{"id":690398,"date":"2026-05-30T14:41:55","date_gmt":"2026-05-30T17:41:55","guid":{"rendered":"https:\/\/primeirojornal.com.br\/2026\/05\/30\/br-319-a-fratura-na-floresta-e-o-prenuncio-de-novas-crises-sanitarias\/"},"modified":"2026-05-30T14:41:55","modified_gmt":"2026-05-30T17:41:55","slug":"br-319-a-fratura-na-floresta-e-o-prenuncio-de-novas-crises-sanitarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2026\/05\/30\/br-319-a-fratura-na-floresta-e-o-prenuncio-de-novas-crises-sanitarias\/","title":{"rendered":"BR?319: a fratura na floresta e o pren\u00fancio de novas crises sanit\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><em><strong>*O artigo foi escrito pelo professor em&eacute;rito Renato Cordeiro, da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1&ordf; Regi&atilde;o) derrubou no dia 28 de abril <span>a liminar que suspendia por 70 dias os editais do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes)<\/span> para a contrata&ccedil;&atilde;o de empresas para o asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. O DNIT informou que vai relan&ccedil;ar os editais &ldquo;em data a ser definida&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>A pavimenta&ccedil;&atilde;o do trecho central da BR-319 (Manaus&ndash;Porto Velho) coloca em rota de colis&atilde;o dois projetos de pa&iacute;s:<\/strong> um que enxerga o desenvolvimento atrav&eacute;s do asfalto e outro que compreende a floresta em p&eacute; como a maior infraestrutura de seguran&ccedil;a clim&aacute;tica e sanit&aacute;ria do Brasil.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m do desmatamento e da grilagem, a <strong>&ldquo;abertura&rdquo; definitiva dessa via representa uma amea&ccedil;a direta &agrave; integridade biol&oacute;gica<\/strong> dos povos origin&aacute;rios e &agrave; seguran&ccedil;a global.<\/p>\n<p>O asfaltamento da BR-319, ao facilitar o avan&ccedil;o de ramais ilegais (conhecidos como &ldquo;espinhas de peixe&rdquo;), aumenta o contato humano com hospedeiros silvestres &mdash; um processo combatido e condenado pelos principais ambientalistas brasileiros.<\/p>\n<p>Essa <span>fragmenta&ccedil;&atilde;o florestal altera o equil&iacute;brio ecol&oacute;gico e eleva as chances de transbordamento viral<\/span> (spillover), fen&ocirc;meno em que <strong>um pat&oacute;geno salta de um animal para o ser humano.<\/strong><\/p>\n<p>A Amaz&ocirc;nia &eacute; um gigantesco reservat&oacute;rio de biodiversidade e, consequentemente, de pat&oacute;genos. Estima-se que existam milhares de v&iacute;rus desconhecidos em circula&ccedil;&atilde;o entre a fauna silvestre, os quais podem representar um perigo maior do que os microorganismos ancestrais, conhecidos como &ldquo;v&iacute;rus zumbis&rdquo;, que podem ser liberados pelo derretimento do permafrost.<\/p>\n<p>A abertura de fronteiras em &aacute;reas isoladas pode despertar v&iacute;rus e bact&eacute;rias que, at&eacute; ent&atilde;o, estavam contidos em ecossistemas de equil&iacute;brio delicado. Em um mundo hiperconectado, uma muta&ccedil;&atilde;o bem-sucedida em um ramal da BR-319 pode chegar a Manaus em poucas horas e alcan&ccedil;ar o resto do mundo em poucos dias.<\/p>\n<h2>Impacto em 69 Terras Ind&iacute;genas<\/h2>\n<p>O impacto mais severo poder&aacute; ocorrer nas 69 Terras Ind&iacute;genas onde vivem 18 povos &mdash; incluindo alguns em isolamento volunt&aacute;rio &mdash; que seriam afetados diretamente pela rodovia.<\/p>\n<p><strong>Comunidades que vivem em isolamento relativo possuem hist&oacute;ricos imunol&oacute;gicos distintos<\/strong>; o aumento do fluxo de pessoas facilita a introdu&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as infectocontagiosas comuns (como gripe e sarampo), que historicamente causaram efeitos devastadores sobre estas popula&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O desmatamento tamb&eacute;m atrai vetores de doen&ccedil;as tropicais. A altera&ccedil;&atilde;o do regime de &aacute;guas e a forma&ccedil;&atilde;o de po&ccedil;as em &aacute;reas degradadas favorecem a explos&atilde;o de casos de mal&aacute;ria, leishmaniose e dengue em territ&oacute;rios que antes gozavam de um controle natural dessas enfermidades.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, a <strong>criminosa minera&ccedil;&atilde;o ilegal e a grilagem, impulsionadas pela estrada, levam ao desvio de cursos d&rsquo;&aacute;gua e &agrave; contamina&ccedil;&atilde;o por merc&uacute;rio e outros metais pesados<\/strong>, comprometendo gravemente a base alimentar e a sa&uacute;de f&iacute;sica e cognitiva das futuras gera&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas.