{"id":69722,"date":"2022-04-02T10:43:04","date_gmt":"2022-04-02T13:43:04","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/cerca-de-2-milhoes-de-pessoas-vivem-com-o-autismo-no-brasil\/"},"modified":"2022-04-02T10:43:04","modified_gmt":"2022-04-02T13:43:04","slug":"cerca-de-2-milhoes-de-pessoas-vivem-com-o-autismo-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/02\/cerca-de-2-milhoes-de-pessoas-vivem-com-o-autismo-no-brasil\/","title":{"rendered":"Cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas vivem com o autismo no Brasil"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) atinge de 1% a 2% da popula\u00e7\u00e3o mundial e, no Brasil, aproximadamente dois milh\u00f5es de pessoas. Pelos dados Center of Diseases Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, entre as crian\u00e7as a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de que uma a cada 44 sofra de um problema ainda pouco entendido, mas muito estudado. Por isso \u00e9 que, hoje, no Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o do Autismo, a ideia \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para as pesquisas e para a luta contra o preconceito de quem tem tal condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com especialistas, o diagn\u00f3stico precoce define o tratamento correto, que pode ser a chave para garantir uma melhor qualidade de vida para quem tem TEA. A m\u00e9dica Ana M\u00e1rcia Guimar\u00e3es, do Departamento Cient\u00edfico (DC) de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ressalta a import\u00e2ncia de a fam\u00edlia n\u00e3o protelar o reconhecimento do dist\u00farbio por sentir-se &#8220;envergonhada&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O diagn\u00f3stico tardio traz muitas implica\u00e7\u00f5es para o paciente e para a fam\u00edlia. ?? um indiv\u00edduo que est\u00e1 comprometido nas suas habilidades sociais e atividades di\u00e1rias. Descobrir tardiamente aumenta a incid\u00eancia de transtornos psiqui\u00e1tricos que seriam evit\u00e1veis&#8221;, alerta.<\/p>\n<p>Doutora em psicologia e professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Viviane Neves Legnani explica que n\u00e3o h\u00e1 um exame laboratorial ou de imagem que possa identificar o TEA. &#8220;Quando o m\u00e9dico pede um exame, \u00e9 para descartar outra poss\u00edvel patologia. Por isso, temos uma dificuldade de identificar o autismo, porque ele ocorre por meio do diagn\u00f3stico cl\u00ednico, da observa\u00e7\u00e3o feita pelo profissional e dos relatos dos pais, professores e pessoas pr\u00f3ximas&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Viviane faz um alerta: h\u00e1 uma diferen\u00e7a de uma detec\u00e7\u00e3o precoce do TEA para um diagn\u00f3stico precoce. &#8220;Quando os pais percebem que algo est\u00e1 diferente, podem levar ao profissional para que se fa\u00e7am as interven\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, e n\u00e3o percam a janela de desenvolvimento do filho. Assim, com tempo, a equipe multiprofissional trabalhar\u00e1 para ter um diagn\u00f3stico acertado se \u00e9 ou n\u00e3o o TEA&#8221;, explicou.<\/p>\n<p><strong>Programa<\/strong><\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o do Dia Mundial, o governo federal lan\u00e7ou, ontem, o programa TEAtivo, voltado para crian\u00e7as e adolescentes autistas, que ser\u00e1 desenvolvido pelo Minist\u00e9rio da Cidadania em conjunto com a Secretaria Nacional do Paradesporto. O objetivo \u00e9 permitir o acesso \u00e0 pr\u00e1tica de atividades f\u00edsicas e de lazer a crian\u00e7as e adolescentes com o dist\u00farbio que tenham entre entre cinco e 18 anos.<\/p>\n<p>Os dois primeiros n\u00facleos ser\u00e3o implementados em Goi\u00e2nia e no munic\u00edpio de Tangu\u00e1 (RJ). O investimento da Secretaria Especial do Esporte do Minist\u00e9rio da Cidadania para implantar as unidades iniciais \u00e9 de R$ 1,4 milh\u00e3o. At\u00e9 o fim do ano, o objetivo do governo federal \u00e9 que o TEAtivo atenda aproximadamente 2,6 mil beneficiados. Para isso, mais R$ 1,7 milh\u00e3o ser\u00e3o aplicados.