{"id":75582,"date":"2022-04-10T11:40:14","date_gmt":"2022-04-10T14:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/alimentacao-faz-brasileiros-se-endividarem-no-cartao-de-credito\/"},"modified":"2022-04-10T11:40:14","modified_gmt":"2022-04-10T14:40:14","slug":"alimentacao-faz-brasileiros-se-endividarem-no-cartao-de-credito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/10\/alimentacao-faz-brasileiros-se-endividarem-no-cartao-de-credito\/","title":{"rendered":"Alimenta\u00e7\u00e3o faz brasileiros se endividarem no cart\u00e3o de cr\u00e9dito"},"content":{"rendered":"<p>Os mais recentes n\u00fameros econ\u00f4micos indicam que a  infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai dar tr\u00e9gua. Em mar\u00e7o, o \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao  Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 1,62%, o maior patamar para o m\u00eas desde  1994, antes do lan\u00e7amento do Plano Real. Em 12 meses, o IPCA acumula um  avan\u00e7o de 11,3%, segundo dados divulgados, na sexta-feira, pelo  Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). <\/p>\n<p>Essa disparada  da infla\u00e7\u00e3o, puxada por alimentos e transportes, leva o brasileiro a  recorrer ainda mais ao cart\u00e3o de cr\u00e9dito na compra de itens de  necessidades b\u00e1sicas, como alimentos e supermercados.<\/p>\n<p>A \u00faltima Pesquisa de Endividamento e Inadimpl\u00eancia do  Consumidor (Peic), divulgada em 31 de mar\u00e7o pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional  do Com\u00e9rcio de Bens, Servi\u00e7os e Turismo (CNC), revelou que 77,5% das fam\u00edlias brasileiras est\u00e3o endividadas. <\/p>\n<p>O cart\u00e3o de cr\u00e9dito \u00e9 o maior motivo: 87% das pessoas est\u00e3o em d\u00e9bito nessa modalidade.<\/p>\n<p>Nos lares com renda abaixo de 10 sal\u00e1rios  m\u00ednimos, a porcentagem de devedores \u00e9 de 78,5%, j\u00e1 nos que recebem acima  de 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 73,7%. Ambas as taxas tiveram alta em vista do  registrado em fevereiro. Segundo dados do Serasa, o valor m\u00e9dio da  d\u00edvida de cada brasileiro est\u00e1 em R$ 4.042,08, e nove em cada 10  acreditam que estar endividado \u00e9 motivo de vergonha. O n\u00famero de  inadimplentes passa dos 65 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A pesquisa da empresa revelou ainda que 69% das compras feitas no cart\u00e3o de cr\u00e9dito s\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas,  como alimentos e supermercados; 42% s\u00e3o realizadas para aquisi\u00e7\u00e3o de  roupas e eletrodom\u00e9sticos, ao passo que 41%, para rem\u00e9dios e tratamentos  m\u00e9dicos. Al\u00e9m disso, foi constatado que 85% das pessoas em d\u00e9bito t\u00eam o  sono prejudicado por causa das d\u00edvidas, e 76% passaram a ter  dificuldade para se concentrar no trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Na maior parte dos casos, as d\u00edvidas feitas no cart\u00e3o  de cr\u00e9dito, pelo menos no caso de pessoas f\u00edsicas, s\u00e3o as piores. Quando  o juro que voc\u00ea paga \u00e9 maior do que o benef\u00edcio que voc\u00ea recebe, \u00e9 uma  d\u00edvida ruim, voc\u00ea est\u00e1 tendo mais malef\u00edcios do que benef\u00edcios&#8221;, detalha  Roberto Lu\u00eds Troster, ex-economista-chefe da Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de  Bancos (Febraban).<\/p>\n<p>Segundo o economista da Troster Associados, o fato de  as pessoas estarem endividadas n\u00e3o \u00e9 ruim para os bancos, j\u00e1 que essas  institui\u00e7\u00f5es vivem de intermedi\u00e1rios. &#8220;No Brasil, quase metade dos  juros, ou dependendo do caso, at\u00e9 mais, vai de imposto para o governo.  Isso \u00e9 ruim para todo mundo, porque voc\u00ea desperdi\u00e7a riqueza.