{"id":66367,"date":"2022-03-29T18:41:53","date_gmt":"2022-03-29T21:41:53","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/03\/mito-da-mulher-falsa-acusadora-escancara-violencia-contra-vitimas-de-abusos\/"},"modified":"2022-03-29T18:41:53","modified_gmt":"2022-03-29T21:41:53","slug":"mito-da-mulher-falsa-acusadora-escancara-violencia-contra-vitimas-de-abusos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/03\/29\/mito-da-mulher-falsa-acusadora-escancara-violencia-contra-vitimas-de-abusos\/","title":{"rendered":"Mito da mulher falsa acusadora escancara viol\u00eancia contra v\u00edtimas de abusos"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;?? s\u00f3 denunciar&#8221;. &#8220;Mas n\u00e3o acha que exagerou?&#8221;. &#8220;O que voc\u00ea fez para provocar isso?&#8221;. A viol\u00eancia contra a mulher nem sempre termina com a instaura\u00e7\u00e3o de um inqu\u00e9rito policial ou com a concess\u00e3o de uma medida protetiva. Ela segue, seja pelo descumprimento da medida cautelar, seja pela revitimiza\u00e7\u00e3o da mulher por parte do estado, ou at\u00e9 mesmo pela difama\u00e7\u00e3o da v\u00edtima. ?? comum se referirem \u00e0 mulher v\u00edtima de viol\u00eancia como a que provocou a viol\u00eancia sexual ou a que inventou uma den\u00fancia. As consequ\u00eancias disso na vida de uma mulher v\u00edtima de viol\u00eancia s\u00e3o incalcul\u00e1veis, como revela a s\u00e9rie especial do <b>Estado de Minas.<\/b><\/p>\n<p> As tr\u00eas  reportagens que comp\u00f5em esta s\u00e9rie especial que mostram o impacto de viol\u00eancias institucionalizadas e qual a parcela de culpa da sociedade sobre essa agress\u00e3o continuada sobre a v\u00edtima, que tem sua palavra constantemente questionada e seu relato traum\u00e1tico desacreditado por quem deveria proteg\u00ea-la e at\u00e9 pela fam\u00edlia ou pelos amigos mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>A cada seis minutos, uma mulher \u00e9 estuprada no Brasil. No ano passado, foram registradas 53.453 den\u00fancias de estupro e estupro de vulner\u00e1vel no pa\u00eds. Em 85,2% dos casos, o autor era conhecido da v\u00edtima. Esses s\u00e3o os n\u00fameros publicados neste ano, relacionados ao ano de 2020, pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica no 15\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Os n\u00fameros s\u00e3o assustadores e, mesmo assim, subnotificados. Segundo o estudo Estupro no Brasil (2016), do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), apenas 10% dos estupros cometidos no Brasil s\u00e3o denunciados.<\/p>\n<p>Mas mostrar os laudos comprovando o abuso e os medicamentos preventivos contra DST que s\u00e3o ministrados nestes casos n\u00e3o foram o suficiente para as pessoas acreditarem na palavra da v\u00edtima. Em dezembro do ano passado, a influenciadora Francine Andrade usou as redes sociais para denunciar que foi dopada e estuprada enquanto estava no rodeio de Jaguari\u00fana, no interior de S\u00e3o Paulo. Francine relatou ter sentido dores no corpo, mas n\u00e3o sabia a origem delas, ent\u00e3o decidiu ir a um m\u00e9dico. <\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s compartilhar todo o doloroso processo e laudos m\u00e9dicos, as advogadas da jovem precisaram emitir uma nota\u00a0 com o intuito de barrar as mentiras divulgadas sobre o caso. ???As investiga\u00e7\u00f5es correm sob segredo de Justi\u00e7a e (as advogadas) repudiam\u00a0 as falsas not\u00edcias que t\u00eam circulado nas redes sociais e imprensa.???<\/p>\n<h3><b>Uma amea\u00e7a velada <\/b><\/h3>\n<p>Um mito enraizado no imagin\u00e1rio social permeia quem faz uma den\u00fancia de viol\u00eancia contra a mulher: o da falsa acusadora. A professora Maria Carolina Medeiros, doutoranda na PUC-Rio e pesquisadora da socializa\u00e7\u00e3o feminina explica as poss\u00edveis origens desse mito. <\/p>\n<p>&#8220;Em um primeiro momento, nem a mulher entende que a viol\u00eancia que ela sofreu foi estupro. Por exemplo, a mulher estuprada pelo namorado. O estupro n\u00e3o ocorre apenas no terreno baldio, com uma mulher gritando socorro. Ent\u00e3o, tem muitas nuances e a pr\u00f3pria mulher demora a se dar conta que foi estuprada&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Conhecida