{"id":87276,"date":"2022-05-02T08:03:23","date_gmt":"2022-05-02T11:03:23","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/atriz-baiana-jessica-barbosa-busca-pelas-origens-da-familia\/"},"modified":"2022-05-02T08:03:23","modified_gmt":"2022-05-02T11:03:23","slug":"atriz-baiana-jessica-barbosa-busca-pelas-origens-da-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/02\/atriz-baiana-jessica-barbosa-busca-pelas-origens-da-familia\/","title":{"rendered":"Atriz baiana J\u00e9ssica Barbosa busca pelas origens da fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p class=\"bodytext\">\n<p class=\"bodytext\">J\u00e9ssica Barbosa n\u00e3o \u00e9 do tipo que deixa as coisas pra depois. O neg\u00f3cio dela \u00e9 agir. Dan\u00e7ar, mesmo que seja sob os escombros, e fazer com que hist\u00f3rias individuais consigam se ampliar a ponto de atingir o coletivo propondo reflex\u00e3o. Revelada ao p\u00fablico nacional atuando no filme Besouro (Jo\u00e3o Daniel Tikhomiroff\/2009), a baiana de Feira de Santana lan\u00e7ou ontem sua primeira pe\u00e7a. A trama de \u00a0Em Busca de Judith \u00e9 fruto de uma hist\u00f3ria de vida pessoal, dolorida, que J\u00e9ssica correu atr\u00e1s de conhecer ap\u00f3s o parto de seu primeiro filho e que, agora, \u00e9 uma ferramenta na luta antimanicomial brasileira.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O espet\u00e1culo quer responder a uma pergunta: afinal, o que \u00e9 a loucura? Para tentar responder, a atriz-dan\u00e7arina lan\u00e7a o \u00a0olhar para suas origens negras. A montagem est\u00e1 sendo apresentada em vers\u00e3o online dentro do Palco Virtual Ancestralidades no Youtube do Ita\u00fa Cultural e \u00a0presencial na sede do instituto, em S\u00e3o Paulo, a partir desta quinta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">At\u00e9 os 32 anos, J\u00e9ssica sempre acreditou que a av\u00f3 paterna, Judith Alves Macedo, havia morrido em acidente de carro na regi\u00e3o de Jacobina, de onde vem a fam\u00edlia paterna. ???Tive meu filho em parto domiciliar: minha m\u00e3e veio pra c\u00e1, estava ao lado do pai de meu filho na beira de minha cama. Naquele momento, morrendo de dor, eu pensei ???meu Deus, pra que que eu inventei isso aqui?!??? e achei que n\u00e3o ia conseguir. Tive uma vis\u00e3o de uma roda de mulheres com m\u00e3es, av\u00f3s, mulheres que eu n\u00e3o conhecia. Coisa da &#8216;partol\u00e2ndia&#8217;, com o horm\u00f4nio batendo na cabe\u00e7a, e essas mulheres falando na minha cabe\u00e7a ???a gente conseguiu, voc\u00ea tamb\u00e9m vai conseguir parir essa crian\u00e7a??????, lembra a atriz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Foi percebendo a for\u00e7a que as mulheres t\u00eam na ancestralidade do mundo que ela se tocou que n\u00e3o sabia nada de sua av\u00f3 paterna. Mal lembrava o nome dela e isso virou inquieta\u00e7\u00e3o: ???A gente precisa conhecer a nossa hist\u00f3ria individual e coletiva. Eu preciso contar a meu filho quem foi a minha m\u00e3e, quem foi a minha av\u00f3, quem \u00e9 a bisav\u00f3 dele???, diz.\u00a0Meses mais tarde, a m\u00e3e dela voltou ao Rio de Janeiro, onde J\u00e9ssica mora, com um livro de fotografias feito por um historiador de Jacobina, onde est\u00e1 a \u00fanica foto de sua av\u00f3 em vida. E a\u00ed a hist\u00f3ria do acidente teve uma reviravolta.<br \/> \u00a0<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"627\" src=\"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/localimages\/FotoFernandoDiasEmBusca_de_Judith.jpg626fba7d29022.jpg\" width=\"940\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\">(Foto: Fernando Dias\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Intena\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria<\/strong><br \/> Na realidade, Judith, mulher negra, m\u00e3e de cinco filhos, foi internada compulsoriamente por seu marido num hospital psiqui\u00e1trico, onde ficou at\u00e9 morrer, em 1958. ???Depois que pariu o quinto filho, minha av\u00f3, que tinha mais ou menos 28 anos, teve um surto ao ver meu av\u00f4 com outra mulher. E ele abandonou ela no Juliano Moreira, de Salvador, at\u00e9 ela morrer, com 42 anos. Ela teve a hist\u00f3ria silenciada at\u00e9 minha gera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mim, que fui buscar a hist\u00f3ria dela???, conta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando J\u00e9ssica descobriu isso, sentiu que era sua miss\u00e3o descortinar essa hist\u00f3ria. Afinal, era