{"id":70340,"date":"2022-04-03T11:39:19","date_gmt":"2022-04-03T14:39:19","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/o-guardiao-da-memoria-do-cinema-baiano\/"},"modified":"2022-04-03T11:39:19","modified_gmt":"2022-04-03T14:39:19","slug":"o-guardiao-da-memoria-do-cinema-baiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/03\/o-guardiao-da-memoria-do-cinema-baiano\/","title":{"rendered":"O guardi\u00e3o da mem\u00f3ria do cinema baiano"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/04\/01\/20150828_132551.jpg\" alt=\"\" width=\"3200\" height=\"1920\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Corta! Toda aquela cena em Cachoeira, onde boa parte do acervo do Museu do Cinema Roque Ara\u00fajo estava ao relento, n\u00e3o passou de uma fic\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Ara\u00fajo tomou um susto digno de filme de terror quando soube do suposto despejo de suas ricas pe\u00e7as pelas redes sociais. Ele estava em Salvador e n\u00e3o entendeu nada. ???Aquilo n\u00e3o fui eu n\u00e3o, cara. Eu nem sabia. A cidade se revoltou, jogou em tudo que foi lugar nas redes sociais. J\u00e1 sabia que o material seria transportado para outro lugar, mas n\u00e3o me esperaram para fazer a transfer\u00eancia e pegaram de qualquer jeito. Isso me deixou retado, mas n\u00e3o fomos despejados???, disse Roque, pela primeira vez ap\u00f3s o epis\u00f3dio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na verdade, o filme de Cachoeira j\u00e1 teve um final feliz. Roque Ara\u00fajo viu que toda revolta nas redes sociais e da popula\u00e7\u00e3o cachoeirense era sin\u00f4nimo de amor. Ele se sentiu acolhido como nunca sentiu antes. Inclusive, depois de toda pol\u00eamica, estudantes, professores e a popula\u00e7\u00e3o em geral da cidade do Rec\u00f4ncavo colocaram a m\u00e3o na massa para ajudar Roque Ara\u00fajo a fazer a transfer\u00eancia de todo material que conta a hist\u00f3ria do cinema. O antigo casar\u00e3o que abrigava o museu receber\u00e1 o Memorial da Irmandade Da Ajuda. A nova sede do Museu do Cinema ser\u00e1 pr\u00f3ximo \u00e0 C\u00e2mara Municipal, mas s\u00f3 ficar\u00e1 pronta para inaugura\u00e7\u00e3o no dia 25 de junho.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Contudo, n\u00e3o significa que o acervo n\u00e3o poder\u00e1 ser visitado at\u00e9 l\u00e1. O desfecho de toda confus\u00e3o fez nascer uma exposi\u00e7\u00e3o com a cara e beleza de Cachoeira. Com previs\u00e3o de estreia para 20 de abril, boa parte do museu ficar\u00e1 exposto na antiga esta\u00e7\u00e3o de trem do munic\u00edpio para visita\u00e7\u00e3o. Na verdade, ser\u00e1 uma homenagem ao pr\u00f3prio Roque Ara\u00fajo, no Festival Internacional de Cinema Finisterra Brasil Afrobarroco: Film Art &#038; Tourism, onde ser\u00e3o expostos c\u00e2meras 16 e 35 mm, projetor de manivela, ilhas de corte e edi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de dispositivos de \u00e1udio de diversas \u00e9pocas. Existe a possibilidade deste acervo permanecer no local at\u00e9 a estreia do local fixo. O material que n\u00e3o for exposto ficar\u00e1 guardado numa escola fechada da cidade at\u00e9 a inaugura\u00e7\u00e3o da nova sede.