{"id":70493,"date":"2022-04-03T16:38:48","date_gmt":"2022-04-03T19:38:48","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/escrevo-para-dialogar-com-os-meus-espantos\/"},"modified":"2022-04-03T16:38:48","modified_gmt":"2022-04-03T19:38:48","slug":"escrevo-para-dialogar-com-os-meus-espantos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/03\/escrevo-para-dialogar-com-os-meus-espantos\/","title":{"rendered":"???Escrevo para dialogar com os meus espantos???"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/04\/01\/tito_leite.jpg\" alt=\"Tito Leite viveu um tempo no Mosteiro de S\u00e3o Bento em Salvador\" width=\"1100\" height=\"698\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">A qualidade da poesia de Tito Leite j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novidade, sua estreia como ficcionista sim. No \u00faltimo m\u00eas, os leitores se surpreenderam positivamente com a chegada ao mercado de Dil\u00favio das Almas, publicado pela editora Todavia. Monge beneditino, 42 anos, nascido na cidade de Aurora (CE), Tito \u00e9 autor dos livros Digitais do Caos (Selo Edith, 2016) e Aurora de Cedro (Editora 7Letras, 2019), ambos de poemas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, esteve por breve per\u00edodo na Bahia, como h\u00f3spede e estudante no Mosteiro de S\u00e3o Bento de Salvador. Al\u00e9m do amadurecimento na vida mon\u00e1stica, conduzido por Dom Manuel Abade, conviveu com escritores locais, integrando-se aos festivos almo\u00e7os realizados na Ceasinha do Rio Vermelho.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Hoje, vive em Pernambuco, no Mosteiro de S\u00e3o Bento de Olinda, ao qual \u00e9 oficialmente ligado. Nesta entrevista, exclusiva para o CORREIO, conversamos sobre a temporada baiana, a voca\u00e7\u00e3o religiosa, a vaidade do meio liter\u00e1rio e, claro, sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o do primeiro romance, ambientado no semi\u00e1rido e que gira em torno de quest\u00f5es atuais, como a viol\u00eancia e o retrocesso moral da sociedade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Tito, voc\u00ea passou uma temporada em Salvador, na Bahia, no Mosteiro de S\u00e3o Bento. Como esse per\u00edodo marcou a sua vida, tanto como monge beneditino quanto como escritor?<\/strong><br \/> Foi um per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o para minha vida mon\u00e1stica e de escritor. No Mosteiro S\u00e3o Bento em Salvador, a conviv\u00eancia com Dom Abade Emanuel D???\u00e1ble do Amaral, ajudou-me bastante a ser um monge melhor, ensinando a import\u00e2ncia do equil\u00edbrio, na espiritualidade beneditina. Al\u00e9m disso, o Dom Abade sempre me incentivou a escrever e apresentou-me alguns escritores, por exemplo, o poeta Fernando da Rocha Peres. Guardo com muito carinho os encontros com alguns poetas na Ceasinha do Rio Vermelho. Conversando com os escritores, Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira e Carlos Barbosa, aprendi muito. E, tamb\u00e9m, tive a alegria de conhecer pessoalmente o Itamar Vieira e Lima Trindade. O conv\u00edvio com os monges de Salvador e os escritores baianos possibilitou uma nova reflex\u00e3o sobre minha consagra\u00e7\u00e3o monacal e o fazer po\u00e9tico.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Em Olinda (PE), onde vive atualmente, pretende permanecer ou est\u00e1 apenas de passagem? Como a experi\u00eancia da viagem se configura em sua vida?<\/strong><br \/> Sou monge beneditino e temos o voto de estabilidade, n\u00e3o podemos mudar para outro Mosteiro. Na minha estada em Salvador, passei como um h\u00f3spede, estava tendo aulas na (Universidade) Cat\u00f3lica, mas estando ligado ao Mosteiro S\u00e3o Bento de Olinda. A viagem para mim se configura numa experi\u00eancia de encontros que buscam boas marcas, tanto no espiritual como no liter\u00e1rio. ?? at\u00e9 curioso que sempre digo que minha escrita \u00e9 produto dos meus encontros liter\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>A voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria antecede a voca\u00e7\u00e3o religiosa? Em que ponto o monge beneditino se tornou um escritor?