{"id":89116,"date":"2022-05-03T00:04:53","date_gmt":"2022-05-03T03:04:53","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/o-que-esta-por-tras-de-nova-epidemia-de-dengue-no-brasil\/"},"modified":"2022-05-03T00:04:53","modified_gmt":"2022-05-03T03:04:53","slug":"o-que-esta-por-tras-de-nova-epidemia-de-dengue-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/03\/o-que-esta-por-tras-de-nova-epidemia-de-dengue-no-brasil\/","title":{"rendered":"O que est\u00e1 por tr\u00e1s de nova epidemia de dengue no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Do in\u00edcio de janeiro a 23 de abril deste ano, o Brasil contabilizou 542.038 casos prov\u00e1veis de dengue e 160 mortes pela doen\u00e7a. O volume de casos nesses poucos meses do ano chegou perto do total de casos prov\u00e1veis de dengue registrados no pa\u00eds em 2021, 544.460.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os n\u00fameros, dispon\u00edveis no \u00faltimo boletim epidemiol\u00f3gico do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, revelam um aumento de 113,7% nas infec\u00e7\u00f5es por esse v\u00edrus, transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti, em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2021.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em alguns locais do pa\u00eds, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior: no Centro-Oeste, o crescimento em compara\u00e7\u00e3o com o ano passado foi de 253,8%. At\u00e9 o momento, a regi\u00e3o registrou 920 casos por 100 mil habitantes ??? em segundo lugar aparece o Sul, com 427 casos por 100 mil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Entre as cinco cidades mais atingidas, as duas primeiras est\u00e3o no Centro-Oeste: Goi\u00e2nia (31 mil casos) e Bras\u00edlia (29,9 mil). Completam a lista Palmas (9 mil), no Tocantins; S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (7,4 mil) e  Votuporanga (6,8 mil), ambas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<ul>\n<li>Quais os sintomas da dengue e como diferenci\u00e1-la da variante \u00f4micron da covid-19<\/li>\n<li>Estudo com bact\u00e9rias em mosquitos reduz infec\u00e7\u00e3o por dengue em 77%<\/li>\n<\/ul>\n<p>&#8220;O que se observa neste ano \u00e9 uma atividade expressiva da dengue em algumas partes do pa\u00eds, em particular no eixo que vai do Tocantins at\u00e9 Santa Catarina, passando pelo Centro-Oeste e pela por\u00e7\u00e3o oeste de S\u00e3o Paulo&#8221;, interpreta a bi\u00f3loga e epidemiologista Cl\u00e1udia Code\u00e7o, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (FioCruz).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas o que est\u00e1 por tr\u00e1s desse cen\u00e1rio? E o que pode ser feito para combat\u00ea-lo? Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam que uma s\u00e9rie de fatores combinados contribu\u00edram para o aumento da dengue justamente neste per\u00edodo.<\/p>\n<h3>Os ingredientes de uma epidemia<\/h3>\n<p>&#8220;Tivemos um clima especialmente favor\u00e1vel \u00e0 dengue neste ano, com chuvas intensas e prolongadas&#8221;, lembra Code\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Desde o final de 2021, quando come\u00e7ou o ver\u00e3o, v\u00e1rias cidades brasileiras registraram muitas tempestades, relacionadas a fen\u00f4menos como o La Ni\u00f1a e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. <\/p>\n<ul>\n<li> Ver\u00e3o de extremos: por que Brasil vive picos de chuvas e calor em 2022<\/li>\n<\/ul>\n<p>Para o <i>Aedes aegypti<\/i>, as chuvas s\u00e3o sin\u00f4nimo de \u00e1gua parada, local onde os ovos do mosquito eclodem e as larvas se desenvolvem at\u00e9 alcan\u00e7arem a fase adulta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Geralmente, quando chega o m\u00eas de dezembro e come\u00e7amos a notar uma grande concentra\u00e7\u00e3o do <i>Aedes<\/i>, j\u00e1 d\u00e1 para prever que mar\u00e7o e abril v\u00e3o ser ruins, com muitos casos de dengue&#8221;, observa o infectologista Celso Granato, diretor do Fleury Medicina e Sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas, na virada de 2021 para 2022, as proje\u00e7\u00f5es foram atrapalhadas por outras duas crises de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, o Brasil enfrentou uma epidemia de influenza H3N2, que causou um aumento importante de casos de gripe, e o espalhamento da variante \u00f4micron do coronav\u00edrus, por tr\u00e1s de recordes nos n\u00fameros de infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Os sistemas de vigil\u00e2ncia da dengue foram muito prejudicados, j\u00e1 que nesses dois \u00faltimos anos havia um foco quase absoluto na pandemia de covid-19&#8221;, acrescenta o m\u00e9dico, que tamb\u00e9m \u00e9 professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp).<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, o menor n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es em 2021 tamb\u00e9m tem a ver com os per\u00edodos de maior isolamento social, que diminu\u00edram a locomo\u00e7\u00e3o das pessoas pelas cidades.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;E vale lembrar que tivemos uma grande epidemia de dengue no pa\u00eds em 2019, ent\u00e3o j\u00e1 era esperado um novo aumento a partir de 2022, j\u00e1 que as ondas da doen\u00e7a s\u00e3o c\u00edclicas&#8221;, diz a m\u00e9dica Melissa Falc\u00e3o, da Sociedade Brasileira de Infectologia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por fim, Code\u00e7o destaca que &#8220;temos uma popula\u00e7\u00e3o empobrecida, com dificuldades de moradia, e vemos a precariza\u00e7\u00e3o das cidades&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Tudo isso dificulta o controle de vetores que transmitem a doen\u00e7a&#8221;, explica a especialista, que coordena o InfoDengue, uma iniciativa da FioCruz e da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV) para o monitoramento das doen\u00e7as relacionadas ao<i> Aedes<\/i>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m \u00e9 importante observar o espalhamento da doen\u00e7a para o Sul do pa\u00eds, onde ela era pouco ativa ou quase inexistente. Essa expans\u00e3o pode estar relacionada \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 pr\u00f3pria adapta\u00e7\u00e3o do mosquito&#8221;, complementa a epidemiologista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A tend\u00eancia, de acordo com o que aconteceu nas temporadas anteriores, \u00e9 que os casos de dengue continuem a subir no pa\u00eds pelo menos at\u00e9 o meio de maio. A partir da\u00ed, com a chegada de temperaturas mais baixas nas regi\u00f5es Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, os registros devem voltar a cair.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Os n\u00fameros da dengue costumam ser mais elevados durante ver\u00e3o, por causa da alta temperatura e da quantidade de chuvas, mas o per\u00edodo de ascens\u00e3o da doen\u00e7a come\u00e7a em outubro e vai at\u00e9 maio. A tend\u00eancia \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o mais acentuada no n\u00famero de casos a partir de junho&#8221;, estipula Falc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo assim, os cuidados de preven\u00e7\u00e3o contra dengue devem acontecer durante todo o ano&#8221;, ressalta a infectologista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Detectadas as causas do problema, o que pode ser feito para lidar com essa epidemia oculta de dengue?<\/p>\n<h3>A resposta das autoridades<\/h3>\n<p>Como n\u00e3o existe uma vacina aprovada contra a dengue, as a\u00e7\u00f5es preventivas mais efetivas envolvem eliminar os criadouros do mosquito transmissor ??? e o ideal \u00e9 que esse trabalho se inicie em janeiro ou fevereiro, quando os ovos come\u00e7am a eclodir.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Com a pandemia, sobraram menos recursos para combater o <i>Aedes<\/i>&#8220;, diz Granato.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Agora em abril, existem menos a\u00e7\u00f5es que podem ser feitas. &#8220;Resta apostar no fumac\u00ea, que ajuda a inibir o mosquito adulto&#8221;, completa o infectologista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Outra atitude importante \u00e9 ampliar e refor\u00e7ar os servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, para conseguir acolher os pacientes com complica\u00e7\u00f5es da dengue.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O boletim epidemiol\u00f3gico do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade contabiliza neste ano 378 epis\u00f3dios de dengue grave e outros 4,7 mil com sinais de alarme.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Granato tamb\u00e9m se mostra preocupado com a recorr\u00eancia da dengue em regi\u00f5es que j\u00e1 tiveram surtos e epidemias num passado recente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Existem quatro sorotipos do v\u00edrus, o que significa que uma mesma pessoa pode pegar dengue quatro vezes. O problema \u00e9 que ter um segundo ou um terceiro quadro da doen\u00e7a aumenta o risco de sofrer com as formas mais graves&#8221;, explica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;E temos algumas regi\u00f5es, especialmente no noroeste de S\u00e3o Paulo, que passam por surtos de dengue desde os anos 1980. Isso representa maior risco de morte nesses locais&#8221;, continua.