\u00a0<\/p>\n<p class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"438\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/2\/6\/csm_Roque_Araujo_moviola_2005_ea2d46a485.jpg\" width=\"600\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Estamos aqui na correria para deixar a \u00a0exposi\u00e7\u00e3o pronta. Todos ajudando, voc\u00ea precisa ver que coisa linda. Estudantes, professores, funcion\u00e1rios da prefeitura, uma for\u00e7a-tarefa. Todo mundo pegando no pesado. Voc\u00ea quase n\u00e3o me encontra para bater este papo???, disse Ara\u00fajo, que emenda. \u00a0???J\u00e1 que voc\u00ea me encontrou, vou passar a bola para voc\u00ea. Coloca a\u00ed no jornal que estou com material pronto e embalado para fazermos um museu do cinema em Salvador. O que est\u00e1 faltando \u00e9 \u00a0um lugar para ser a sede. A\u00ed na capital, sim, estou sem lugar para o acervo???, completa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Segundo o pr\u00f3prio Roque Ara\u00fajo, ele tem \u00a03.892 pe\u00e7as que contam a hist\u00f3ria do cinema embaladas em Salvador, precisando apenas de uma sede para que a capital tenha seu pr\u00f3prio museu da s\u00e9tima arte. Apesar do seu legado estar em Cachoeira, Roque Ara\u00fajo \u00e9 soteropolitano, menino da Ribeira, e sonha com seu legado sendo contato tamb\u00e9m na capital baiana.\u00a0<br \/> ???Tenho outras pe\u00e7as raras que ainda n\u00e3o cataloguei que tamb\u00e9m podem fazer parte do museu de Salvador. H\u00e1 quatro anos eu espero um lugar para contarmos a hist\u00f3ria do cinema na capital. Temos museus da m\u00fasica, do samba, mas n\u00e3o temos do cinema. Nossa riqueza cinematogr\u00e1fica \u00e9 incr\u00edvel. N\u00f3s temos o Glauber Rocha, zorra!???, disse Ara\u00fajo. ???Tantos casar\u00f5es fechados no Pelourinho, no Com\u00e9rcio??? Um poderia ser o museu, n\u00e9? Me ajudem a\u00ed, v\u00e1???, disse.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Acervo<\/strong><br \/> Para quem ainda n\u00e3o conhece o Museu de Cinema Roque Ara\u00fajo, saiba que temos pe\u00e7as \u00fanicas na hist\u00f3ria da s\u00e9tima arte. O guardi\u00e3o cinematogr\u00e1fico da Bahia elege tr\u00eas como especiais. O primeiro, talvez o mais raro no aspecto hist\u00f3rico, \u00e9 a segunda vers\u00e3o do projetor dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re, objeto \u00fanico que ele adquiriu em Paris, na Fran\u00e7a.\u00a0<br \/> Os irm\u00e3os Auguste e Luis Lumi\u00e8re s\u00e3o considerados os pais do cinema. Eles foram respons\u00e1veis pela primeira exibi\u00e7\u00e3o de imagens animadas, no final de 1895, na Fran\u00e7a. Foi o primeiro filme exibido em toda hist\u00f3ria. Eles apresentaram ao mundo o cinemat\u00f3grafo, que mais tarde ficou conhecido simplesmente como cinema. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Estava trabalhando na Fran\u00e7a, na d\u00e9cada de 70, e vi esta segunda c\u00e2mera no Museu dos Irm\u00e3os Lumi\u00e8re. Eu j\u00e1 estava juntando coisas para fazer o museu e disse aos \u00a0administradores que queria uma pe\u00e7a dos irm\u00e3os para exibir no Brasil. Eles disseram que iriam pensar e oito dias depois me deram um valor, algo car\u00edssimo justamente para eu n\u00e3o comprar. A\u00ed eu disse: ok, pode fazer o recibo. Eles mudaram de cor [risos]. Trouxe para o Brasil, est\u00e1 aqui em Cachoeira, em solo baiano. Pe\u00e7a \u00fanica. Pouca gente sabe disso???. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sua ideia de fazer um museu surgiu por acaso. Ele tinha um projetor para exibir filmes em casa, nos encontros com amigos. Na \u00e9poca ele j\u00e1 era grande amigo de Glauber Rocha. Por\u00e9m, foi um outro brother, em 72, que o fez pensar num museu. ???Enquanto rodava um filme, um amigo disse que seu pai tinha \u00a0em \u00a0casa um projetor pequeno que eu poderia projetar filmes nele. Perguntou se eu n\u00e3o queria comprar. Ele disse que era de 1944, mas que estava funcionando. Achei bonito, era todo cromado, comprei???, lembra Roque.