{"id":75822,"date":"2022-04-11T05:33:17","date_gmt":"2022-04-11T08:33:17","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/04\/o-jazz-de-ontem-a-brutalidade-de-hoje\/"},"modified":"2022-04-11T05:33:17","modified_gmt":"2022-04-11T08:33:17","slug":"o-jazz-de-ontem-a-brutalidade-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/04\/11\/o-jazz-de-ontem-a-brutalidade-de-hoje\/","title":{"rendered":"O jazz de ontem, a brutalidade de hoje"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\"> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/Fotos_perfil\/paulo_sales.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"650\"\/><\/p>\n<p class=\"bodytext\">Escuto agora A Night at Birdland, \u00e1lbum do quinteto liderado pelo baterista Art Blakey e um dos mais poderosos registros ao vivo dessa arte \u00fanica chamada jazz. Entre tantos m\u00fasicos excepcionais ??? Lou Donaldson, Horace Silver e o pr\u00f3prio Blakey ??? figura acima de todos o nome de Clifford Brown. Um jovem deus negro cuja onipot\u00eancia se dava atrav\u00e9s do trompete. Na minha modest\u00edssima opini\u00e3o, Brown \u00e9 o maior de todos, aquele que deu forma definitiva \u00e0 arte de tocar o instrumento.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Poucos m\u00fasicos de jazz me emocionam tanto quanto Clifford (h\u00e1 outros: Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk, Lester Young, Lee Morgan, Oscar Peterson). E o que mais me comove, quando ou\u00e7o seu fraseado c\u00e1lido, vertiginoso e muitas vezes impregnado de lirismo, \u00e9 o fato de sempre lembrar do quanto sua vida foi breve. Brev\u00edssima. Clifford Brown morreu aos 25 anos num acidente de autom\u00f3vel. Sim, aos 25 anos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nenhum outro trompetista tocou do mesmo jeito, formulando frases cont\u00ednuas sem parar para respirar, como se despejasse uma torrente ininterrupta de ternura. Ou\u00e7am sua interpreta\u00e7\u00e3o do tema Once in a While e comprovem o que tento expressar. Dizem que ele era um sujeito generoso e boa-pra\u00e7a, o que n\u00e3o duvido. Seu jeito de tocar era t\u00edpico de quem estava de bem com a vida. Pena que a vida n\u00e3o estava de bem com ele.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto o disco avan\u00e7a, fico imaginando o quanto Clifford ficaria surpreso ao saber que em 2022, 66 anos ap\u00f3s sua morte, um homem no Brasil estaria se comovendo com a nobreza e a sofistica\u00e7\u00e3o da sua m\u00fasica. Isso porque Brown ??? negro, discriminado numa terra racista e dotado de poucos recursos financeiros ??? morreu sem ter plena consci\u00eancia da sua avassaladora import\u00e2ncia para o curso do jazz, embora j\u00e1 fosse reconhecido em vida como um dos maiores.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Uma coisa da qual Clifford Brown certamente n\u00e3o se surpreenderia \u00e9 o fato de que, no mesmo Brasil, jovens negros como ele continuam sendo v\u00edtimas de racismo como no seu tempo. E pior: continuam sendo mortos por quem, em tese, deveria proteg\u00ea-los. Embora Clifford n\u00e3o tenha sido morto por um policial, \u00e9 bem prov\u00e1vel que tenha sido achacado e agredido por um deles. Se Miles, no auge da fama, foi surrado por um guarda branco de cassetete, por que Clifford n\u00e3o seria?<\/p>\n<p class=\"bodytext\">As sociedades evoluem, \u00e9 claro. A escravid\u00e3o, outrora normalizada, \u00e9 hoje deplorada. Mas pelas bandas de c\u00e1 parece que n\u00e3o \u00e9 bem assim que funciona. Pessoas de pele preta s\u00e3o alvos quase di\u00e1rios nas m\u00e3os de policiais muitas vezes brutalizados, corruptos e despreparados, que contam com a certeza da impunidade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Cau\u00e3 da Silva Santos n\u00e3o era um trompetista genial como Clifford Brown. Segundo a fam\u00edlia, era um bom lutador de jiu-jitsu e integrava um projeto social. Um garoto cheio de aspira\u00e7\u00f5es, como nossos filhos. Na semana passada, Cau\u00e3 foi baleado no peito por um policial em Cordovil, Zona Norte do Rio. Tinha 17 anos. Depois do tiro, os agentes ainda jogaram o corpo do rapaz em um val\u00e3o, de onde foi retirado pela popula\u00e7\u00e3o. Testemunhas relatam que n\u00e3o houve qualquer confronto ou algo do tipo no momento em que ele foi morto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Cau\u00e3 foi executado \u00e0 queima-roupa. N\u00e3o \u00e9 o primeiro e nem ser\u00e1 o \u00faltimo. Segundo um estudo do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, o Rio Janeiro tem a pol\u00edcia que mais mata no Brasil. Apenas em 2020, foram 1.245 mortes durante opera\u00e7\u00f5es policiais. N\u00e3o precisa ser um adivinho para saber a cor da pele da maci\u00e7a maioria das v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Essa carnificina rotineira \u00e9 algo muito maior e mais aterrador do que simplesmente pol\u00edtica p\u00fablica. Estamos diante de um vespeiro que nenhum governante parece capaz de cutucar ??? alguns at\u00e9 preferem se associar a ele. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds terr\u00edvel para quem, na pr\u00e1tica, n\u00e3o tem direitos\u00a0respeitados, caso da gente muito pobre e muito preta que habita as comunidades aviltadas pela viol\u00eancia policial. Afinal, como disse Caetano, pobres s\u00e3o como podres e todos sabem como se tratam os pretos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Algu\u00e9m poderia indagar: mas essa cr\u00f4nica \u00e9 sobre jazz ou sobre viol\u00eancia? O que o jazz de ontem tem a ver com a brutalidade de hoje? Eu diria que quase tudo. Porque n\u00e3o devemos esquecer que o maior g\u00eanero musical surgido no s\u00e9culo 20 nasceu em guetos negros, onde era tocado basicamente por gente muito preta e muito pobre, como uma forma de express\u00e3o e desabafo. Jovens talentosos e irrequietos como Clifford Brown, que viam na m\u00fasica uma sa\u00edda, uma v\u00e1lvula de escape, um passaporte para algo que se assemelhasse a um projeto de futuro. Como o jiu-jitsu devia ser para Cau\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escuto agora A Night at Birdland, \u00e1lbum do quinteto liderado pelo baterista Art Blakey e um dos mais poderosos registros ao vivo dessa arte\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":75877,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-75822","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75822\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}