{"id":71633,"date":"2022-04-05T06:50:24","date_gmt":"2022-04-05T09:50:24","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/krenaks-protestam-no-reino-unido-por-mariana\/"},"modified":"2022-04-05T06:50:24","modified_gmt":"2022-04-05T09:50:24","slug":"krenaks-protestam-no-reino-unido-por-mariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/05\/krenaks-protestam-no-reino-unido-por-mariana\/","title":{"rendered":"Krenaks protestam no Reino Unido por Mariana"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Londres ??? A bravura dos ind\u00edgenas krenak deixou o territ\u00f3rio sagrado do Rio Doce em uma jornada de 10 mil quil\u00f4metros, que levou seus l\u00edderes a enfrentarem, ontem, um batalha sob insistente chuva fina, vento cortante e frio de 3\u00b0C em Londres. A miss\u00e3o: defender os direitos dos atingidos pelo rompimento da Barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, na primeira audi\u00eancia que definir\u00e1, at\u00e9 o fim da semana, se a Justi\u00e7a do Reino Unido pode julgar o caso e determinar uma indeniza\u00e7\u00e3o pelo desastre.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os advogados dos atingidos pretendem responsabilizar a mineradora BHP Billiton, inglesa e australiana, pelas consequ\u00eancias do colapso da barragem, que era operada por sua subsidi\u00e1ria, a Samarco ??? a Vale \u00e9 a outra propriet\u00e1ria da empresa brasileira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em frente \u00e0 Royal Courts of Justice, onde fica o Tribunal de Apela\u00e7\u00e3o, os krenaks chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos ingleses ao expor o drama enfrentado por toda a bacia do Rio Doce e por uma popula\u00e7\u00e3o de mais de 700 mil pessoas. Para isso, mostravam garrafas cheias de \u00e1gua turva de lama, com a etiqueta: River Doce (Rio Doce). Com faixas abertas na Avenida Strand, pediram ???Justi\u00e7a por Mariana???.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A inesperada manifesta\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas entre os edif\u00edcios vitorianos de Londres foi registrada pelas lentes de fot\u00f3grafos, cinegrafistas e curiosos da Inglaterra, o que pode despertar a simpatia da opini\u00e3o p\u00fablica londrina durante o julgamento.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os cerca de 200 mil atingidos listados nessa a\u00e7\u00e3o s\u00e3o representados pelo escrit\u00f3rio internacional PGMBM. A maioria \u00e9 formada por pessoas f\u00edsicas, mas os maiores valores pleiteados s\u00e3o referentes a 25 munic\u00edpios mineiros e capixabas ??? incluindo o de Mariana, o mais devastado ???, cinco autarquias, seis institui\u00e7\u00f5es religiosas e 530 empresas de diferentes portes. Estima-se o valor do processo em cerca de 5 bilh\u00f5es de libras (mais de R$ 31 bilh\u00f5es). O julgamento da a\u00e7\u00e3o est\u00e1 previsto para terminar na sexta-feira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A Samarco operava a Barragem do Fund\u00e3o quando ela se rompeu, em 5 de novembro de 2015, matando 19 pessoas ??? um corpo nunca foi encontrado ??? e devastando a Bacia Hidrogr\u00e1fica do Rio Doce entre Mariana e a foz, no litoral do Esp\u00edrito Santo. Diante da falta de respostas da Justi\u00e7a no Brasil, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 processar no Reino Unido a BHP Billiton (BHP Reino Unido e BHP Austr\u00e1lia).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dentro do tribunal, o julgamento se mostrou mais meticuloso do que o ocorrido em primeira inst\u00e2ncia, em 2020, e que considerou que o pedido dos atingidos n\u00e3o caberia \u00e0 Justi\u00e7a do Reino Unido, sem condi\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para julgar o n\u00famero grandioso de clientes e com risco de se sobrepor a a\u00e7\u00f5es em curso no Brasil. Essa decis\u00e3o est\u00e1 sendo contestada pelos advogados do escrit\u00f3rio PGMBM.