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Acontece que, depois de uma longa pesquisa, a grata surpresa. O projetor vendido pelo amigo, na verdade, foi fabricado em 1910 e s\u00f3 haviam 10 exemplares no mundo. Dois est\u00e3o no Brasil: um em S\u00e3o Paulo e outro em Cachoeira, considerada a primeira pe\u00e7a do museu. Depois, num trabalho de formiguinha, Roque Ara\u00fajo come\u00e7ou a adquirir outras raridades para o novo sonho de fazer um museu sobre o cinema.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Onde ele viajava, procurava enriquecer o acervo. Na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, ele adquiriu a terceira pe\u00e7a mais importante de sua cole\u00e7\u00e3o. ???Passei a ser um ca\u00e7ador de pe\u00e7as raras para este objetivo. Quando fui trabalhar na Copa de 74, consegui um dos primeiros projetores fabricados na Alemanha, uma caixa de manivela, datado de 1896. Temos isto em Cachoeira, pe\u00e7a \u00fanica no mundo???, conta. \u00a0Em 1994, segundo o pr\u00f3prio Ara\u00fajo, ap\u00f3s voltar da Europa, onde morou na It\u00e1lia e Fran\u00e7a, resolveu colocar em pr\u00e1tica seu museu, mais especificamente no Rec\u00f4ncavo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A escolha de Cachoeira tamb\u00e9m foi natural e sem planejamento pr\u00e9vio. Sua ideia era abrir em Salvador, inclusive. Por\u00e9m, ele ministrava cursos na cidade e sempre colocava em exposi\u00e7\u00e3o algumas pe\u00e7as. ???Lembro de uma exposi\u00e7\u00e3o que acabou ficando cinco meses na universidade de Cachoeira. A Prefeitura come\u00e7ou a pedir para que eu trouxesse mais material. O que seria em Salvador, acabou indo parar em cachoeira???.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A prefeitura acabou convidando para que o museu se tornasse fixo em Cachoeira, no pr\u00e9dio que na \u00faltima semana gerou toda confus\u00e3o e mal entendido. S\u00f3 no munic\u00edpio do Rec\u00f4ncavo s\u00e3o mais de 1.900 pe\u00e7as. Em Porto Seguro s\u00e3o 1.300, sem contar os embalados em Salvador.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Glauber<\/strong><br \/> No Museu, as pe\u00e7as relacionadas a Glauber Rocha t\u00eam um valor sentimental. N\u00e3o apenas pelas raridades, mas por ser um material do pr\u00f3prio amigo. Roque participou da produ\u00e7\u00e3o de todos os filmes do cineasta baiano, incluindo a \u00faltima obra, A Idade da Terra, de 1980, que depois originou No tempo de Glauber, produzido e dirigido por Roque Ara\u00fajo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O document\u00e1rio, de 1986, \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o de filmagens e registros raros de Glauber, incluindo trechos de Idade da Terra e cenas cortadas do cl\u00e1ssico Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964. Ele trabalhou com tudo nos filmes de Glauber. Chegou at\u00e9 a ser ator, fazendo um papel r\u00e1pido de um cangaceiro em Deus e o Diabo. Contudo, a melhor recorda\u00e7\u00e3o para Ara\u00fajo \u00e9 a amizade com Glauber.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Glauber era uma metralhadora de palavras, mas brincava demais. Uma alegria em pessoa. Nas filmagens, no set, ela transmitia uma energia maravilhosa. Era o dia todo fazendo piada, cantando e brincando conosco. Ele que inventou o domin\u00f3 cego, sabia? Uma vez tamb\u00e9m fez um campeonato de pum, onde ele era o juiz. Quem soltasse mais pum nas filmagens, vencia. Ele contava???, lembra Ara\u00fajo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Tamb\u00e9m foi Ara\u00fajo que ajudou o amigo Glauber nos tempos