{"id":96725,"date":"2022-05-05T04:05:31","date_gmt":"2022-05-05T07:05:31","guid":{"rendered":"http:\/\/primeirojornal.com.br\/2022\/05\/licenca-de-mina-e-ordem-de-despejo-para-biodiversidade-na-serra-do-curral\/"},"modified":"2022-05-05T04:05:31","modified_gmt":"2022-05-05T07:05:31","slug":"licenca-de-mina-e-ordem-de-despejo-para-biodiversidade-na-serra-do-curral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetabaiana.com.br\/index.php\/2022\/05\/05\/licenca-de-mina-e-ordem-de-despejo-para-biodiversidade-na-serra-do-curral\/","title":{"rendered":"Licen\u00e7a de mina \u00e9 &#8216;ordem de despejo&#8217; para biodiversidade na Serra do Curral"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Inocentes, pequenos p\u00e1ssaros piavam ao saltar entre as \u00e1rvores em tr\u00eas bosques, de uma mata a outra. Beija-flores alheios \u00e0s decis\u00f5es dos homens mergulhavam em arbustos de flores coloridas. No solo duro e escuro de canga de min\u00e9rio de ferro, aranhas teciam teias para capturar alimento, besouros corriam para n\u00e3o se tornarem presas e cactos raros, amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o, tomavam sol formando canteiros com outras esp\u00e9cies dos campos rupestres. Todos os habitantes desses ninhos, tocas, teias e jardins est\u00e3o com os dias contados, pois a sua morada e h\u00e1bitat j\u00e1 pode ser desmatada, escavada e eliminada de um trecho da Serra do Curral.<\/p>\n<\/div>\n<div>Ontem (4\/5), mesmo dia em que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Renov\u00e1veis (Semad) de Minas Gerais deferiu as licen\u00e7as pr\u00e9via e de instala\u00e7\u00e3o para que a Taquaril Minera\u00e7\u00e3o S\/A (Tamisa, do Grupo Cowan) minere na Serra do Curral, a reportagem do Estado de Minas\u00a0 foi aos locais exatos onde a\u00e7\u00f5es como desmatamento para preparar o canteiro da minera\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica, j\u00e1 est\u00e3o autorizadas.<\/p>\n<\/div>\n<div>Os licenciamentos ??? que ainda n\u00e3o permitem o explora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio de ferro ??? foram dados apenas dois dias \u00fateis depois de os integrantes do Conselho Estadual de Pol\u00edtica Ambiental (Copam), ligados ao setor produtivo e aos \u00f3rg\u00e3os de governo, vencerem por 8 a 4, em vota\u00e7\u00e3o que se estendeu pela madrugada de 30 de abril, os representantes de organiza\u00e7\u00f5es ambientais e sociedade civil, permitindo a instala\u00e7\u00e3o do empreendimento Mina Ana da Cruz, na Serra do Curral, em Nova Lima.<\/p>\n<\/div>\n<div>As permiss\u00f5es causaram indigna\u00e7\u00e3o em boa parte da popula\u00e7\u00e3o, movimentando ambientalistas, promotores, procuradores, vereadores, deputados estaduais e a Prefeitura de Belo Horizonte. A \u00e1rea do empreendimento \u00e9 de 1.250 hectares (3,7 vezes o tamanho do Parque das Mangabeiras), onde ser\u00e3o abertas estradas, p\u00e1tios de beneficiamento, tr\u00eas escava\u00e7\u00f5es (cavas) de extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro e duas pilhas de rejeitos, o que pode trazer impactos e, segundo ambientalistas, comprometer a cadeia montanhosa que \u00e9 um s\u00edmbolo mineiro.<\/p>\n<\/div>\n<div>As denominadas Cava Norte e Cava Oeste, segundo os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relat\u00f3rios de Impacto ao Meio Ambiente (Rima) encomendados pela pr\u00f3pria empresa circundam a posi\u00e7\u00e3o do Pico Belo Horizonte, o ponto culminante da Serra do Curral. A escava\u00e7\u00e3o para retirada de min\u00e9rio ao norte ficar\u00e1 a apenas 500 metros da forma\u00e7\u00e3o montanhosa mais alta da cadeia, enquanto a Oeste \u00e9 a mais preocupante, situada a apenas 150 metros da montanha, abocanhando e amea\u00e7ando, inclusive, a sua base de sustenta\u00e7\u00e3o. Alerta j\u00e1 feito pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP) de Minas Gerais.