nas redes sociais como @pessimisa, Isabella C. tem 28 anos, \u00e9 comunicadora, empreendedora, formadora de opini\u00e3o, promove discuss\u00f5es sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica nas redes sociais h\u00e1 seis anos, e \u00e9 estudante de Investiga\u00e7\u00e3o Forense e Per\u00edcia Criminal\u00a0explica que no imagin\u00e1rio social existe um modelo de estuprador e um modelo de v\u00edtima. <\/p>\n<p>&#8220;O primeiro \u00e9 um homem &#8216;doente&#8217;, que n\u00e3o tem amigos, fam\u00edlia ou trabalho, e n\u00e3o consegue controlar seus impulsos sexuais. A segunda, uma mulher &#8216;honrada&#8217; que vive de acordo com o que socialmente \u00e9 compreendido como adequado para uma mulher. Nenhum desses estere\u00f3tipos \u00e9 verdadeiro. Primeiramente, o estupro n\u00e3o tem nada a ver com sexo, e sim com controle. Dentro de relacionamentos, ele \u00e9 uma forma de puni\u00e7\u00e3o, uma pena privada. O estuprador pode ser um cara simp\u00e1tico, com muitos amigos, um trabalho legal e bem apessoado. A v\u00edtima pode ser uma prostituta.&#8221;<\/p>\n<p>E, quando a mulher denuncia, tem de enfrentar ainda a barreira de ser desacreditada. Maria Carolina aponta que isso tem algumas origens hist\u00f3ricas e est\u00e1 relacionado ao corpo da mulher como propriedade do homem. &#8220;A mulher n\u00e3o ser vista como indiv\u00edduo e, consequentemente, a mulher n\u00e3o pode falar&#8221;, comenta Maria Carolina. &#8220;?? muito comum ouvir dizer que &#8216;fulano n\u00e3o estupraria porque ele n\u00e3o precisa&#8217;. Como se isso s\u00f3 acontecesse com o homem que quer sexo e n\u00e3o consegue e ele precisa estuprar. Sendo que o estupro tem a ver com rela\u00e7\u00e3o de poder. O poder do homem que entende que o corpo da mulher \u00e9 propriedade dele e ele faz o que quiser&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Esse entendimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do homem: faz parte de um processo hist\u00f3rico e social. &#8220;?? muito comum vermos mulheres reproduzindo isso. &#8216;Mas ela tamb\u00e9m estava b\u00eabada&#8217;, &#8216;Ela tamb\u00e9m estava com aquela roupa&#8217;, &#8216;Mas ela estava dan\u00e7ando daquele jeito&#8217;. Como se os estupros n\u00e3o ocorressem dentro de casa, sem nada disso estar envolvido. ?? uma complexidade hist\u00f3rica, de que a mulher deve servir ao homem. ?? isso que est\u00e1 por tr\u00e1s quando se desacredita a mulher que denuncia&#8221;, afirma a professora.<\/p>\n<h3><b>Den\u00fancia questionada por quem deveria proteger<\/b><\/h3>\n<p>Fazer um boletim de ocorr\u00eancia e dar continuidade \u00e0 den\u00fancia j\u00e1 \u00e9 muito dif\u00edcil. Estatisticamente, existe uma subnotifica\u00e7\u00e3o, tanto de viol\u00eancia dom\u00e9stica, quanto dos crimes sexuais. &#8220;E n\u00e3o ao contr\u00e1rio. Um ponto importante a ser considerado \u00e9 que a psicologia aponta quatro tipos de rea\u00e7\u00f5es. S\u00e3o elas: lutar, fugir, congelar e desfalecer; em ingl\u00eas os 4 F&#8217;s (fight, flight, freeze, faint). Muitas vezes, em crimes sexuais, essa mulher fica congelada. Ela n\u00e3o tem uma a\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma a procuradora de Justi\u00e7a Carla Ara\u00fajo.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 considerado consentimento, mas \u00e9 na verdade uma rea\u00e7\u00e3o que aquela mulher tem. O que ocorre nos crimes sexuais \u00e9 que as lembran\u00e7as n\u00e3o v\u00eam de forma uniforme. Mas para o int\u00e9rprete, seja o juiz, seja o investigado, seja o promotor de Justi\u00e7a, a mulher est\u00e1 dando muitas vers\u00f5es para o fato. Isso \u00e9 usado para retirar a credibilidade. E acaba se tornando uma viol\u00eancia institucional quando diz que ela est\u00e1 cada hora contanto uma coisa&#8221;, explica a procuradora de Justi\u00e7a. <\/p>\n<p>\u00a0Ela aponta que outro entendimento distorcido por parte da sociedade \u00e9 quando ocorre a absolvi\u00e7\u00e3o do agressor e as pessoas entendem que trata-se de uma acusa\u00e7\u00e3o falsa. &#8220;Existem tipos de absolvi\u00e7\u00e3o e uma delas \u00e9 porque n\u00e3o provada a partir do elementos apresentados n\u00e3o significa que ela n\u00e3o aconteceu. Al\u00e9m disso tudo, vale ressaltar que vivemos em um sistema machista e patriarcal no qual est\u00e1 presente a culpabiliza\u00e7\u00e3o da mulher. Ela quer, ela est\u00e1 dispon\u00edvel, a mulher \u00e9 objeto e um homem est\u00e1 acionando sua vontade&#8221;, acrescentou.