<\/strong><br \/> Desde crian\u00e7a gostava do universo da leitura e tentava escrever meus primeiros textos. A vontade de ser um religioso sempre foi algo forte na minha vida, talvez, em parte, influenciada pela religiosidade do meu sert\u00e3o, marcada pelas romarias. Comecei a escrever poemas como uma forma de dialogar com o mundo e com os meus espantos. Nunca fui de aceitar verdades dadas sem antes questionar. A minha vida como a de todos os escritores carrega algo de pungente. Nesse sentido, a escrita \u00e9 o espa\u00e7o no qual trabalho com o que h\u00e1 de dilacerado e de enfermo. Penso que o autor surgiu a partir dessa necessidade de di\u00e1logo.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/3\/7\/csm_diluvio_das_almas_capa_df9c7e489a.jpg\" width=\"659\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Capa do primeiro livro de fi\u00e7\u00e3o de Tito Leite<\/strong> (divulga\u00e7\u00e3o)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Sente-se \u00e0 vontade na concilia\u00e7\u00e3o dessas duas voca\u00e7\u00f5es, em que pontos elas se aproximam e se distanciam?<\/strong><br \/> Eu n\u00e3o vejo contradi\u00e7\u00e3o entre o monge e o escritor. Acho lindo quando Heidegger diz que o poeta \u00e9 uma ponte entre os homens e os deuses, sendo a linguagem a morada do Ser. A pr\u00f3pria b\u00edblia \u00e9 repleta de met\u00e1foras, par\u00e1bolas e recursos po\u00e9ticos. ??s vezes, elas se distanciam quando mergulho num projeto e me deixo consumir totalmente pelo seu processo de escrita. Na verdade, o choque acontece quando tenho que tomar cuidado com certos temas, ou n\u00e3o dizer verdades que incomodam. Mas n\u00e3o atrapalha no meu processo de escrita. Isso porque, quando escrevo, n\u00e3o penso no que meu pai, minha m\u00e3e ou algum religioso vai pensar. Eu escrevo e pronto. Sou leitor de Baudelaire, busco o dissonante. Mas veja bem, a verdadeira voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3, al\u00e9m de batismal, \u00e9 prof\u00e9tica. Portanto, cabe ao escritor e ao religioso denunciar toda forma de obscurantismo. Sendo assim, o meu \u00fanico compromisso \u00e9 n\u00e3o escrever algo que corrobore esses movimentos reacion\u00e1rios e genocidas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>A suavidade marca seu trabalho liter\u00e1rio, seja em Digitais do Caos (2016), seu livro de estreia na poesia, quanto em Aurora de Cedro (2019), tamb\u00e9m de poemas, mas em Dil\u00favio das Almas (2022), sentimos uma narrativa mais densa, centrada num personagem, embora culto, controverso. Como se organizou a narrativa do seu primeiro romance?<\/strong><br \/> Escrever um livro compacto com uma prosa enxuta foi a primeira coisa que planejei. Para mim, o processo de constru\u00e7\u00e3o do personagem \u00e9 muito importante, e, para desenvolv\u00ea-lo, refleti bastante sobre as suas contradi\u00e7\u00f5es. Lembrando que, quanto mais complexo um personagem, mais interessante ele pode ficar. J\u00e1 no foco narrativo, levei em considera\u00e7\u00e3o a personalidade forte de Leonardo e por isso escolhi um personagem narrador a um narrador onisciente. Na fluidez do texto, pensei em frases curtas para ganhar velocidade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Uma das caracter\u00edsticas mais marcantes de Leonardo \u00e9 o de ser um viajante assumido como tal, que considera paisagens e pessoas como passageiros em sua vida. O que o levou a essa escolha?