{"id":83971,"date":"2022-05-01T05:03:22","date_gmt":"2022-05-01T08:03:22","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/aquele-primeiro-de-maio\/"},"modified":"2022-05-01T05:03:22","modified_gmt":"2022-05-01T08:03:22","slug":"aquele-primeiro-de-maio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/01\/aquele-primeiro-de-maio\/","title":{"rendered":"Aquele Primeiro de Maio"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Hospital Maggiore em Bolonha, doutora Maria Teresa Fiandri, curva Tamburello. Nomes que s\u00e3o capazes de despertar das profundezas da mem\u00f3ria quando nos vem a lembran\u00e7a daquele dia primeiro de maio de 1994, que caiu num domingo como o desse ano.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A vida de Ayrton Senna est\u00e1 destinada a ser contada a partir do fim, de tr\u00e1s pra frente, tamanho o impacto daquele inesperado \u00faltimo cap\u00edtulo. Mas at\u00e9 o in\u00edcio da manh\u00e3 daquele dia, a possibilidade de Senna morrer simplesmente n\u00e3o existia na cabe\u00e7a de ningu\u00e9m. Era um acontecimento que residia no impens\u00e1vel, no absoluto imposs\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para crian\u00e7as e adultos que se dedicavam igualmente a acompanhar a F\u00f3rmula 1, a trag\u00e9dia que aconteceu naquela manh\u00e3 de domingo deixou uma marca que dividiu a vida em antes e depois. Um chocante e eletrizante momento hist\u00f3rico que dizia respeito a todos, resultando na maior como\u00e7\u00e3o popular que j\u00e1 vimos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Nove anos e dez dias antes do acidente fatal de Ayrton Senna em \u00cdmola, o Brasil tamb\u00e9m viveu um dia de como\u00e7\u00e3o nacional, com a morte de Tancredo Neves. Mas naquele mesmo 21 de abril de 1985, debaixo de chuva torrencial no circuito do Estoril, em Portugal, Senna conquistou sua primeira vit\u00f3ria na F\u00f3rmula 1. Era um aceno de alegria em meio a um dia triste. Foi o in\u00edcio de uma nova era no mesmo dia em que outra terminava.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na qualifica\u00e7\u00e3o para o GP de Detroit, em 1986, Senna voou baixo para cravar a pole \u00e0 bordo de sua Lotus com motor turbo franc\u00eas da Renault. Quando voltou para os boxes, um mec\u00e2nico segurava uma placa escrito ???Brasil 1&#215;0 Fran\u00e7a???. Senna saltou do carro e foi correndo acompanhar o resto do jogo das quartas de final da Copa do Mundo, uma das mais dram\u00e1ticas partidas jogadas pela Sele\u00e7\u00e3o em todos os tempos, que terminou com uma dolorosa elimina\u00e7\u00e3o nos p\u00eanaltis. Acabava ali a Era Tel\u00ea e a gera\u00e7\u00e3o de Zico, S\u00f3crates, Falc\u00e3o e Junior.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No dia seguinte, n\u00e3o se sabe se o torcedor brasileiro tinha a inten\u00e7\u00e3o de entregar a bandeirinha a Senna, mas ele aproveitou que o piloto desacelarava, ap\u00f3s vencer a prova, para correr acompanhando-o, do lado de fora da pista, com uma bandeira brasileira. Senna percebeu, parou a Lotus preta e pediu para o torcedor entrar na pista. Um fiscal se colocou entre os dois, pegou a bandeirinha e entregou a Senna, que ficou esperando o torcedor chegar perto para eles se cumprimentarem, o que fizeram atrapalhadamente.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Senna ent\u00e3o acelerou segurando a bandeirinha na m\u00e3o, inaugurando uma imagem que passou a ser sua marca registrada, uma das mais bonitas celebra\u00e7\u00f5es de alegria e felicidade que j\u00e1 se viu com a bandeira do Brasil tremulando. Mais uma vez, o brilho de uma vit\u00f3ria de Senna se acendia logo ap\u00f3s outra coisa se apagar.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A parceria entre Senna e a Williams foi saudada como imbat\u00edvel, mas acabou sendo tr\u00e1gica. O olhar de Senna nos boxes, apoiado no aerof\u00f3lio do carro, estava mais perdido do que concentrado. Sua fei\u00e7\u00e3o ao vestir a balaclava, na pole do grid de largada, era de pesar. Seu sil\u00eancio no r\u00e1dio da equipe, durante as voltas com o safety car na pista, pouco antes do desfecho, era o de quem estava em outra dimens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Naquele primeiro de maio fat\u00eddico, as coisas se alinharam contra ele num encadeamento t\u00e3o improv\u00e1vel que pareceu a m\u00e3o do destino conduzindo-o inexoravelmente para imolar-se na perigosa curva Tamburello.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">???Senna morreu???, gritou algu\u00e9m da janela de um pr\u00e9dio. A confirma\u00e7\u00e3o da morte cerebral acabava com as esperan\u00e7as. ???Senna n\u00e3o morreu???, rebateu outra pessoa, em outra janela. Apesar do estado irrevers\u00edvel, o cora\u00e7\u00e3o do tricampe\u00e3o ainda teimava em bater.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O jornal que chegou pela manh\u00e3 falava em vit\u00f3ria e recome\u00e7o para Senna. A televis\u00e3o \u00e0 noite mostrava a sua morte. As duas coisas podiam ser vistas lado a lado, frente a frente, ao mesmo tempo. Aquele primeiro de maio n\u00e3o cabia num dia s\u00f3.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Dois meses e meio ap\u00f3s a morte de Senna, a Sele\u00e7\u00e3o foi tetracampe\u00e3 da Copa do Mundo. Os jogadores, que estiveram com o piloto poucos dias antes de sua morte, num jogo em Paris, abriram uma faixa no gramado em sua homenagem. Dessa vez, um brilho se acendeu no lugar do dele.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Naquele dia em que coisas que n\u00e3o existem aconteceram, duas d\u00e9cadas ininterruptas de vit\u00f3rias brasileiras na F\u00f3rmula 1 foram encerradas da forma mais abrupta poss\u00edvel. Nos anos seguintes, as corridas tiveram novas e emocionantes hist\u00f3rias, com outros personagens, mas elas pareciam vazias porque n\u00e3o faziam mais sentido algum para quem ainda, por reflexo, procurasse um piloto de capacete amarelo na pista.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Naquele primeiro de maio em \u00cdmola e, principalmente, na tev\u00ea da casa das pessoas, que era onde realmente aconteciam todas as corridas, uma sensa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se perder. Acompanhar, se emocionar e se importar com tudo aquilo foi, por muitos anos, uma forma de ser e de sentir-se brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hospital Maggiore em Bolonha, doutora Maria Teresa Fiandri, curva Tamburello. 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