{"id":75480,"date":"2022-04-10T05:33:01","date_gmt":"2022-04-10T08:33:01","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/um-cometa-no-circo-de-horrores\/"},"modified":"2022-04-10T05:33:01","modified_gmt":"2022-04-10T08:33:01","slug":"um-cometa-no-circo-de-horrores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/10\/um-cometa-no-circo-de-horrores\/","title":{"rendered":"Um cometa no circo de horrores"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/katia_borges_logo.jpg\" alt=\"\" width=\"2205\" height=\"2010\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00f3s \u00edamos muito ao circo em um tempo de cruel ingenuidade. Os elefantes, t\u00e3o bonitos, erguiam-se enormes, disparando jatos de \u00e1gua sobre a plateia, e os le\u00f5es circulavam, sob o olhar atendo dos domadores, quase rentes \u00e0s cadeiras de ferro. Eu ficava fascinada com o Globo da Morte, onde as motocicletas giravam ferozes e em looping. Sent\u00e1vamo-nos nas primeiras fileiras e essa era uma das poucas ocasi\u00f5es em que eu via um sorriso surgir no rosto da minha m\u00e3e. Ela ria dos palha\u00e7os que simulavam atrapalha\u00e7\u00f5es no picadeiro e dos poodles que dan\u00e7avam ao som da Macarena, saltando sobre tamboretes de p\u00e9s curtos, com seus pelos coloridos artificialmente.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Eu ficava bem feliz ao ver minha m\u00e3e se divertindo, evento t\u00e3o raro quanto um eclipse ou a passagem de um cometa no c\u00e9u da minha inf\u00e2ncia, e esse era para mim o principal atrativo de uma ida ao circo. Sob a lona colorida, minha m\u00e3e ria do m\u00e1gico de fraque preto surrado que sacava um coelho branco da cartola. Minha m\u00e3e ria da mulher cortada ao meio em duas com um serrote que reaparecia ???de surpresa??? do outro lado do palco. Minha m\u00e3e ria do gorila fake que amea\u00e7ava arrebentar as grades da jaula e avan\u00e7ar sobre n\u00f3s, \u00e0quela altura j\u00e1 empapu\u00e7adas de ma\u00e7\u00e3s do amor.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Covarde por natureza desde sempre, eu fingia coragem para ela, observando com dissimulada alegria os cavalos que trotavam como se estivessem livres, ignorando o arreio apertado e o est\u00edmulo dos chicotes. A poeira subia de suas patas seladas, feito fuma\u00e7a, naqueles curtos galopes em c\u00edrculos, enchendo as dobras de nossas roupas de passear aos domingos de uma areia escura, cujos vest\u00edgios resistentes minha m\u00e3e expurgaria nos dias seguintes, com gosto, esfregando e torcendo as pe\u00e7as com seus dedos muito brancos e finos numa bacia com \u00e1gua e sab\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ap\u00f3s o espet\u00e1culo, volt\u00e1vamos para o longe de nossa casinha simples em \u00f4nibus lotados, a minha m\u00e3o pequena entre as da minha m\u00e3e, apertando com for\u00e7a e medo de perder, tagarelando em voz alta sobre os detalhes daquela experi\u00eancia, como se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos todas juntas minutos antes diante das mesmas cenas. Eu n\u00e3o alcan\u00e7ava ent\u00e3o a dimens\u00e3o do sofrimento naquele universo de pobres animais domados em cruel exposi\u00e7\u00e3o numa esp\u00e9cie de zool\u00f3gico infernal, falseando truques d\u00f3ceis para a nossa divers\u00e3o. N\u00f3s, os sonsos algozes de tudo que pulsa em toda parte, contempladores festivos e pagantes de tantos outros circos de horrores.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para mim, o circo que vinha de cidades distantes trazia consigo humores e luzes de outras civiliza\u00e7\u00f5es. E eu pensava apenas em ver de perto os animais, que da TV, esse outro tipo de jaula, saltavam para dentro dos meus sonhos como assombra\u00e7\u00f5es. Ver o le\u00e3o, o elefante, olhar os macacos, os cachorros dan\u00e7antes. Tudo era revestido de um encantamento sem reservas, uma magia inocente que se assemelha ao autoengano que se ergue sobre a racionalidade e sustenta certas paix\u00f5es inexplic\u00e1veis. Aquela sensa\u00e7\u00e3o angustiante de que estamos presos por vontade aos domadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s \u00edamos muito ao circo em um tempo de cruel ingenuidade. Os elefantes, t\u00e3o bonitos, erguiam-se enormes, disparando jatos de \u00e1gua sobre a plateia,\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":75481,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[82],"tags":[],"class_list":["post-75480","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-policia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75480\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}