<\/strong><br \/> Leonardo \u00e9 complexo, n\u00e3o \u00e9 um homem f\u00e1cil de adivinhar. Acredito que tal escolha esteja relacionada a sua busca pela liberdade, uma experi\u00eancia de vida sem passar pelo gabinete de um burocrata ou de uma vida cheia de regras. Ele n\u00e3o busca nenhuma forma de estabilidade, mas uma vida rica em significados. E suas viagens s\u00e3o interessantes, at\u00e9 porque o personagem j\u00e1 n\u00e3o acredita na sociedade. Acho que a ep\u00edgrafe do livro fala muito sobre ele, ???Agora sou maldito, tenho horror \u00e0 p\u00e1tria. \/ O melhor \u00e9 um sono b\u00eabado, na praia???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>O semi\u00e1rido \u00e9 o cen\u00e1rio central da trama, em Dil\u00favio das Almas. Em sua opini\u00e3o, o momento que vivemos favorece o surgimento, e o acolhimento, de novas vis\u00f5es do Nordeste na literatura brasileira?<\/strong><br \/> Acredito que sim. Muitos editores e pesquisadores buscam compreender uma literatura produzida fora das metr\u00f3poles e grandes centros. O Torto Arado, de Itamar Vieira, abriu muito esse espa\u00e7o. Claro que j\u00e1 existia um interesse pelo Brasil Profundo, como podemos observar nos escritos de Raimundo Carrero, Socorro Acioli, Micheliny Verunschk e outros. Mas o fato \u00e9 que Torto Arado foi o grande acontecimento. At\u00e9 porque, no que diz respeito ao mercado editorial sobre as narrativas ambientadas no Nordeste, existe um antes e um depois do Itamar.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>A quest\u00e3o da viol\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 marcante em Dil\u00favio das Almas, como se esta fosse o destino inexor\u00e1vel da humanidade. De que modo a realidade de nosso pa\u00eds e daquela regi\u00e3o o afeta?<\/strong><br \/> A viol\u00eancia de Dil\u00favio das Almas \u00e9 a mesma que acontece nos nossos dias. ?? at\u00e9 curioso o fato de que o romance se passa na d\u00e9cada de noventa, mas \u00e9 bastante atual. Todo o retrocesso e patriarcalismo de uma sociedade obsoleta voltou. Estamos num pa\u00eds que tem como projeto a dizima\u00e7\u00e3o das minorias, e de forma c\u00ednica fala de costumes e fam\u00edlia. A \u00fanica coisa que posso sentir \u00e9 indigna\u00e7\u00e3o e vontade de militar contra essa realidade obsoleta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Sendo um monge em um meio marcado pela vaidade, como percebe as pr\u00f3prias controv\u00e9rsias do mercado liter\u00e1rio em nosso pa\u00eds?<\/strong><br \/> Eu percebo muita vaidade e falta de uni\u00e3o, escritores fazendo linchamento virtual de outros escritores. ?? muito triste isso tudo, a poesia, como lembra Roberto Piva, \u00e9 sempre um fen\u00f4meno minorit\u00e1rio, e mesmo assim, temos escritores jogando na fogueira da maldade outros escritores. Uma coisa que me chama bastante aten\u00e7\u00e3o \u00e9 quando sai a lista de finalistas de pr\u00eamios liter\u00e1rios, vejo muitos escritores reclamando que seus nomes n\u00e3o est\u00e3o na lista, mas nunca vi ningu\u00e9m reclamando porque o seu livro n\u00e3o ganha os olhos dos leitores.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Qual seria a fun\u00e7\u00e3o da literatura, da prosa e da poesia, a seu ver, em tempos t\u00e3o conturbados e sombrios?<\/strong><br \/> A mesma fun\u00e7\u00e3o da filosofia, que a literatura sempre exerceu, a de colocar o mundo em quest\u00e3o. Acredito no poder subversivo das narrativas, em sua capacidade de transfigurar a realidade. Como sabemos, estamos em tempos de indig\u00eancia, com um obscurantismo que anda de m\u00e3os dadas com um fascismo crescente, cabe aos escritores se posicionar contra tudo o que oprime e diminui a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A qualidade da poesia de Tito Leite j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novidade, sua estreia como ficcionista sim. 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