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A BBC News Brasil entrou em contato com as Secretarias Estaduais de Sa\u00fade de Goi\u00e1s, Distrito Federal, Tocantins e S\u00e3o Paulo, locais com as cidades mais atingidas at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A secretaria do Distrito Federal afirmou que promove sempre a\u00e7\u00f5es de combate ao <i>Aedes<\/i> em todas as regi\u00f5es administrativas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Semanalmente \u00e9 realizada uma an\u00e1lise da incid\u00eancia de casos por regi\u00e3o e tamb\u00e9m das cidades em que h\u00e1 maior presen\u00e7a do mosquito. Ap\u00f3s essa an\u00e1lise, as regi\u00f5es que apresentam maior aumento passam a receber uma intensifica\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, inclusive com o uso do UBV Pesado [fumac\u00ea], que \u00e9 apenas uma das estrat\u00e9gias utilizadas no combate ao mosquito.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 os representantes de Goi\u00e1s admitem que &#8220;o avan\u00e7o dos casos colocam o Estado em situa\u00e7\u00e3o de alerta para a possibilidade de uma epidemia por dengue&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A Secretaria Estadual de Sa\u00fade vincula o aumento expressivo da infesta\u00e7\u00e3o do <i>Aedes aegypti <\/i>e da quantidade de casos das doen\u00e7as causadas pelo vetor \u00e0 intensidade das chuvas e \u00e0 baixa ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o em limpar os seus domic\u00edlios.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A secretaria de S\u00e3o Paulo destacou que o n\u00famero de casos no Estado est\u00e1 mais baixo (ou ligeiramente parecido) em 2022 na compara\u00e7\u00e3o com 2021, apesar da situa\u00e7\u00e3o ruim de algumas cidades neste ano.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Conforme as diretrizes do Sistema ??nico de Sa\u00fade, o trabalho de campo para combate ao mosquito transmissor da dengue compete primordialmente aos munic\u00edpios.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Secretaria Estadual de Sa\u00fade do Tocantins e o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade foram procurados, mas n\u00e3o enviaram respostas at\u00e9 o fechamento desta reportagem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Falc\u00e3o entende que as pol\u00edticas p\u00fablicas precisam se reinventar e apostar em novas tecnologias no combate ao mosquito. &#8220;J\u00e1 vimos que o que tem sido feito ao longo dos \u00faltimos anos n\u00e3o surtiu efeito.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Outro ponto-chave \u00e9 o investimento em infraestrutura, no saneamento b\u00e1sico, levando a uma parcela cada vez maior da popula\u00e7\u00e3o acesso ao abastecimento de \u00e1gua, sistema de esgotos, coleta de lixo e drenagem de \u00e1guas pluviais&#8221;, lista a m\u00e9dica.<\/p>\n<h3>O que voc\u00ea pode fazer<\/h3>\n<p>Al\u00e9m das pol\u00edticas p\u00fablicas, os especialistas chamam a aten\u00e7\u00e3o para as responsabilidades individuais no combate \u00e0 dengue.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Aqui entram aquelas recomenda\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas de evitar qualquer reservat\u00f3rio de \u00e1gua parada sem prote\u00e7\u00e3o em casa. O mosquito pode usar como criadouros grandes espa\u00e7os, como caixas d&#8217;\u00e1gua e piscinas abertas, at\u00e9 pequenos objetos, como tampas de garrafa e vasos de planta.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vale fazer uma faxina no quintal e na varanda, com especial aten\u00e7\u00e3o para dep\u00f3sitos, calhas e objetos que ficam ao relento e podem acumular \u00e1gua da chuva.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Instalar telas em portas e janelas ou usar repelentes na pele s\u00e3o atitudes que tamb\u00e9m podem ajudar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 importante ficar atento aos sintomas da dengue, como febre, cansa\u00e7o, vermelhid\u00e3o em partes do corpo, coceira e dores na cabe\u00e7a, nos m\u00fasculos, nas articula\u00e7\u00f5es ou atr\u00e1s dos olhos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a, a recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer repouso, caprichar na hidrata\u00e7\u00e3o e, se necess\u00e1rio, usar rem\u00e9dios que aliviam alguns desses inc\u00f4modos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Todos precisam conhecer os sinais de que a doen\u00e7a pode estar evoluindo para as formas mais graves. Os principais s\u00e3o v\u00f4mitos dif\u00edceis de controlar, febre que n\u00e3o diminui, dor na barriga e sangramentos&#8221;, lista Granato.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Nessa situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial procurar um pronto-socorro o mais r\u00e1pido poss\u00edvel&#8221;, conclui o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <\/b>Inscreva-se no canal<b>.<\/b><\/p>\n<p><b>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <\/b>YouTube<b>? Inscreva-se no nosso canal! <\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do in\u00edcio de janeiro a 23 de abril deste ano, o Brasil contabilizou 542.038 casos prov\u00e1veis de dengue e 160 mortes pela doen\u00e7a. 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