&#8221;<\/p>\n<p>Merian Santos, 37 anos, entrou na estat\u00edstica ao passar  por maus bocados por causa do cart\u00e3o de cr\u00e9dito. A cozinheira conta que  teve ins\u00f4nia por causa da preocupa\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu peguei o cart\u00e3o para comprar  algumas coisas materiais para minha casa, comida, coisa para o meu  filho. Foi indo, eu pagando s\u00f3 aquele valor m\u00ednimo, quando eu fui ver,  j\u00e1 estava alt\u00edssimo&#8221;, diz. A descoberta de que estava devendo s\u00f3 foi  feita quando ela tentou fazer outro cart\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela relembra as dificuldades enfrentadas at\u00e9 quitar o  valor, e tamb\u00e9m da ajuda recebida do chefe para renegociar a d\u00edvida: &#8220;Eu  fui com ele (chefe) l\u00e1 para ver a quest\u00e3o, e foi assim que eu consegui  pagar (a d\u00edvida) aos poucos. Foi dif\u00edcil&#8221;.<\/p>\n<p>O consultor e planejador financeiro pessoal Rog\u00e9rio  Oleg\u00e1rio afirma ser importante entender que o cart\u00e3o de cr\u00e9dito n\u00e3o \u00e9 um  item de despesa, mas um meio de pagamento. A partir da\u00ed, \u00e9 preciso  avaliar at\u00e9 que ponto cada um consegue lidar com a fatura.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu coloco o meu limite de gastos como um teto, eu  n\u00e3o vou gastar mais do que eu recebo. Mas, se eu coloco o meu limite  mais a minha receita, a\u00ed eu me autorizo a gastar mais do que eu recebo.  Com isso, gera um ac\u00famulo, uma &#8216;bola de neve&#8217;, e chega uma hora em que  n\u00e3o consigo pagar.&#8221;<\/p>\n<p>O especialista ressalta tamb\u00e9m que n\u00e3o se deve usar a  ferramenta de compra de maneira &#8220;infantil&#8221;. &#8220;Dou um exemplo: fui a uma  loja outro dia e estava l\u00e1 uma m\u00e3e fazendo compras com o filho. A\u00ed, o  filho pediu uma coisa e ela falou: &#8216;Filho, n\u00e3o vai dar. Acabou o  dinheiro&#8217;. O garotinho falou: &#8216;Ent\u00e3o, me d\u00ea o cart\u00e3o&#8217;. Esse \u00e9 o modo de  usar o cart\u00e3o de cr\u00e9dito de forma infantil&#8221;, explica.<\/p>\n<h3>Conjuntura<\/h3>\n<p>Na vis\u00e3o do economista e pesquisador da Universidade  Estadual de Campinas (Unicamp) Felipe Queiroz, o cen\u00e1rio das d\u00edvidas na  rotina do cidad\u00e3o brasileiro vem, em grande parte, como resultado do  quadro econ\u00f4mico do pa\u00eds. <\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma vertente de senso comum que tenta  atribuir o alto endividamento das fam\u00edlias, sobretudo daquelas de menor  renda, a uma falta de planejamento, \u00e0 falta de controle dos impulsos por  consumir. Por\u00e9m, por tr\u00e1s dessa justificativa, h\u00e1 uma vis\u00e3o distorcida  que amplia o estigma sobre as fam\u00edlias de menor renda e que enfrentam o  desemprego ??? ou quando t\u00eam um trabalho, \u00e9 precarizado e recebe aqu\u00e9m do  necess\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>No ano de 2022, o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 de R$ 1.212. Em  contraste, a pesquisa mais recente do Departamento Intersindical de  Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) aponta que o sal\u00e1rio  m\u00ednimo ideal para suprir as necessidades de uma fam\u00edlia de quatro  pessoas ??? considerando gastos com moradia, transporte, alimenta\u00e7\u00e3o,  sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, higiene, lazer e previd\u00eancia ??? seria R$  6.394,76.<\/p>\n<p>&#8220;Isso significa que as fam\u00edlias que recebem menos que  isso t\u00eam dificuldade para manter uma renda b\u00e1sica. Atribuir isso a um  ato perdul\u00e1rio dessas fam\u00edlias, al\u00e9m de hipocrisia, \u00e9 uma forma muito  conveniente de terceirizar a culpa. Tira a culpa de um Estado que  deveria adotar medidas macroecon\u00f4micas para gerar emprego, gerar melhor  distribui\u00e7\u00e3o de renda, melhor qualidade de vida, e joga toda a culpa nas  fam\u00edlias&#8221;, finaliza Felipe Queiroz.<\/p>\n<p><b>* Estagi\u00e1rios sob a supervis\u00e3o de Andreia Castro<\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os mais recentes n\u00fameros econ\u00f4micos indicam que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai dar tr\u00e9gua. 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