{"id":664057,"date":"2026-03-30T10:26:11","date_gmt":"2026-03-30T13:26:11","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2026\/03\/30\/como-o-brasil-busca-se-tornar-referencia-em-reflorestamento\/"},"modified":"2026-03-30T10:26:11","modified_gmt":"2026-03-30T13:26:11","slug":"como-o-brasil-busca-se-tornar-referencia-em-reflorestamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2026\/03\/30\/como-o-brasil-busca-se-tornar-referencia-em-reflorestamento\/","title":{"rendered":"Como o Brasil busca se tornar refer\u00eancia em reflorestamento"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Daqui a quatro anos, em 2030, o governo brasileiro espera ter zerado o desmatamento ilegal no pa&iacute;s. Uma meta ambiciosa, mas que mesmo assim pode ser insuficiente para zerar as emiss&otilde;es l&iacute;quidas de gases do efeito estufa, alvo perseguido para 2050.<\/p>\n<p><span>Para algumas organiza&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o basta parar de desmatar &ndash; &eacute; necess&aacute;rio tamb&eacute;m reflorestar &aacute;reas desmatadas e degradadas.<\/span> E n&atilde;o falta espa&ccedil;o para isso: segundo estimativas oficiais, o Brasil tem cerca de 100 milh&otilde;es de hectares de pastos com algum grau de degrada&ccedil;&atilde;o que poderiam ser recuperados &ndash; cerca de 12% do territ&oacute;rio nacional.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio governo estabeleceu como meta restaurar 12 milh&otilde;es de hectares at&eacute; 2030. A promessa surgiu em 2015, durante a Confer&ecirc;ncia do Clima da ONU em Paris, a COP21, que resultou no Acordo de Paris, e foi reafirmada em 2024 no Plano Nacional de Recupera&ccedil;&atilde;o da Vegeta&ccedil;&atilde;o Nativa.<\/p>\n<p>O reflorestamento &eacute; importante pois as matas absorvem de 25% a 30% das emiss&otilde;es globais &ndash; com mais florestas, mais perto ficamos da emiss&atilde;o l&iacute;quida zero de gases do efeito estufa, passo necess&aacute;rio para reduzir os eventos clim&aacute;ticos extremos que provocam perda de biodiversidade, crise agr&iacute;cola e deslocamentos for&ccedil;ados.<\/p>\n<p>Um estudo do Instituto Escolhas, publicado em 2023, estimou que restaurar os 12 milh&otilde;es de hectares removeria 4,3 bilh&otilde;es de toneladas de CO2 da atmosfera &ndash; equivalente a dois anos do total de emiss&otilde;es de gases do efeito estufa pelo Brasil.<\/p>\n<h2>Custo alto, verbas insuficientes<\/h2>\n<p>O problema &eacute; que restaurar florestas &eacute; muito mais caro que proteg&ecirc;-las, e as verbas p&uacute;blicas para essa finalidade s&atilde;o escassas. Segundo o estudo do Instituto Escolhas, restaurar 12 milh&otilde;es de hectares custaria R$ 228 bilh&otilde;es, o que equivale ao or&ccedil;amento federal de 2026 para a&ccedil;&otilde;es e servi&ccedil;os de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Sem recursos suficientes, o reflorestamento engatinha. Uma estimativa do Observat&oacute;rio da Restaura&ccedil;&atilde;o e Reflorestamento da Coaliz&atilde;o Brasil Clima, Florestas e Agricultura apontou que cerca de 150 mil hectares haviam sido incorporados em projetos de restaura&ccedil;&atilde;o florestal de 2022 a 2024, menos de 2% da meta nacional.<\/p>\n<p>Governos, organiza&ccedil;&otilde;es civis e setor privado v&ecirc;m tentando desenvolver modelos de reflorestamento economicamente vi&aacute;veis, que envolvam, por exemplo, a venda de cr&eacute;ditos de carbono, a comercializa&ccedil;&atilde;o de produtos extra&iacute;dos da mata ou a combina&ccedil;&atilde;o de restauro florestal com cultivo de &aacute;rvores para a ind&uacute;stria papeleira.<\/p>\n<h2>Articula&ccedil;&atilde;o de interesses<\/h2>\n<p>Uma iniciativa nesse sentido surgiu na c&uacute;pula do G20 realizada em novembro de 2024 no Rio de Janeiro, durante a presid&ecirc;ncia rotativa brasileira. L&aacute; foi lan&ccedil;ada a Coaliz&atilde;o Brasil para o Financiamento da Restaura&ccedil;&atilde;o e da Bioeconomia (BRBFC), que busca acelerar o reflorestamento por meio da articula&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico com o setor privado.