que morou fora, principalmente no ex\u00edlio. ???Na \u00e9poca ele abriu uma conta, mas nunca assinou um cheque. Eu assinava tudo e cuidava das despesas de seu Adamastor e dona L\u00facia (os pais de Glauber)???, lembra. ???Herdei muita coisa de Glauber que est\u00e1 em exibi\u00e7\u00e3o no museu, como pel\u00edculas, c\u00e2meras, entre outras dezenas de pe\u00e7as raras do nosso cinema brasileiro. Mas a principal heran\u00e7a foi conviver e ser amigo dele???, completa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"349\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/8\/8\/csm_Araujo_e_Glauber_865a5f2683.jpg\" width=\"620\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">A hist\u00f3ria de Roque Ara\u00fajo se confunde com o cinema baiano. O primeiro filme baiano teve a participa\u00e7\u00e3o dele, nas \u00a0filmagens de Reden\u00e7\u00e3o (1958), filme de \u00a0Roberto Pires. N\u00e3o parou mais. Segundo o pr\u00f3prio cineasta, tamb\u00e9m fez parte de filmes como Grande Feira ( Roberto Pires, 1961) e O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962).\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Sem contar que trabalhou em todos os filmes de Glauber Rocha, como os premiados Deus e o Diabo na Terra do Sol (1967), Terra em Transe (1968) e O Drag\u00e3o da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Acabou morando fora da Bahia durante 30 anos, enquanto esteve ao lado de Glauber. Roque teve diversas fun\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m produziu diversos filmes e document\u00e1rios. Ele costuma dizer que s\u00f3 n\u00e3o trabalhou como maquiador e transformista no cinema. Roque tamb\u00e9m foi Diretor do Sindicato dos T\u00e9cnicos da Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1fica nos anos 70.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Um pouco da hist\u00f3ria de Roque Ara\u00fajo \u00e9 contada em um dos v\u00eddeos da mostra A Origem &#8211; Micro Sound Cine, que retorna na segunda temporada, de forma online. O v\u00eddeo \u00e9 o making of do e-book Almanaque Sound Cine, premiado em 2021 pela Lei Aldir Blanc Bahia. A dire\u00e7\u00e3o geral \u00e9 assinada pelo desenvolvedor de som e imagem Fabr\u00edcio Jabar e o v\u00eddeo com Ara\u00fajo est\u00e1 dispon\u00edvel no perfil oficial da mostra no Facebook.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Perto de completar 85 anos no pr\u00f3ximo dia 12 de Abril, ele pede apenas um sonho realizado como presente de anivers\u00e1rio. ???N\u00e3o quero dinheiro. Quero apenas o apoio para fazer um museu do cinema em Salvador. Focou na cena? Salvador merece este museu. J\u00e1 recebi convites de outros estados para expor o acervo, mas quero em Salvador. S\u00f3 preciso de um lugar???, pede Ara\u00fajo, que tamb\u00e9m comemora 65 anos de cinema este ano. &#8220;Rapaz, Desconfio de quem diz saber tudo de cinema. N\u00e3o sabe, pois o cinema n\u00e3o para e se reinventa sempre. Costumo dizer aos alunos que a gente nunca sabe tudo. Eu sou um eterno aprendiz&#8221;. \u00a0<br \/> Ele tamb\u00e9m aceita doa\u00e7\u00f5es relacionadas ao cinema. O material pode ser entregue em Cachoeira. Caso as doa\u00e7\u00f5es estejam em Salvador, por exemplo, basta entrar em contato com o museu. ???Eu me viro pra ir buscar. O importante \u00e9 preservar nossa mem\u00f3ria cinematogr\u00e1fica. Parece que \u00e9 mais dif\u00edcil preservar do que fazer cinema???, finaliza. E a\u00ed, Salvador. Bora ???rodar??? este museu?<br \/> \u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corta! 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