{"id":75528,"date":"2022-04-10T09:36:19","date_gmt":"2022-04-10T12:36:19","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/tragedia-de-mariana-duas-historias-separadas-por-10-mil-quilometros\/"},"modified":"2022-04-10T09:36:19","modified_gmt":"2022-04-10T12:36:19","slug":"tragedia-de-mariana-duas-historias-separadas-por-10-mil-quilometros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/10\/tragedia-de-mariana-duas-historias-separadas-por-10-mil-quilometros\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia de Mariana: Duas hist\u00f3rias separadas por 10 mil quil\u00f4metros"},"content":{"rendered":"<div><b><br \/>Londres ???<\/b> Mais de 10 mil quil\u00f4metros separam dois atigidos pelo rompimento da Barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, desiludidos com a Justi\u00e7a brasileira e que depositam suas esperan\u00e7as em julgamento de a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria no Reino Unido. <\/p>\n<p>Um areieiro de Governador Valadares e um cidad\u00e3o ingl\u00eas que vivia na mesma cidade, no Vale do Rio Doce, quando ocorreu o desastre, aguardam para saber, ap\u00f3s uma semana de audi\u00eancias, se as cortes do Reino Unido permitir\u00e3o o julgamento do processo por indeniza\u00e7\u00f5es que, enfim, permita uma repara\u00e7\u00e3o justa aos antigidos. <\/p>\n<p>Eles integram o grupo de mais 200 mil atingidos que tiveram suas vidas devastadas pelo rompimento, representados pelo escrit\u00f3rio internacional PGMBM contra a empresa anglo-australiana BHP Billiton, que, ao lado da Vale, controla a mineradora Samarco, operadora do barramento.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ap\u00f3s o rompimento, em 5 de novembro de 2015, os dois se viram sem op\u00e7\u00f5es quando o Rio Doce, que era fonte de renda para suas fam\u00edlias, acabou tomado pelos rejeitos de min\u00e9rio de ferro. ???Meu futuro era a extra\u00e7\u00e3o de areia. Tinha licen\u00e7a e seria algo para a minha aposentadoria. O rejeito cobriu tudo com camadas de at\u00e9 quatro metros de altura em cima da areia???, afirma o empres\u00e1rio Edertone Jos\u00e9 da Silva, de 54 anos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O ingl\u00eas Jonathan Knowles, de 57, morou por mais de seis anos em Governador Valadares, com a mulher e o filho brasileiros, onde desenvolveu uma v\u00e1lvula para remover o ar do encanamento e permitir maior economia na conta de \u00e1gua. Com a polui\u00e7\u00e3o do rio e as suspens\u00f5es de capta\u00e7\u00f5es, o neg\u00f3cio dele foi a zero.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Conhecedor da realidade da Justi\u00e7a brasileira e a da Inglaterra, ele \u00e9 categ\u00f3rico: &#8220;No Brasil, n\u00e3o vejo chances de um atingido receber uma indeniza\u00e7\u00e3o justa. N\u00e3o recebi nada at\u00e9 hoje. N\u00e3o confio na Justi\u00e7a do Brasil. Se ficasse l\u00e1, esperando, n\u00e3o ia receber nada. <\/p>\n<p>As decis\u00f5es sempre passam de um juiz para o outro, as empresas (mineradoras) conseguem formas de n\u00e3o pagar, conseguem liminares e, no fim, quando fosse receber algo, eu j\u00e1 estaria morto&#8221;, afirma Jonathan, que vive atualmente em Yorkshire, no Norte da Inglaterra.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Edertone foi at\u00e9 a Inglaterra acompanhar o julgamento que terminou na \u00faltima sexta-feira e protestar nas ruas de Londres para tentar sensibilizar a Justi\u00e7a do Reino Unido no sentido de acatar o processo. ???Sem a areia do Rio Doce, recorri a empr\u00e9stimos, me desfiz de bens, um caminh\u00e3o e uma das duas m\u00e1quinas que tinha.??? Ele empregava 16 pessoas e agora paralisou as atividades. ???Venho tentando outros ramos, construindo e vendendo casas, mas \u00e9 muito inferior ao que era antes???, conta o areieiro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Jonathan se mudou para Governador Valadares para morar com a mulher, Sheila, e l\u00e1 ter o seu filho, Enzo. Durante o tempo em que esteve por l\u00e1, se encantou pela cidade do Leste de Minas. &#8220;Uma cidade diferente de qualquer coisa que eu j\u00e1 tinha visto antes, as pessoas, o jeito de viver. Logo gostei muito e vivi l\u00e1 por seis anos e 10 meses&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A aceita\u00e7\u00e3o pela fam\u00edlia da mulher foi natural e a vida transcorreu tranquila para Jonathan, que ainda tinha uma apraz\u00edvel vis\u00e3o do Rio Doce correndo abaixo de sua casa e a abastecendo com suas \u00e1guas. &#8220;Toda sexta-feira, a gente fazia churrasco. Os amigos e familiares nos visitavam e a gente ouvia m\u00fasicas da d\u00e9cada de 1980. A Sheila gostava muito de dan\u00e7ar e a gente desfrutava da vida. No fim de semana, visitava os pais dela. Era rotina normal&#8221;, recorda, saudoso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Hoje, Jonathan mora em um quarto alugado em uma casa e trabalha diariamente em f\u00e1brica de abastecimento de cenouras e cebolas para uma rede de supermercados. A mulher e o filho n\u00e3o puderam morar junto dele e est\u00e3o em um im\u00f3vel custeado pelo governo do Reino Unido.