<\/p>\n<p>A ideia subjacente &eacute; que reflorestar pode ser uma atividade que gera recursos e empregos, se houver regras e ambiente institucional favor&aacute;veis. O estudo do Instituto Escolhas projeta, por exemplo, que restaurar 12 milh&otilde;es de hectares poderia gerar uma receita de R$ 776,5 bilh&otilde;es, de fontes variadas como cr&eacute;ditos de carbono, venda de madeira e produ&ccedil;&atilde;o de alimentos.<\/p>\n<p>Um dos membros do comit&ecirc; diretor da BRBFC &eacute; Jack Hurd, diretor da agenda do sistema terrestre do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial e da Alian&ccedil;a para as Florestas Tropicais. Ele afirma &agrave; DW que h&aacute; uma &ldquo;oportunidade muito grande para restaura&ccedil;&atilde;o florestal no Brasil&rdquo; e que o pa&iacute;s tem &ldquo;o conhecimento, as ferramentas e a base agr&ocirc;noma para liderar nesse setor&rdquo;.<\/p>\n<p>Outra institui&ccedil;&atilde;o que vem dando prioridade ao tema &eacute; o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A agenda de restaura&ccedil;&atilde;o florestal &eacute; um dos eixos da estrat&eacute;gia da entidade para o Brasil at&eacute; 2027, diz &agrave; DW Katia Fenyves, especialista em mudan&ccedil;a clim&aacute;tica e sustentabilidade do BID.<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;A redu&ccedil;&atilde;o do desmatamento &eacute; uma pauta necess&aacute;ria, mas a restaura&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; algo indispens&aacute;vel &ndash; temos um cen&aacute;rio de emiss&otilde;es acumuladas historicamente e um contexto de degrada&ccedil;&atilde;o florestal&rdquo;, afirma Fenyves. &ldquo;H&aacute; uma necessidade de remo&ccedil;&atilde;o adicional de carbono (da atmosfera), que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com restaura&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Al&eacute;m de capturar carbono, restaurar florestas ajuda na seguran&ccedil;a h&iacute;drica e na resili&ecirc;ncia para enfrentar os efeitos das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas. &ldquo;A escala &eacute; bastante grande e, para o tempo que temos para cumprir as metas, a mobiliza&ccedil;&atilde;o do capital privado &eacute; fundamental&rdquo;, diz Fenyves.<\/p>\n<h2>Modelos em desenvolvimento<\/h2>\n<p>Hurd, do BRBFC, v&ecirc; tr&ecirc;s modelos poss&iacute;veis para restaurar florestas com apoio de capital privado de forma economicamente sustent&aacute;vel. Uma forma &eacute; assumir uma &aacute;rea degradada, restaur&aacute;-la e depois vender os cr&eacute;ditos de carbono das &aacute;rvores que crescerem, de forma a cobrir os custos da restaura&ccedil;&atilde;o e eventualmente dar algum lucro &agrave; empresa ou organiza&ccedil;&atilde;o envolvida no projeto.<\/p>\n<p>Isso j&aacute; vem sendo feito por algumas empresas brasileiras, como a Biomas, a Mercuria e a re.green &ndash; esta &uacute;ltima foi um dos vencedores do Pr&ecirc;mio Earthshot Prize de 2025, concedido pelo pr&iacute;ncipe brit&acirc;nico William.<\/p>\n<p>Alinhado a isso, o governo brasileiro realizar&aacute; nesta quarta-feira (25\/03), na B3, seu primeiro leil&atilde;o de concess&atilde;o de uma floresta p&uacute;blica a ser restaurada pela empresa vencedora. Ser&aacute; a Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro, que fica no norte de Rond&ocirc;nia e margeia a Terra Ind&iacute;gena Karitiana.<\/p>\n<div>\n<h4>Leia tamb&eacute;m<\/h4>\n<ul>\n<li> \t\t\t\t         \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t<\/li>\n<li> \t\t\t\t         \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t<\/li>\n<li> \t\t\t\t         \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t<\/li>\n<li> \t\t\t\t         \t\t\t\t\t \t\t\t\t \t\t\t<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<p>A Flona tem 98 mil hectares, dos quais 14 mil sofreram desmatamento e dever&atilde;o ser restaurados &ndash; os outros 84 mil dever&atilde;o ser conservados. A concess&atilde;o ter&aacute; como prazo 40 anos, e a empresa vencedora poder&aacute; vender os cr&eacute;ditos de carbono da atividade e promover o com&eacute;rcio sustent&aacute;vel de produtos da floresta.