<\/p>\n<p><strong>Batalhas di\u00e1rias contra o preconceito<\/strong><\/p>\n<p>O olhar costuma evitar o contato direto; a hipersensibilidade \u00e0 luz, som ou cheiro pode desencadear sobrecarga sensorial e as rela\u00e7\u00f5es de amizade e de trabalho \u00e0s vezes s\u00e3o um enigma. Cada pessoa dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem um conjunto diferente de caracter\u00edsticas de stims (movimentos repetitivos), hiperfocos e seletividade alimentar. No Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o do Autismo, celebrado hoje, a necessidade de combater a desinforma\u00e7\u00e3o sobre o TEA \u00e9 o principal esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Estudante de fisioterapia, Vit\u00f3ria F\u00e9lix, de 21 anos e moradora da Asa Sul, sofre com a falta de conhecimento da sociedade sobre o tema. &#8220;A quest\u00e3o \u00e9 que as pessoas acreditam que n\u00f3s, autistas, somos como uma receita de bolo. As pessoas falam que eu n\u00e3o tenho cara de autista, como se o TEA tivesse uma cara&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Estudante de direito, Vin\u00edcius Europeu, 18, salienta que &#8220;muitos neurot\u00edpicos (pessoas sem autismo) t\u00eam uma vis\u00e3o muito fechada do que \u00e9 o transtorno e criam muitas barreiras. Ou ent\u00e3o, tentam justificar algum epis\u00f3dio ou erro dizendo que isso aconteceu devido ao autismo&#8221;.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Ricardo, de 8 anos, Tatiana Emos, vice-presidente da Comiss\u00e3o dos Direitos dos Autistas da subse\u00e7\u00e3o do Riacho Fundo I e II e Recanto das Emas, destaca que a luta \u00e9 por um centro de tratamento para autistas de todas as idades. &#8220;Os autistas envelhecem e ficam adultos e, depois, idosos e sem interven\u00e7\u00e3o. Isso gera uma s\u00e9rie de problemas. Precisamos de um centro de tratamento com profissionais que possam atend\u00ea-los&#8221;, alerta.<\/p>\n<p>A luta pelo diagn\u00f3stico \u00e9 \u00e1rdua. Mariane Baltazar, moradora de \u00c1guas Claras, conta que Miguel, 8 anos, teve o diagn\u00f3stico fechado aos cinco. Uma das dificuldades, segundo ela, \u00e9 que o filho busca a socializa\u00e7\u00e3o com outras crian\u00e7as. &#8220;Diferente dos outros autistas, que n\u00e3o t\u00eam esse comportamento, ele sempre quis conversar. Mas ele n\u00e3o entende muito bem o contexto social. Ele pensa que todo mundo \u00e9 o melhor amigo dele. A terapia com ele \u00e9 para encontrar esse outro equil\u00edbrio&#8221;, explica.<\/p>\n<p>O pequeno Andr\u00e9, filho de Ana Cl\u00e1udia e Joaquim Bezerra, teve a condi\u00e7\u00e3o de autista severo n\u00e3o verbal detectada com 1 ano e tr\u00eas meses de idade. Para eles, o segredo de um tratamento adequado passa pela aceita\u00e7\u00e3o, o envolvimento da fam\u00edlia e a persist\u00eancia ??? pilares, ali\u00e1s, para lidar com o preconceito que ainda cerca o TEA.<\/p>\n<p>&#8220;Nunca escondemos o Andr\u00e9. Ele tinha 14 estereotipias, mas sempre falamos muito com as pessoas. Isso ajudou-o a se socializar e a inseri-lo sempre. Tamb\u00e9m buscamos escolas inclusivas, nas quais o bullying tinha sido extirpado da cultura da institui\u00e7\u00e3o&#8221;, explicou Joaquim. <\/p>\n<p><strong>Uma linguagem de amor<\/strong><\/p>\n<p>Um dos mitos sobre o autismo \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a empatia das pessoas no espectro. De autoria da banda Timeout, compostas por autistas do Distrito Federal, o trecho da m\u00fasica Love In The Heart, destaca justamente o contr\u00e1rio: ???amor \u00e9 algo que eu sinto, amor \u00e9 algo que eu toco com a minha banda???. A Timeout surgiu em 2017 \u00e9 composta por at\u00edpicos n\u00edvel 2 de suporte. Paolo Rietveld, um dos coordenadores do projeto, conta que a iniciativa surgiu para que os pacientes atendidos sa\u00edssem do ambiente terap\u00eautico e vivessem uma experi\u00eancia nova. ???A banda tamb\u00e9m \u00e9 coordenada por Carolina Passos, Jo\u00e3o Guilherme e Bruno Formiga, que j\u00e1 trabalham no atendimento de autistas. Nossa ideia inclusive \u00e9 ampliar o projeto e levar os meninos para tocarem em novos lugares???, detalha.