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Desta vez, participam tr\u00eas ju\u00edzes, incluindo o vice-presidente do Tribunal de Apela\u00e7\u00e3o, o que mostra a import\u00e2ncia do caso, que pode se transformar no maior do Brasil e do Reino Unido em termos de valores e n\u00famero de pessoas defendidas. Os advogados da PGMBM e da BHP Billiton concordaram inclusive em ampliar o tempo previsto para a audi\u00eancia, devido \u00e0 grande amplitude de argumentos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>E logo no primeiro dia essa dilata\u00e7\u00e3o de tempo se mostrou necess\u00e1ria. Os argumentos dos advogados dos atingidos foram sistematicamente submetidos a exames, reexames e sua validade posta em xeque em simula\u00e7\u00f5es de passos futuros e poss\u00edveis choques com as legisla\u00e7\u00f5es brasileira e do Reino Unido, em caso de progress\u00e3o da a\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com isso, o primeiro dia foi suficiente apenas para a sustenta\u00e7\u00e3o dos advogados dos atingidos do escrit\u00f3rio PGMBM. Para mostrar que h\u00e1 precedente para o pedido de julgamento de uma empresa inglesa com m\u00faltiplas v\u00edtimas, foi trazido o caso do derramamento de petr\u00f3leo ocorrido na Nig\u00e9ria, causado pela empresa anglo-holandesa Shell. Esse caso, julgado em 2017, tinha 15 mil pescadores africanos atingidos e prosseguiu, s\u00f3 n\u00e3o indo a julgamento devido ao fato de a empresa ter feito um acordo com pagamento de 55 milh\u00f5es de libras (R$ 332 milh\u00f5es).<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>NO BRASIL\u00a0<\/h2>\n<div><\/div>\n<div>Sobre a quest\u00e3o da compet\u00eancia da Justi\u00e7a inglesa e do risco de sobreposi\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00f5es brasileiras e inglesas, os advogados do PGMBM lembraram que a maior causa coletiva no Brasil ??? a A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), de R$ 155 bilh\u00f5es ???, est\u00e1 parada. Lembraram, tamb\u00e9m, que prefeituras como a de Mariana, que pode receber mais de R$ 1 bilh\u00e3o em indeniza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o participam de a\u00e7\u00f5es em curso no Brasil, como milhares de clientes, que veem apenas no processo do Reino Unido uma chance de justi\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O trio de ju\u00edzes chegou a alegar que essas pessoas e entidades poderiam entrar na Justi\u00e7a a qualquer tempo. Mas os advogados salientaram que o tribunal n\u00e3o pode trabalhar com possibilidades e que h\u00e1 rem\u00e9dios espec\u00edficos para lidar com aqueles que, nesse caso, cometerem algum abuso. A BHP Billiton informa que os casos j\u00e1 s\u00e3o tratados no Brasil e que duplicariam demandas que j\u00e1 est\u00e3o em curso, informando que mais de R$ 30 bilh\u00f5es em repara\u00e7\u00e3o e aux\u00edlios emergenciais j\u00e1 foram pagos desde 2015.<\/div>\n<div><\/div>\n<h2>Tribo diz que desastre sepultou suas tradi\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<div>As disputas da corte s\u00e3o intensas. Mas a dos ind\u00edgenas, do lado de fora, n\u00e3o s\u00e3o menos duras. O grosso agasalho umedecido pela chuva e fechado at\u00e9 o pesco\u00e7o mostrava como a manh\u00e3 chuvosa londrina castigava o vice-paj\u00e9 Tum Krenak, de 39 anos, que chegou cedo com outros quatro representantes da tribo do Rio Doce at\u00e9 a porta das cortes de Londres. A mesma vestimenta simbolizava determina\u00e7\u00e3o ao ostentar adere\u00e7os rituais de penas sobre os ombros de um dos l\u00edderes da aldeia Ator\u00e3, de Resplendor, no Vale do Rio Doce.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>&#8220;A gente est\u00e1 atr\u00e1s de justi\u00e7a. Morreu o esp\u00edrito do povo krenak. O rio, que chamamos de Watu, era onde batiz\u00e1vamos nossos meninos. Era onde faz\u00edamos os nossos rituais. Hoje, n\u00e3o podemos mais fazer nada, devido a esse crime. O rio est\u00e1 morto. Ele \u00e9 da nossa religi\u00e3o e tem alguns costumes que para a gente acabaram, como o da ca\u00e7a da capivara, a pesca, os rem\u00e9dios do rio e as nossas religi\u00f5es.&#8221;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para os krenaks, a injusti\u00e7a que consideram ter sofrido no Brasil faz com que a esperan\u00e7a desse povo repouse sobre os tribunais do Reino Unido. ???At\u00e9 hoje n\u00e3o tivemos compensa\u00e7\u00e3o. Espero que a justi\u00e7a venha em rela\u00e7\u00e3o a isso. N\u00e3o tem pre\u00e7o que pague essa devasta\u00e7\u00e3o, porque foi destruidor demais, grande demais, n\u00e3o tem jeito de recuperar mais a morte do nosso rio. Temos a nossa luta agora, porque temos a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as. Queremos ter um futuro melhor para as nossas crian\u00e7as, com educa\u00e7\u00e3o, qualidade de vida e uma esperan\u00e7a de manter nossas tradi\u00e7\u00f5es???, disse Tum Krenak.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Londres ??? 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