{"id":70797,"date":"2022-04-04T05:38:18","date_gmt":"2022-04-04T08:38:18","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/desbravando-mares-e-montanhas\/"},"modified":"2022-04-04T05:38:18","modified_gmt":"2022-04-04T08:38:18","slug":"desbravando-mares-e-montanhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/04\/desbravando-mares-e-montanhas\/","title":{"rendered":"Desbravando mares e montanhas"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/paulo_sales.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"650\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 alguns dias venho escalando a montanha que se chama Ulysses. ?? dessas eleva\u00e7\u00f5es quase intranspon\u00edveis, mas com estoicismo e perseveran\u00e7a avan\u00e7o palmo a palmo nessa viagem vertical. N\u00e3o h\u00e1, ainda, prazer, fasc\u00ednio, del\u00edrio silencioso, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de momentos esparsos: a sequ\u00eancia do enterro de Paddy Dignam, a descri\u00e7\u00e3o do cozimento de um rim de porco, as reflex\u00f5es de Leopold Bloom sobre o filho morto e o pai suicida, as tert\u00falias de Stephen Dedalus envolvendo Shakespeare e o seu Hamlet. Ou trechos como esse abaixo, primoroso:<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>???Uma cidadada de gente falecendo, outra cidadada chegando, falecendo tamb\u00e9m: outra chegando, indo embora. Casas, filas de casas, ruas, milhas de andares, pilhas de tijolos, pedras. Trocando de m\u00e3os. Esse dono, aquele. O senhorio nunca morre dizem. Outro toma o lugar quando ele recebe a ordem de despejo. Compram tudo com ouro e ainda assim ficam com todo o ouro. Tem um engodo em algum lugar. Empilhados nas cidades, consumidos por eras e eras. Pir\u00e2mides na areia. Feitas \u00e0 base de p\u00e3o com cebola. Escravos. Muralha da China. Babil\u00f4nia. Grandes rochas abandonadas. Torres redondas. Resta cali\u00e7a, sub\u00farbios senfim, malfeitos \u00e0s pressas, as casascogumelo do Kerwan, feitas de brisa. Abrigo pra uma noite. Ningu\u00e9m \u00e9 coisa nenhuma.???<\/em><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Joyce condensa, em um par\u00e1grafo, a hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es e dos an\u00f4nimos que as comp\u00f5em. Os humilhados e ofendidos e seus senhorios, seus patr\u00f5es, sua vida breve e sem posses. Ningu\u00e9m \u00e9 coisa nenhuma. Nada mais fiel ao nosso caminhar pela Terra. Em um bonito poema, intitulado justamente James Joyce, Jorge Luis Borges de certa forma dialoga com o trecho acima:<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><em>???Num s\u00f3 dia do homem est\u00e3o os dias \/ do tempo, desde aquele inconceb\u00edvel \/ dia inicial do tempo, em que um terr\u00edvel \/ Deus prefixou os dias e agonias \/ at\u00e9 o outro em que o rio ub\u00edquo \/ do tempo secular torne \u00e0 nascente, \/ que \u00e9 o Eterno, e se apague no presente, \/ no futuro, no ontem, no que ora possuo. \/ Entre a aurora e a noite est\u00e1 a hist\u00f3ria \/ universal. E vejo desde o breu, \/ junto a meus p\u00e9s, os caminhos do hebreu, \/ Cartago aniquilada, Inferno e Gl\u00f3ria. \/ Dai-me, Senhor, coragem e alegria \/ para escalar o cume deste dia.???<\/em><\/p>\n<p class=\"bodytext\">?? o que preciso: coragem e alegria para escalar o cume dessa montanha. Uma tarefa \u00e1rdua at\u00e9 mesmo fisicamente. O livro pesa em meus bra\u00e7os como um bloco de concreto maci\u00e7o: calhama\u00e7o denso, s\u00f3lido, espesso. Ao fech\u00e1-lo, ap\u00f3s mais uma noite de escalada, o marcador indica que ainda n\u00e3o ultrapassei a metade do caminho. Bem, eu sabia que n\u00e3o seria f\u00e1cil.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Alterno Ulysses com os poemas de Louise Gl\u00fcck, que me trazem alento e certo descanso f\u00edsico e mental, apesar dos temas dur\u00edssimos descritos com simplicidade e afeto. Gl\u00fcck \u00e9 uma grande poeta. S\u00e3o dela, entre outros que j\u00e1 andei citando neste espa\u00e7o, versos como: <em>???Ningu\u00e9m de fato entende \/ a brutalidade deste lugar, \/ o modo disparatado de aniquilar vidas \/ por for\u00e7a do h\u00e1bito.???<\/em><\/p>\n<p class=\"bodytext\">J\u00e1 trilhei outros caminhos igualmente \u00e1rduos e sempre sa\u00ed deles enriquecido. Meus olhos singraram mares e escalaram montanhas t\u00e3o d\u00edspares entre si, mas igualmente deslumbrantes. Poderia at\u00e9 estabelecer uma inusitada compara\u00e7\u00e3o entre determinados romances, tratando-os por mares (os de linguagem mais linear e caudalosa) ou montanhas (os experimentais, formalmente desafiadores).<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nesse sentido, Grande Sert\u00e3o: Veredas seria uma montanha e Os Irm\u00e3os Karamazov, um oceano, assim como Vida e Destino e Moby Dick, ambos de \u00e1guas tempestuosas e arredias. J\u00e1 O Som e a F\u00faria e Conversa na Catedral s\u00e3o enormes pared\u00f5es de pedra. Romances menores seriam colinas ou ondas, a depender da sua caracter\u00edstica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O importante, nisso tudo, \u00e9 saber que esses e outros grandes cl\u00e1ssicos perenizam a sabedoria humana e sedimentam nosso modo particular de ver o mundo. Porque s\u00e3o as antenas da ra\u00e7a que nos permite<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias venho escalando a montanha que se chama Ulysses. ?? dessas eleva\u00e7\u00f5es quase intranspon\u00edveis, mas com estoicismo e perseveran\u00e7a avan\u00e7o palmo a\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":70798,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-70797","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-policia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70797"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70797\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}