<\/p>\n<p>Atualmente, a Timeout tem quatro membros: Ivan Madeira, Jo\u00e3o Gabriel Mello, Thiago Carneiro e Matheus Winkler. O diferencial, segundo Paolo, \u00e9 a naturalidade das apresenta\u00e7\u00f5es dos integrantes. ???Tem toda uma beleza, os meninos v\u00e3o sentindo a m\u00fasica. ?? tudo muito leg\u00edtimo. A Timeout traz esse contexto de poder ser natural. Porque quem est\u00e1 dentro do espectro fica muito tempo tentando disfar\u00e7ar as caracter\u00edsticas para ser aceito na sociedade sem ser discriminado. Quando os meninos sobem no palco, a gente tem essa aceita\u00e7\u00e3o, de naturalizar o espectro???, destaca.<\/p>\n<p>Para a m\u00e3e de Jo\u00e3o Gabriel, o vocalista da banda, participar da Timeout mudou a vida do filho. ???Antes ele n\u00e3o tinha amigos, n\u00e3o era chamado para nenhuma festa da escola, era muito isolado. Agora isso mudou e ele tem os encontros com os amigos da banda, foi um marco fant\u00e1stico???, afirma Fl\u00e1via Lopes, 48, administradora e moradora da Asa Sul. Fl\u00e1via diz para as m\u00e3es que est\u00e3o recebendo um diagn\u00f3stico dos filhos, ???confiarem???. ???Sei que \u00e9 assustador, mas tudo se ajeita e \u00e9 melhor do que a gente imagina. Encontramos um equil\u00edbrio e essa jornada \u00e9 muito bonita. Esse processo de autoconhecimento, depois do diagn\u00f3stico do Jo\u00e3o, me transformou???, confessa.<\/p>\n<p><strong>Vit\u00f3rias di\u00e1rias<\/strong><\/p>\n<p>Edilson Barbosa, diretor jur\u00eddico do Movimento Orgulho Autista Brasil (Moab), destaca que \u00e9 necess\u00e1rio uma mudan\u00e7a na sociedade: ???quando uma m\u00e3e tiver um menino no ch\u00e3o, em crise, ou um adolescente em crise, entender que n\u00e3o \u00e9 porque ele foi malcriado, ou os pais n\u00e3o p\u00f5e limites, mas que aquilo \u00e9 uma crise real. Al\u00e9m disso, precisamos imediatamente de pol\u00edticas p\u00fablicas, porque a sociedade precisa de terapias, medicamentos e de um centro de refer\u00eancias que atenda os autistas para que tenham qualidade de vida???, opina.<\/p>\n<p>Apesar do desafio e preconceito enfrentado na sociedade, Anderson Marques, 31, fot\u00f3grafo e pai de duas crian\u00e7as autistas, defende a import\u00e2ncia de se atentar aos pequenos momentos de conquista. ???A Lu\u00edsa tem 4 anos, e o Dylan tem 2 anos, e eles n\u00e3o falam. E hoje sabemos a import\u00e2ncia de comemorar cada conquista, porque muitas vezes a gente v\u00ea eles sofrendo com crises de ansiedade. Um epis\u00f3dio que marcou minha esposa e eu foi uma vez que convers\u00e1mos na sala e minha esposa estava muito triste, a gente falava que talvez nunca fossemos ouvir nossos filhos falarem. Ent\u00e3o a Lu\u00edsa chegou e deu um abra\u00e7o e um beijo, e isso causou muita emo\u00e7\u00e3o. Ela (Lu\u00edsa) mostrou um amor muito grande nesse momento. Tem uma frase muito bonita que diz isso, que o autismo prova que o amor n\u00e3o precisa de palavras???, finaliza.<\/p>\n<p>*Estagi\u00e1rias sob a supervis\u00e3o de Fabio Grecchi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) atinge de 1% a 2% da popula\u00e7\u00e3o mundial e, no Brasil, aproximadamente dois milh\u00f5es de pessoas.\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":69723,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2799],"tags":[],"class_list":["post-69722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69722\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}