{"id":72709,"date":"2022-04-06T10:05:20","date_gmt":"2022-04-06T13:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/tributo-em-pauta-icms-sobre-transferencias-e-a-manutencao-do-credito\/"},"modified":"2022-09-23T12:27:13","modified_gmt":"2022-09-23T15:27:13","slug":"tributo-em-pauta-icms-sobre-transferencias-e-a-manutencao-do-credito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/06\/tributo-em-pauta-icms-sobre-transferencias-e-a-manutencao-do-credito\/","title":{"rendered":"Tributo em Pauta: ICMS sobre Transfer\u00eancias e a Manuten\u00e7\u00e3o do Cr\u00e9dito"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s sabemos que o ICMS \u00e9 um imposto que incide sobre a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias (exemplo: compra e venda). Esta circula\u00e7\u00e3o \u00e9 a jur\u00eddica, e n\u00e3o a meramente f\u00edsica, ou seja, a incid\u00eancia do imposto ocorre apenas quando h\u00e1 troca de titularidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entretanto, as legisla\u00e7\u00f5es estaduais e at\u00e9 a pr\u00f3pria Lei Complementar n\u00ba 87\/96 previam a incid\u00eancia do ICMS sobre as transfer\u00eancias entre estabelecimentos do mesmo titular (exemplo: matriz envia mercadoria para a filial).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em que pese tais previs\u00f5es legais, o entendimento dos Tribunais h\u00e1 d\u00e9cadas \u00e9 de que n\u00e3o h\u00e1 incid\u00eancia do ICMS nas opera\u00e7\u00f5es de transfer\u00eancias, conforme se percebe de v\u00e1rios precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), inclusive a S\u00famula n\u00ba 166 do STJ e o REsp 1125133\/SP, julgado na sistem\u00e1tica dos recursos repetitivos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nada obstante isso, com base nas previs\u00f5es legais vigentes e tamb\u00e9m no argumento de que a n\u00e3o incid\u00eancia do ICMS sobre as transfer\u00eancias interestaduais acarretaria perda de arrecada\u00e7\u00e3o para o Estado de origem e, supostamente, ofenderia o pacto federativo, os Estados da Federa\u00e7\u00e3o continuam a exigir o ICMS sobre as transfer\u00eancias.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Tentado solucionar a quest\u00e3o, em abril de 2021 foi julgada a A\u00e7\u00e3o Declarat\u00f3ria de Constitucionalidade (ADC) n\u00ba 49 pelo STF, que tinha sido ajuizada pelo Rio Grande do Norte para tentar validar a cobran\u00e7a do ICMS sobre transfer\u00eancias. No julgamento foi declarada a inconstitucionalidade da incid\u00eancia do ICMS nas transfer\u00eancias entre estabelecimentos da mesma empresa, confirmando o entendimento consolidado h\u00e1 d\u00e9cadas, tanto no \u00e2mbito do STF como do STJ, s\u00f3 que desta vez com efeito vinculante para todos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Agora, pensem comigo: como h\u00e1 d\u00e9cadas que se reconhece que incide ICMS sobre transfer\u00eancias de mercadorias entre estabelecimento do mesmo titular, a decis\u00e3o da ADC 49 que consolida tal entendimento n\u00e3o traz nenhuma inova\u00e7\u00e3o e deve ser aplicada de imediato, correto?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Infelizmente, como em toda vit\u00f3ria do contribuinte no STF, est\u00e1 sendo cogitada a quest\u00e3o da modula\u00e7\u00e3o temporal dos efeitos da decis\u00e3o, pois se fala em contornar as perdas de arrecada\u00e7\u00e3o dos Estados e em conceder prazo para estes adaptarem suas legisla\u00e7\u00f5es estaduais. A aprecia\u00e7\u00e3o da poss\u00edvel modula\u00e7\u00e3o temporal nesse caso ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda pelos Ministros do STF.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, juntamente com o pronunciamento definitivo do STF sobre a modula\u00e7\u00e3o temporal, os contribuintes tamb\u00e9m aguardam a aprecia\u00e7\u00e3o de uma important\u00edssima quest\u00e3o que n\u00e3o foi apreciada ainda pelo STF, que \u00e9 quest\u00e3o da exig\u00eancia ou n\u00e3o do estorno dos cr\u00e9ditos nas transfer\u00eancias.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por ser um imposto n\u00e3o cumulativo e que incide em cadeia (sucessivas opera\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria), \u00e9 garantido constitucionalmente o direito ao cr\u00e9dito do ICMS que incidiu nas etapas anteriores. Dessa forma ao comprar mercadoria para revender, o comerciante tem direito de se creditar do ICMS que incidiu sobre esta compra e abater mediante compensa\u00e7\u00e3o do ICMS que pagar\u00e1 quando realizar a revenda de mercadoria (opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria subsequente).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No entanto, a Constitui\u00e7\u00e3o excepciona o direito ao cr\u00e9dito casos de n\u00e3o incid\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim, quando houver uma opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria que n\u00e3o atraia a incid\u00eancia do ICMS, os cr\u00e9ditos dever\u00e3o ser anulados e o adquirente n\u00e3o poder\u00e1 se creditar para fins de compensa\u00e7\u00e3o do ICMS devido por ele.