 um processo. No livro ???Segundo sexo???, de 1949, ela levantou a quest\u00e3o: ???N\u00e3o se nasce mulher. Torna-se mulher???. Esse argumento explicita que n\u00e3o \u00e9 o sexo biol\u00f3gico que determina o g\u00eanero, mas a maneira como a mulher constr\u00f3i a identidade de g\u00eanero ao longo da vida. O mesmo pode se dizer em rela\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0s mulheres trans, que passam por esse processo, enfrentando outros desafios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viv\u00eancia das mulheres cis.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Os termos cisg\u00eanero e transg\u00eanero s\u00e3o usados para denominar a rela\u00e7\u00e3o entre o sexo biol\u00f3gico e o g\u00eanero dos sujeitos. Se h\u00e1 uma correspond\u00eancia entre sexo biol\u00f3gico e o g\u00eanero, a pessoa \u00e9 cisg\u00eanera, ou simplesmente cis. Se h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o sexo biol\u00f3gico e o g\u00eanero, a pessoa \u00e9 considerada transg\u00eanera, ou trans. Nesse caso, pode ocorrer um processo de adapta\u00e7\u00e3o do corpo ao g\u00eanero ao qual a pessoa se identifica. No caso das mulheres trans e travestis, nesse processo, elas passam por transforma\u00e7\u00f5es para se aproximar cada vez mais dos tra\u00e7os e caracter\u00edsticas femininas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>No entanto, a viv\u00eancia de Linn da Quebrada no ???BBB22??? tem demonstrado, em rede nacional, como \u00e9 dif\u00edcil para a sociedade reconhecer a identidade de uma travesti. Mesmo com todas as caracter\u00edsticas femininas, Linna foi chamada de ???ele??? pelos colegas.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em diversas circunst\u00e2ncias, os participantes do programa, como Lucas, Eslov\u00eania e Tiago, trataram Linna no masculino. Em um dado momento, o brother Rodrigo chegou a perguntar se o uso do termo ???traveco??? seria ofensivo. N\u00e3o h\u00e1 nenhum segredo que o termo \u00e9 empregado exatamente para colocar em xeque a feminilidade das travestis. Este \u00e9 um ato transf\u00f3bico e agressivo que pode se tornar crime. Amanda Quirino Rodrigues Chaves, assessora parlamentar e ativista LGBTQIA,\u00a0 lembra que ningu\u00e9m nasce travesti. ?? um processo de descoberta. O primeiro passo \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o como se fosse gay. No entanto, com o comportamento feminino, elas percebem que est\u00e3o desadequadas no corpo com que nasceram. ????? como se fosse uma lagarta que vira borboleta. Uma hora ela diz ???quero ser mais close do que isso??? e ela vira borboleta???, compara. Amandinha desde crian\u00e7a era feminina, e a m\u00e3e j\u00e1 percebia. ???A m\u00e3e sente quando voc\u00ea \u00e9 gay. Ela sente.???<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Inclusive, por a filha j\u00e1 ser bem feminina, era uma preocupa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e que ela pudesse sofrer abuso na escola. O per\u00edodo escolar foi de muito sofrimento, com situa\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas de viol\u00eancia. ???J\u00e1 me jogaram dentro de saco de lixo, j\u00e1 me bateram, me fizeram muita maldade. Na \u00e9poca, eu queria s\u00f3 morrer.??? Na \u00e9poca, ela n\u00e3o tinha qualquer refer\u00eancia para entender os motivos de se sentir desadequada ao pr\u00f3prio corpo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>PERCAL??OS <\/b>As travestis tamb\u00e9m enfrentam o preconceito no atendimento na sa\u00fade p\u00fablica. ???A sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 preparada para meu corpo???, avalia Amandinha. Ela conta que perdeu amigas que morreram fazendo uso de horm\u00f4nios sem o acompanhamento m\u00e9dico devido com um endocrinologista. ???Teve trombose???, lembra.