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\n<h3>MUDAN??A DE RUMO <\/h3>\n<p>A esperan\u00e7a dele \u00e9 obter uma indeniza\u00e7\u00e3o justa da BHP Billiton no processo do Reino Unido, mas n\u00e3o pretende mais voltar ao Brasil. &#8220;N\u00e3o tenho mais idade para come\u00e7ar tudo de novo. Quero alguma dignidade para seguir com a vida na Inglaterra mesmo. Tenho muita pena de quem ficou no Brasil. Acho que essas pessoas v\u00e3o ter problemas de sa\u00fade por causa da polui\u00e7\u00e3o do rio, da pobreza que isso gerou, muitos v\u00e3o morrer ou sofrer muito antes de receber alguma indeniza\u00e7\u00e3o no Brasil&#8221;, afirma.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para ele, a necessidade de justi\u00e7a \u00e9 clara e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre quem s\u00e3o os culpados pelo desastre. &#8220;Claro que as mineradoras s\u00e3o culpadas. Sabiam da instabilidade (da Barragem do Fund\u00e3o) e n\u00e3o fizeram nada. N\u00e3o foi acidente, as companhias tinham conhecimento. E a prova maior \u00e9 que aconteceu de novo&#8221;, afirma o ingl\u00eas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>J\u00e1 para Ederton, sua mulher e as tr\u00eas filhas, o Rio Doce nunca foi s\u00f3 uma fonte de renda. ???Moro na beira do rio. Tinha barco, lancha. Sempre me banhei no Doce e a minha fam\u00edlia tamb\u00e9m. Era gostoso demais, com p\u00e9 de manga, acerola, taioba, couve. Tinha macaquinhos, passarinhos e peixe para pescar. Vi tudo isso morrer???, lamenta. A a\u00e7\u00e3o da Inglaterra, para ele, pode ser mais r\u00e1pida. ???J\u00e1 se passaram quase 7 anos e nada de justi\u00e7a. No Brasil, o tempo fala por si s\u00f3, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que ningu\u00e9m n\u00e3o foi paciente???, disse.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<h3>Processo em fase de apela\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<div><\/div>\n<div>Iniciada em 2018, a a\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio PGMBM representa os atingidos contra a BHP Billiton e se encontra na fase de apela\u00e7\u00e3o, pois a primeira inst\u00e2ncia havia indeferido a continuidade do processo, em 2020. <\/p>\n<p>A expectativa \u00e9 de que, nas pr\u00f3ximas semanas, saia um veredito sobre a continuidade ou n\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, uma decis\u00e3o que pode ser ainda contestada pelo lado perdedor na Suprema Corte. <\/p>\n<p>???A decis\u00e3o leva algum tempo para ser conhecida, porque os tr\u00eas ju\u00edzes precisam fundamentar todos os pontos que levaram \u00e0 sua decis\u00e3o???, explica um dos s\u00f3cios do escrit\u00f3rio, o advogado Tom\u00e1s Mousinho.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>???Estamos confiantes de que vamos reverter a decis\u00e3o anterior, que havia negado a jurisdi\u00e7\u00e3o inglesa, e agora o caso deve seguir para a fase de m\u00e9rito. Nesses cinco dias de audi\u00eancia conseguimos responder a todas as perguntas dos ju\u00edzes do Tribunal de Apela\u00e7\u00e3o ingl\u00eas. Argumentamos que a decis\u00e3o anterior havia sido equivocada e explicamos por que as cortes inglesas devem, sim, aceitar a jurisdi\u00e7\u00e3o e permitir que o caso prossiga???, disse Pedro Martins, advogado s\u00f3cio do PGMBM.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A BHP Brasil informou estar comprometida em apoiar os esfor\u00e7os de remedia\u00e7\u00e3o em andamento no Brasil. ???Os sistemas de repara\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o administrados pela Funda\u00e7\u00e3o Renova e supervisionados pela Justi\u00e7a brasileira s\u00e3o os meios adequados para indiv\u00edduos e comunidades apresentarem suas reivindica\u00e7\u00f5es e obter repara\u00e7\u00e3o. Para 2022, a Renova anunciou um novo or\u00e7amento, de R$ 10,4 bilh\u00f5es ??? um aumento de mais de 20% em rela\u00e7\u00e3o a 2021. No final deste ano, aproximadamente R$ 30 bilh\u00f5es ter\u00e3o sido desembolsados em repara\u00e7\u00f5es e compensa\u00e7\u00f5es para os impactados pelo rompimento da barragem???, informou a empresa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>???A posi\u00e7\u00e3o da BHP tem sido e continua sendo de que o processo movido n\u00e3o deve prosseguir no Reino Unido, pois duplica quest\u00f5es que j\u00e1 s\u00e3o cobertas pelos trabalhos de repara\u00e7\u00e3o em andamento, por decis\u00f5es judiciais dos tribunais brasileiros ou s\u00e3o objeto de processos judiciais em curso no Brasil. Em novembro de 2020, a High Court inglesa concordou com os argumentos e extinguiu o caso por abuso processual???.\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Londres ??? 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