injusto mais uma jovem mulher preta, m\u00e3e de cinco filhos, ter sua voz silenciada de uma maneira t\u00e3o brutal. ???Meu av\u00f4 nunca se casou com ela no papel. Na verdade, ele a traiu e se casou com uma mulher branca. Desconfiamos que ela enfrentou uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto, mas n\u00e3o havia esse diagn\u00f3stico nos anos 40???, comenta J\u00e9ssica. \u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Essa descoberta, permeada pelo silenciamento das vozes femininas e das quest\u00f5es que atravessam o sistema manicomial, se transformou na mat\u00e9ria-prima do espet\u00e1culo Em Busca de Judith. Nele, al\u00e9m de encenar, J\u00e9ssica Barbosa divide a idealiza\u00e7\u00e3o e a dramaturgia com Pedro S\u00e1 Moraes, que assina ainda a dire\u00e7\u00e3o musical da pe\u00e7a, que tem trilha interpretada ao vivo por Alysson Bruno (percuss\u00e3o e voz) e Muato (voz, baixo, guitarra e viol\u00e3o).\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O desenvolvimento da pe\u00e7a come\u00e7ou em 2018, quando J\u00e9ssica e Pedro ingressaram na resid\u00eancia art\u00edstica do Museu Bispo do Ros\u00e1rio. A dupla pesquisou o universo da sa\u00fade mental, a hist\u00f3ria de Judith e sua interface com a arte durante tr\u00eas anos. \u00a0Nesse per\u00edodo, trocaram experi\u00eancias com os artistas residentes do Ateli\u00ea Gaia, al\u00e9m de acessar v\u00e1rias pesquisas e contar com apoio da curadora pedag\u00f3gica do Museu Bispo do Ros\u00e1rio, Diana Kolker. \u00a0???Para n\u00f3s, pessoas pretas, nossa hist\u00f3ria pessoal tem muitas lacunas e \u00e9 muito dif\u00edcil de compor. Muitas pessoas pretas n\u00e3o conhecem as hist\u00f3rias de seu av\u00f4, sua av\u00f3, nunca viram uma foto, t\u00eam hist\u00f3rias de um passado colonial e opressor. ?? como se a gente n\u00e3o tivesse mem\u00f3ria. Esse resgate individual \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o anticolonial???, pondera a atriz.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Enquanto constru\u00eda a dramaturgia, a atriz debru\u00e7ou-se sobre livros como Holocausto brasileiro (2013), da jornalista Daniela Arbex, sobre o Hospital Col\u00f4nia de Barbacena; e Mulheres e Loucura: Narrativas de Resist\u00eancia (2020), de Melissa de Oliveira Pereira. Al\u00e9m disso, promoveu debates em seu canal do YouTube com o psic\u00f3logo Lucas Veiga, com a psic\u00f3loga e doula Luiza Ferreira e com a pr\u00f3pria Diana Kolker.\u00a0<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O espet\u00e1culo estreia no M\u00eas da Luta Antimanicomial, \u00a0data que celebra a mudan\u00e7a na forma de lidar com a sa\u00fade mental, deslocando os internos dos hospitais para comunidades e resid\u00eancias terap\u00eauticas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Indicada<\/strong><br \/> J\u00e9ssica Barbosa foi indicada \u00a0ao pr\u00eamio de melhor atriz no Festival do Rio pelo longa O Pai da Rita &#8211; O Filme, de Joel Zito, que estreia em todo o Brasil no pr\u00f3ximo dia 19. Na produ\u00e7\u00e3o, protagonizada e escrita por Wilson Rabelo e Ailton Gra\u00e7a, sobre dois compositores da velha guarda da Vai-Vai. J\u00e9ssica interpreta uma uma poss\u00edvel filha das personagens de Ailton Gra\u00e7a e Wilson Rabelo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A m\u00e3e de Rita foi passista da Vai-vai e namorou os dois. &#8220;Rita, a minha personagem \u00e9 enfermeira e vem do Maranh\u00e3o para S\u00e3o Paulo tentar descobrir quem \u00e9 o pai&#8221;, explicou J\u00e9ssica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do Festival do Rio, dois baianos sa\u00edram premiados: L\u00e1zaro Ramos faturou o pr\u00eamio de melhor dire\u00e7\u00e3o com Medida Provis\u00f3ria, e Sergio Laurentino, que ganhou o pr\u00eamio de melhor ator coadjuvante pelo trabalho no filme A Viagem de Pedro, de La\u00eds Bodanzky.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/localimages\/csm_Ailton_Graca_e_Wilson_Rabelo_comigo_nos_bastidores_3707d8e03a.jpeg626fba7e9d92c.jpeg\" width=\"750\"\/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Ailton Gra\u00e7a e Wilson Rabelo posam para foto com J\u00e9ssica Barbosa nos bastidores de &#8216;O Pai da Rita&#8217;\u00a0<\/strong>(Foto: Acervo Pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9ssica Barbosa n\u00e3o \u00e9 do tipo que deixa as coisas pra depois. 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