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Outro impasse \u00e9 a identidade de g\u00eanero; que elas possam ter o nome social e assumir a identidade feminina. Muitas fam\u00edlias n\u00e3o respeitam essa vontade nem na vida nem na morte das travestis. ???A pessoa passa por um sofrimento a vida inteira. No final, quando ela conseguiu, se ela morre, a fam\u00edlia quer enterr\u00e1-la como um homem cis, mas ela n\u00e3o \u00e9. Isso acontece muito.??? Quando sabe da morte de alguma amiga, Amandinha entra em contato com a fam\u00edlia para que possa respeitar a vontade da travesti. ???A todo tempo, chame e reze pelo nome feminino???, sugere Amandinha.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>MUDAN??AS <\/b>Na d\u00e9cada de 1990, nenhuma travesti seria eleita para cargos pol\u00edticos. ???N\u00e3o dariam nem oportunidade de a gente abrir a boca para falar de pol\u00edticas p\u00fablicas???, avalia Amanda, que assessora Duda Salabert, mulher trans que foi a vereadora mais bem votada na hist\u00f3ria da C\u00e2mara Municipal de Belo Horizonte.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Naquela d\u00e9cada, a travesti mais famosa era a atriz Roberta Close. Duas d\u00e9cadas depois, j\u00e1 no s\u00e9culo 21, a viv\u00eancia de travestis artistas, que ganham visibilidade, contribui para eliminar parte do preconceito.<\/div>\n<div>???Majur, Linna, Liniker v\u00eam com m\u00fasica de dores. ?? uma m\u00fasica po\u00e9tica. Uma m\u00fasica para voc\u00ea tomar um vinho e ficar em casa, de noite, refletindo. A m\u00fasica delas n\u00e3o determina o g\u00eanero. Elas falam de dores. A Linna, no ???BBB???, com todas as palavras e todos os conselhos dela, transita com o que a sociedade fez com que a gente refletisse como a gente era???, afirma. Amandinha est\u00e1 se referindo a tr\u00eas cantoras travestis e negras.\u00a0 Amandinha, que \u00e9 negra, lembra que a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dif\u00edcil para a travesti negra. ???A n\u00e3o ser que voc\u00ea seja famosa, blogueira ou ???BBB??????, pondera.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Apesar de reconhecer a import\u00e2ncia do holofote para a trajet\u00f3ria dessas travestis artistas, Amandinha lembra que a exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia tamb\u00e9m revela aspectos negativos. No pr\u00f3prio ???BBB???, Amandinha lembra que, em alguns momentos, Linna n\u00e3o \u00e9 completamente inclu\u00edda. ???Ela est\u00e1 do lado de duas mulheres pretas, uma que \u00e9 professora, bi\u00f3loga, e a outra que \u00e9 manicure em Sabar\u00e1, pessoas que s\u00e3o vulner\u00e1veis como a gente. Elas n\u00e3o t\u00eam abertura, s\u00e3o exclu\u00eddas o tempo inteiro no ???BBB???. Ela n\u00e3o faz parte daquele mundo. Eles n\u00e3o a acolhem???, diz Amanda.<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>As travestis nas artes<\/h2>\n<div>Apesar de o caso de Linn da Quebrada estar tomando propor\u00e7\u00f5es nacionais devido ao reality, v\u00e1rias pessoas trans sofrem diariamente agress\u00f5es transf\u00f3bicas em Belo Horizonte. A cantora e compositora mineira Lua Zanella, que \u00e9 uma mulher trans, relata que sair de casa na capital mineira \u00e9 sin\u00f4nimo de estar em contato com a viol\u00eancia e a transfobia. ???Seja no olhar, numa fala, seja num atravessar de rua enquanto a gente passa???, conta.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Lua lamenta os ataques que Linna vem sofrendo na casa mais vigiada do Brasil. ????? triste porque ela entrou na casa se apresentando como uma mulher trans e travesti e n\u00e3o est\u00e1 sendo respeitada???, afirma. A artista diz que est\u00e1 sofrendo gatilhos emocionais porque v\u00ea, em rede nacional, os ataques que sofre diariamente.