<\/p>\n<p>Ignorar os riscos sanit&aacute;rios da BR-319 &eacute; ignorar a pr&oacute;pria defesa da vida. A BR-319, se executada sem a devida salvaguarda cient&iacute;fica e sanit&aacute;ria, funcionar&aacute; como um duto para a instabilidade global. Proteger o &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o da floresta&rdquo; e seus guardi&otilde;es originais n&atilde;o &eacute; uma pauta meramente preservacionista, mas uma medida de defesa biol&oacute;gica nacional.<\/p>\n<p>Diante da press&atilde;o pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica pelo asfaltamento, &eacute; imperativo que a ci&ecirc;ncia e a gest&atilde;o p&uacute;blica estabele&ccedil;am uma condicionalidade sanit&aacute;ria inegoci&aacute;vel.<\/p>\n<p>Se o Estado decide romper o isolamento geogr&aacute;fico do cora&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia, assume a responsabilidade &eacute;tica de preencher, antecipadamente, o vazio assistencial que aflige a regi&atilde;o.<\/p>\n<h2>Governo precisaria implementar Plano Estrat&eacute;gico de Sa&uacute;de<\/h2>\n<p>O governo deve compreender que o asfaltamento n&atilde;o pode ocorrer sem a implementa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via de um <strong>Plano Estrat&eacute;gico de Sa&uacute;de para a Calha da BR-319,<\/strong> que inclua, antes da conclus&atilde;o da obra, a estrutura&ccedil;&atilde;o de uma rede de m&eacute;dia e alta complexidade nos munic&iacute;pios do entorno. Isso implica a constru&ccedil;&atilde;o de hospitais regionais de refer&ecirc;ncia e unidades de pronto atendimento em cidades como Humait&aacute;, Careiro e Manicor&eacute;.<\/p>\n<p>A m&eacute;dio prazo, ser&aacute; urgente a cria&ccedil;&atilde;o de editais espec&iacute;ficos e incentivos de carreira para a atra&ccedil;&atilde;o e fixa&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos, enfermeiros, epidemiologistas e sanitaristas na regi&atilde;o, garantindo que a aten&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica n&atilde;o colapse sob a demanda trazida por milhares de novos trabalhadores e moradores.<\/p>\n<p><strong>Ser&aacute; fundamental estabelecer postos de monitoramento permanente e laborat&oacute;rios de fronteira capazes de realizar sequenciamento gen&eacute;tico local,<\/strong> detectando novos pat&oacute;genos em tempo real e transformando a rodovia em uma barreira de conten&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o em um corredor de dissemina&ccedil;&atilde;o. Esses laborat&oacute;rios dever&atilde;o estar conectados a centros de excel&ecirc;ncia j&aacute; existentes em Manaus, como a Fiocruz Amaz&ocirc;nia; na USP; na UFRJ e, no futuro, com o Projeto Orion.<\/p>\n<p>&Eacute; imperativa a amplia&ccedil;&atilde;o e fortalecimento dos Distritos Sanit&aacute;rios Especiais Ind&iacute;genas (DSEIs), com a constru&ccedil;&atilde;o de postos dentro dos territ&oacute;rios e garantia de transporte aerom&eacute;dico eficiente para emerg&ecirc;ncias que a estrada, ironicamente, pode agravar.<\/p>\n<p>Em suma, o custo do asfalto deve incluir o custo da vida. N&atilde;o se pode admitir que a integra&ccedil;&atilde;o terrestre seja inaugurada sobre um sistema de sa&uacute;de em ru&iacute;nas. A infraestrutura f&iacute;sica de transportes s&oacute; ser&aacute; legitimada se for precedida por uma infraestrutura humana de cuidado, sob o risco de transformarmos a BR-319 em uma via de m&atilde;o &uacute;nica para a exporta&ccedil;&atilde;o de novas crises sanit&aacute;rias.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria nos serve de alerta: embora tenha ocorrido uma sistem&aacute;tica oculta&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es durante a ditadura militar, o Brasil de hoje n&atilde;o pode permitir que se repitam na BR-319 as trag&eacute;dias ocorridas na Transamaz&ocirc;nica. O trabalho da Comiss&atilde;o da Verdade &eacute; um testemunho indel&eacute;vel da morte de milhares de ind&iacute;genas e trabalhadores durante a abertura daquelas estradas.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos ignorar esse legado de dor. Afinal, o progresso que silencia a ci&ecirc;ncia, ignora a biologia e despreza o humanismo n&atilde;o integra territ&oacute;rios; apenas pavimenta o caminho para a pr&oacute;xima cat&aacute;strofe previs&iacute;vel.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/counter.theconversation.com\/content\/281954\/count.gif?distributor=republish-lightbox-basic\" alt=\"The Conversation\" width=\"1\" height=\"1\"><\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*O artigo foi escrito pelo professor em&eacute;rito Renato Cordeiro, da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz), e publicado na plataforma The Conversation Brasil. 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