{"id":86973,"date":"2022-05-02T06:03:14","date_gmt":"2022-05-02T09:03:14","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/os-herois-da-minha-aurora\/"},"modified":"2022-05-02T06:03:14","modified_gmt":"2022-05-02T09:03:14","slug":"os-herois-da-minha-aurora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/02\/os-herois-da-minha-aurora\/","title":{"rendered":"Os her\u00f3is da minha aurora"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">Outro dia, Lee Majors completou 83 anos. Mas quem ainda se lembra de Lee Majors? Na aurora da minha gera\u00e7\u00e3o ele encarnava o arqu\u00e9tipo do her\u00f3i, protagonizando a s\u00e9rie O Homem de Seis Milh\u00f5es de D\u00f3lares. Todas as tardes ??? ou noites, n\u00e3o lembro mais ??? assist\u00edamos \u00e0s perip\u00e9cias do homem bi\u00f4nico (termo hoje totalmente fora de moda, mas o suprassumo da tecnologia naquela \u00e9poca, meados dos anos 70).<\/p>\n<p class=\"bodytext\">V\u00edtima de um grave acidente a\u00e9reo, o astronauta Steve Austin, vivido por Majors, teve parte do corpo reconstitu\u00edda: as duas pernas, um bra\u00e7o e um olho passaram a ser mec\u00e2nicos. Com isso, ele corria com extrema rapidez e saltava enormes dist\u00e2ncias, al\u00e9m de ter um tremendo soco e vis\u00e3o telesc\u00f3pica. Seus saltos em c\u00e2mera lenta, que vinham acompanhados de um som caracter\u00edstico, eram um atrativo \u00e0 parte, que tent\u00e1vamos reproduzir inutilmente na escola com nossos congas e kichutes estropiados.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Revi agora no YouTube a abertura da s\u00e9rie e me transportei para o passado. Incr\u00edvel como aquilo ficou gravado no disco r\u00edgido do meu c\u00e9rebro. Era um tempo ??? impens\u00e1vel para as crian\u00e7as de hoje ??? em que s\u00f3 havia dois canais de tev\u00ea dispon\u00edveis em Salvador: Globo e Tupi. Al\u00e9m das novelas globais, consum\u00edamos enorme quantidade de lixo pop e ador\u00e1vamos tudo aquilo, pouco importando se eram ???enlatados americanos???.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Viagem ao Fundo do Mar, Terra de Gigantes, O Elo Perdido, As Panteras (com a antiga senhora Majors, Farrah Fawcett), Dallas, A Feiticeira, Agente 86, Mulher-Maravilha, Lessie, O Incr\u00edvel Hulk (com um David Banner fracote e trist\u00edssimo), Tarzan (outra s\u00e9rie de abertura memor\u00e1vel, com aquela cacofonia selvagem), Flipper e tantas outras. Havia nessas s\u00e9ries um ideal de aventura e coragem, com a tecnologia come\u00e7ando a dar as caras, que fazia a cabe\u00e7a de crian\u00e7as introspectivas como eu fui.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era como a descoberta de um universo paralelo, longe da mesmice e das limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, que bem ou mal produzia uma nova perspectiva, ampliava a nossa forma\u00e7\u00e3o e incutia em n\u00f3s a necessidade de conhecer melhor o mundo em que viv\u00edamos. Para al\u00e9m da escola e da casa, dos colegas e da fam\u00edlia. Para al\u00e9m da bola na praia, das brincadeiras com bonequinhos de pl\u00e1stico, das tardes lendo revistinhas em quadrinhos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">??s vezes me pego tomado por uma melancolia passageira por saber que n\u00e3o h\u00e1 mais volta, apenas um ir cont\u00ednuo para bem distante do que se foi um dia. Mas a mem\u00f3ria afetiva serve para isso mesmo: para que n\u00e3o nos esque\u00e7amos de quem fomos e de onde viemos. Para que o garoto que assistia \u00e0quelas s\u00e9ries n\u00e3o se perca no emaranhado de refer\u00eancias em que nos transformamos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Vejo a mim mesmo naquele tempo: t\u00edmido, gordinho, com um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o que me acompanharia at\u00e9 a vida adulta. Um anti-her\u00f3i, sem os atributos f\u00edsicos e morais que se espera de um protagonista da pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Afinal, ao contr\u00e1rio do homem de seis milh\u00f5es de d\u00f3lares, eu n\u00e3o tinha superpoderes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel como o personagem de um filme do qual gostava muito, chamado Perdido no Deserto. Passava sempre nas sess\u00f5es da tarde do meu alvorecer particular: um garoto sobrevivia a um acidente a\u00e9reo e vagava sem rumo com seu cachorrinho por dunas sem fim, enfrentando a sede, o calor e a mordida de um escorpi\u00e3o. Ao final, era salvo pelo pai.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">N\u00e3o sinto falta da inf\u00e2ncia, nem mesmo da adolesc\u00eancia, apesar dos bons momentos em fam\u00edlia e com amigos. Talvez porque caminhasse no escuro, tateando em busca de uma luz para meus<\/p>\n<p class=\"bodytext\">questionamentos pueris e meus sentimentos difusos e intensos demais para uma crian\u00e7a daquela idade. Aos poucos, fui encontrando um caminho. Tortuoso, trai\u00e7oeiro, mas mesmo assim um caminho. Foi assim que cheguei at\u00e9 aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outro dia, Lee Majors completou 83 anos. Mas quem ainda se lembra de Lee Majors? 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