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>No ambiente on-line, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. ???A gente tem a op\u00e7\u00e3o de ficar dentro da nossa bolha. Mas a gente percebe que um pouco que a gente sai \u00e9 violento para corpos como o nosso. Porque as pessoas temem aquilo que elas desconhecem???, afirma a artista, que tamb\u00e9m trabalha nas redes sociais para divulgar seus projetos.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em sua arte, Lua aborda as viv\u00eancias como mulher trans, entre v\u00e1rios outros assuntos da vida, como amizade, amor, festas e romances. ???Acredito que a m\u00fasica tem um papel importante para que outras pessoas entendam o que a gente passa???, conta. ???A m\u00fasica ???Capeta??? cita como o olhar masculino pode ser violento ou objetificador em cima do corpo de uma mulher trans, que sempre \u00e9 visto como uma divers\u00e3o ou um passatempo.???<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Assim como Lua, Linna tamb\u00e9m expressa suas viv\u00eancias como mulher trans em m\u00fasicas. A artista j\u00e1 lan\u00e7ou dois \u00e1lbuns de est\u00fadio, ???Trava l\u00edngua&#8221; e ???Pajub\u00e1???, e duas produ\u00e7\u00f5es em remix das can\u00e7\u00f5es do ???Pajub\u00e1???.<\/div>\n<div>A m\u00fasica ???Eu matei o Junior???, do \u00e1lbum ???Trava l\u00edngua???, fala sobre se assumir como uma mulher e ???enterrar??? seu nome ???morto???, que \u00e9 o nome de batismo. A cantora performou a can\u00e7\u00e3o no ???Big brother Brasil???. Mas, mesmo com a manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, os outros brothers e uma parte do p\u00fablico continuam se referindo a Linna no masculino.<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>CONHE??A A LINNA<\/h2>\n<div><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Nascida na capital paulista, Linn da Quebrada\u00a0 (foto) passou a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia nas cidades de Votuporanga e S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no interior de S\u00e3o Paulo. A fam\u00edlia da artista seguia a religi\u00e3o Testemunhas de Jeov\u00e1.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A artista abandonou a religi\u00e3o da fam\u00edlia, saiu de casa e seguiu para a capital. Ela come\u00e7ou a trabalhar como performer em boates e cantava em bares e botecos. Em 2016, Linna lan\u00e7ou sua primeira m\u00fasica ???Enviadescer??? em seu canal no YouTube.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Linna tamb\u00e9m \u00e9 pr\u00f3xima da m\u00e3e dela. Ela posta v\u00e1rias fotos da m\u00e3e nas redes sociais com legendas de amor. No in\u00edcio de 2022, Linna se reencontrou com seu pai depois de anos sem nenhum contato. A artista escreveu, na legenda da publica\u00e7\u00e3o no Instagram, que finalmente ela e seu pai estavam se conhecendo.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>Em 2014, aos 23 anos, ela descobriu um c\u00e2ncer e precisou retirar um dos test\u00edculos. A cantora fez tratamento por tr\u00eas anos e est\u00e1 curada.\u00a0 Linna estreou nos cinemas em 2017, no document\u00e1rio ???Meu corpo \u00e9 pol\u00edtico&#8221;, que acompanha a vida da cantora e outros tr\u00eas ativistas LGBTQIA. J\u00e1 em 2018, a artista protagonizou o document\u00e1rio ???Bixa travesty???, que conta sua hist\u00f3ria como mulher trans preta. O longa est\u00e1 dispon\u00edvel no Globo Play.<\/div>\n<div>Ela estrelou a s\u00e9rie ???Segunda chamada??? da TV Globo como a aluna Natasha do Col\u00e9gio Carolina Maria de Jesus. A artista contracenou com Arthur Aguiar, que tamb\u00e9m est\u00e1 no ???BBB22???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fil\u00f3sofa Simone de Beauvoir teorizou que se tornar mulher \u00e9 um processo. 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