<\/p>\n<p>Uma experi&ecirc;ncia semelhante j&aacute; est&aacute; em pr&aacute;tica em n&iacute;vel estadual no Par&aacute;, que concedeu parte da &Aacute;rea de Prote&ccedil;&atilde;o Ambiental Triunfo do Xingu a uma empresa privada para restaura&ccedil;&atilde;o. O contrato foi assinado em julho de 2025, envolve uma &aacute;rea de 10,3 mil hectares e prazo de 40 anos. A empresa vencedora foi a Systemica, que poder&aacute; vender os cr&eacute;ditos de carbono, e o projeto contou com uma garantia multilateral dada pelo BID.<\/p>\n<p>No entanto, o mercado desses cr&eacute;ditos de carbono sofre cr&iacute;ticas sobre seus m&eacute;todos de valida&ccedil;&atilde;o e abrang&ecirc;ncia e ainda est&aacute; em consolida&ccedil;&atilde;o &ndash; o Sistema Brasileiro de Com&eacute;rcio de Emiss&otilde;es de Gases de Efeito Estufa (SBCE) foi regulamentado apenas em 2024.<\/p>\n<p>Outra forma de fazer restaura&ccedil;&atilde;o florestal e gerar receitas para sustentar a atividade &eacute;, al&eacute;m de vender os cr&eacute;ditos de carbono, integrar uma atividade econ&ocirc;mica sustent&aacute;vel &agrave; &aacute;rea, como planta&ccedil;&otilde;es de cacau, caf&eacute; ou a&ccedil;a&iacute;.<\/p>\n<h2>Cr&eacute;ditos de carbono para big techs?<\/h2>\n<p>Um terceiro modelo citado por Hurd &eacute; assumir grandes &aacute;reas degradadas, destinar parte delas ao plantio de &aacute;rvores de r&aacute;pido retorno comercial, como eucaliptos usados na ind&uacute;stria papeleira, e usar parte do lucro dessa atividade para cobrir o custo da restaura&ccedil;&atilde;o da outra parte da &aacute;rea e vender os cr&eacute;ditos de carbono.<\/p>\n<p>Um exemplo dessa abordagem est&aacute; sendo colocado em pr&aacute;tica pelo banco BTG Pactual em parceria com a ONG Conservation International, que busca proteger, restaurar e reflorestar &aacute;reas degradadas no Brasil &ndash; a iniciativa recebeu em dezembro de 2025 um aporte de R$ 300 milh&otilde;es do BNDES.<\/p>\n<p>Nesse modelo, metade de &aacute;reas degradadas adquiridas no Cerrado &eacute; destinada ao plantio de eucaliptos e a outra metade &eacute; restaurada, e os cr&eacute;ditos de carbono s&atilde;o vendidos no mercado. Em 2024, o BTG Pactual anunciou grandes acordos para vender cr&eacute;ditos de carbono &agrave; Meta, entregues at&eacute; 2038, e &agrave; Microsoft, entregues at&eacute; 2043.<\/p>\n<p>Esse esquema &eacute; alvo de cr&iacute;ticas de alguns ambientalistas, que apontam para os riscos da introdu&ccedil;&atilde;o no Cerrado de esp&eacute;cies ex&oacute;ticas como o eucalipto e a press&atilde;o sobre as bacias hidrogr&aacute;ficas.<\/p>\n<h2>Viabilidade a ser comprovada<\/h2>\n<p>Apesar do otimismo com o potencial de o Brasil explorar os diferentes modelos para avan&ccedil;ar no reflorestamento, Hurd ressalta que o pa&iacute;s precisaria melhorar a seguran&ccedil;a jur&iacute;dica em quest&otilde;es fundi&aacute;rias e que falta clareza sobre aspectos tribut&aacute;rios da atividade.<\/p>\n<p>Fenyves, do BID, tamb&eacute;m pondera que esses modelos s&atilde;o relativamente novos e que ainda &eacute; necess&aacute;rio provar a sua viabilidade. &ldquo;H&aacute; uma percep&ccedil;&atilde;o de risco relativamente alta para que esses investimentos ocorram para al&eacute;m de uma escala piloto, mas estamos num caminho de consolida&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirma.<\/p>\n<p>Mesmo assim, &ldquo;muitas pessoas est&atilde;o olhando para o Brasil indicar o caminho adiante&rdquo;, afirma Hurd. Ele diz que o F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial j&aacute; teve conversas com interessados em montar uma coaliz&atilde;o semelhante &agrave; BRBFC na Indon&eacute;sia &ndash; que tamb&eacute;m tem uma grande extens&atilde;o de &aacute;reas florestais degradadas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daqui a quatro anos, em 2030, o governo brasileiro espera ter zerado o desmatamento ilegal no pa&iacute;s. 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