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente neste ponto que a situa\u00e7\u00e3o precisa ser esclarecida pelo STF. Ao reconhecer que n\u00e3o incide ICMS sobre as transfer\u00eancias de mercadorias entre estabelecimentos do mesmo titular, o STF determinou que sejam anulados tais cr\u00e9ditos?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>?? primeira vista, pode parecer que sim, pois se enquadraria na exce\u00e7\u00e3o constitucional prevista no art. 155, \u00a72\u00ba, II, &#8220;a&#8221; e &#8220;b&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, meus amigos, esta n\u00e3o nos parece a interpreta\u00e7\u00e3o mais correta.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vejam que a Constitui\u00e7\u00e3o se refere sempre a opera\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, sendo que a express\u00e3o &#8220;circula\u00e7\u00e3o&#8221; a\u00ed \u00e9 interpretada pelo STF como a circula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, que pressup\u00f5e a troca de titularidade da mercadoria. Isso porque os mencionados dispositivos constitucionais falam em anula\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito das opera\u00e7\u00f5es anteriores e perda do cr\u00e9dito para as opera\u00e7\u00f5es seguintes.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Assim, como as normas constitucionais est\u00e3o falando de uma &#8220;n\u00e3o incid\u00eancia&#8221; que ocorreu em uma opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria, n\u00e3o h\u00e1 que se cogitar de anula\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito quando nem sequer houve opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A n\u00e3o incid\u00eancia prevista na Constitui\u00e7\u00e3o que causa anula\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito \u00e9 aplic\u00e1vel somente aos casos em que h\u00e1 opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria (troca de titularidade) que n\u00e3o acarreta a incid\u00eancia de ICMS (como por exemplo: perda, extravio etc.).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Cogitar anula\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito em n\u00e3o incid\u00eancia que n\u00e3o se refira a uma opera\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o de mercadoria est\u00e1 em desacordo com o texto constitucional. Isso porque tal interpreta\u00e7\u00e3o seria o mesmo que decretar anula\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito de ICMS nos casos em que o comerciante n\u00e3o consegue vender a mercadoria.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o vender a mercadoria tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de n\u00e3o incid\u00eancia de ICMS, mas at\u00e9 ent\u00e3o ningu\u00e9m nunca cogitou anular cr\u00e9dito de ICMS se o comerciante (contribuinte do ICMS) compra uma mercadoria e n\u00e3o consegue revender, justamente porque a mercadoria continua sendo do mesmo dono.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao transferir a mercadoria de um estabelecimento para outro do mesmo titular o contribuinte apenas realiza a circula\u00e7\u00e3o f\u00edsica da mercadoria, a qual continua sendo do mesmo propriet\u00e1rio, logo, se ela continua sendo do mesmo dono n\u00e3o foi vendida.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Transferir mercadorias, portanto, est\u00e1 fora do campo de incid\u00eancia do ICMS, assim como o caso da mercadoria que fica encalhada na prateleira do mercado sem ser vendida e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 que se cogitar anula\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito do ICMS.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No STF, o primeiro voto proferido na ADC 49 que enfrentou esta quest\u00e3o foi o do Ministro Luis Roberto Barroso, em outubro de 2021, e reconheceu o direito \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos. Aguarda-se agora a manifesta\u00e7\u00e3o dos demais ministros e esperamos que a maioria conclua no mesmo sentido.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Rafael Figueiredo \u00e9 advogado tributarista, professor de direito tribut\u00e1rio, mestre em direito pela UFBA- Universidade Federal da Bahia, MBA em Gest\u00e3o Tribut\u00e1ria pela USP-Universidade de S\u00e3o Paulo, com especializa\u00e7\u00e3o em direito tribut\u00e1rio pelo IBET-Instituto Brasileiro de Estudos Tribut\u00e1rios e ex-Conselheiro do CONSEF-Conselho de Fazenda do Estado da Bahia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Todos n\u00f3s sabemos que o ICMS \u00e9 um imposto que incide sobre a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias (exemplo: compra e venda). 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