\u00a0<\/p>\n<h2>O que \u00e9 relacionamento abusivo?<\/h2>\n<div>Os relacionamentos abusivos contra as mulheres ocorrem quando h\u00e1 discrep\u00e2ncia no poder de um em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Eles n\u00e3o surgem do nada e, mesmo que as viol\u00eancias n\u00e3o se apresentem de forma clara, os abusos est\u00e3o ali, presentes desde o in\u00edcio. ?? preciso esclarecer que a rela\u00e7\u00e3o abusiva n\u00e3o come\u00e7a com viol\u00eancias expl\u00edcitas, como amea\u00e7as e agress\u00f5es f\u00edsicas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 um problema social e de sa\u00fade p\u00fablica e, que quando se fala de comportamento, a raiz do problema est\u00e1 na socializa\u00e7\u00e3o.\u00a0Entenda o que \u00e9 relacionamento abusivo e como sair dele.<br \/><b><br \/>Leia tamb\u00e9m:<\/b>\u00a0Cidade feminista: mulheres relatam viol\u00eancia imposta pelos espa\u00e7os urbanos<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<h2>Como denunciar viol\u00eancia contra mulheres?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Ligue 180 para ajudar v\u00edtimas de abusos.<\/li>\n<li>Em casos de emerg\u00eancia, ligue 190.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<h2>O que \u00e9 viol\u00eancia f\u00edsica?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Espancar<\/li>\n<li>Atirar objetos, sacudir e apertar os bra\u00e7os<\/li>\n<li>Estrangular ou sufocar<\/li>\n<li>Provocar les\u00f5es<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>O que \u00e9 viol\u00eancia psicol\u00f3gica?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Amea\u00e7ar<\/li>\n<li>Constranger<\/li>\n<li>Humilhar<\/li>\n<li>Manipular<\/li>\n<li>Proibir de estudar, viajar ou falar com amigos e parentes<\/li>\n<li>Vigil\u00e2ncia constante<\/li>\n<li>Chantagear<\/li>\n<li>Ridicularizar<\/li>\n<li>Distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em d\u00favida sobre sanidade (Gaslighting)<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>O que \u00e9 viol\u00eancia sexual?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Estupro<\/li>\n<li>Obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto\u00a0<\/li>\n<li>Impedir o uso de m\u00e9todos contraceptivos ou for\u00e7ar a mulher a abortar<\/li>\n<li>Limitar ou anular o exerc\u00edcio dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>O que \u00e9 viol\u00eancia patrimonial?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Controlar o dinheiro<\/li>\n<li>Deixar de pagar pens\u00e3o<\/li>\n<li>Destruir documentos pessoais<\/li>\n<li>Privar de bens, valores ou recursos econ\u00f4micos<\/li>\n<li>Causar danos propositais a objetos da mulher<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>O que \u00e9 viol\u00eancia moral?<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li>Acusar de trai\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Emitir ju\u00edzos morais sobre conduta<\/li>\n<li>Fazer cr\u00edticas mentirosas<\/li>\n<li>Expor a vida \u00edntima<\/li>\n<li>Rebaixar por meio de xingamentos que incidem sobre a sua \u00edndole<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p><\/p>\n<h2>Leia mais:<\/h2>\n<ul>\n<li>As principais lutas dos movimentos pelos direitos das mulheres<\/li>\n<li>O que \u00e9 feminic\u00eddio? Entenda as origens e saiba como combat\u00ea-lo<\/li>\n<li>Como a pornografia distorce o sexo e incita viol\u00eancia contra mulheres<\/li>\n<li>Entenda como a cultura da pedofilia est\u00e1 presente na sociedade<\/li>\n<li>Do estupro ao aborto: a dif\u00edcil jornada da mulher v\u00edtima de viol\u00eancia sexual<\/li>\n<li>&#8216;Meu namorado me deu o rem\u00e9dio e viajou&#8217;; relatos de mulheres que fizeram aborto clandestino em MG<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;?? s\u00f3 denunciar&#8221;. &#8220;Mas n\u00e3o acha que exagerou?&#8221;. &#8220;O que voc\u00ea fez para provocar isso?&#8221;. 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