<\/p>\n<\/div>\n<div>A Cava Norte, com mais de seis hectares, se abrir\u00e1 do outro lado dos taludes interditados da Mina de Pau Branco, da mineradora Empabra, barrada pelo poder p\u00fablico e principalmente pela PBH de continuar atuando no sop\u00e9 do Pico Belo Horizonte. O local \u00e9 severamente degradado, com eros\u00f5es e desmoronamentos, carecendo de medidas de recomposi\u00e7\u00e3o. Os receios s\u00e3o de que qualquer atividade miner\u00e1ria nesse local fecharia a chamada Trilha das Aguinhas, que perpassa vales \u00edngremes como c\u00e2nions e \u00e9 um dos sonhos de circuitos do ecoturismo para aventureiros e trilheiros.<\/p>\n<\/div>\n<div>Mas a respons\u00e1vel por tirar o sono dos que n\u00e3o querem a minera\u00e7\u00e3o na Serra do Curral \u00e9 a Cava Oeste, bem abaixo do Pico Belo Horizonte e com cerca de 22 hectares, quase tr\u00eas vezes a mancha de destrui\u00e7\u00e3o prevista para a escava\u00e7\u00e3o norte. Al\u00e9m da proximidade com o pico que comp\u00f5e a visada da crista da serra, a \u00e1rea prevista para ser desmatada e escavada \u00e9 recheada de vida.<\/p>\n<\/div>\n<div>Sobre a canga, que \u00e9 um solo composto de min\u00e9rio duro e escuro, a natureza conseguiu criar extratos org\u00e2nicos que sustentam gram\u00edneas, trepadeiras, ramos, arbustos e \u00e1rvores em tr\u00eas grandes bosques distintos. Nessas matas, que tingem o preto e o cinza da canga de verde, h\u00e1 ninhos de p\u00e1ssaros, flores para os beija-flores das montanhas e os terrenos de ca\u00e7a de aranhas e besouros.<\/p>\n<\/div>\n<div>Entre flores, arbustos espinhosos e \u00e1rvores de troncos tortuosos se alastram os pequenos cactos amea\u00e7ados Arthrocereus glaziovii (Cactaceae), que afloram em grupos pequenos buscando espa\u00e7os nas fraturas das rochas. A esp\u00e9cie s\u00f3 existe na Serra do Espinha\u00e7o, mais especificamente no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero, onde tem perdido espa\u00e7os para a minera\u00e7\u00e3o. Para a instala\u00e7\u00e3o da Cava Oeste do empreendimento, todo esse ecossistema ser\u00e1 desfeito, podendo ser dizimado do local.<\/p>\n<\/div>\n<div>???Al\u00e9m de representar mais perda de \u00e1reas de ecossistemas de cangas, h\u00e1 esp\u00e9cies amea\u00e7adas que ser\u00e3o atingidas e impactadas pela perda e fragmenta\u00e7\u00e3o do seu h\u00e1bitat. Destacam-se a perereca-de-folhagem-com-perna-reticulada (Pithecopus ayeaye) e o cacto Arthrocereus glaziovii, end\u00eamico das cangas do Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero. Ambos t\u00eam na minera\u00e7\u00e3o sua principal amea\u00e7a e j\u00e1 foram impactados por outros projetos de compensa\u00e7\u00e3o, por supress\u00e3o na mata atl\u00e2ntica, pautados e aprovados???, afirma a ambientalista Maria Tereza Viana de Freitas Corujo, que participa, entre outros, do SOS Serra da Piedade, Movimento pela Preserva\u00e7\u00e3o da Serra do Gandarela e Movimento pelas Serras e \u00c1guas de Minas (MovSAM), refor\u00e7ando um dos pareceres contr\u00e1rios ao empreendimento, proferido pela Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).<\/p>\n<\/div>\n<div>A \u00e1rea que a Tamisa pretende minerar tamb\u00e9m pode impactar uma s\u00e9rie de cavernas, das 49 identificadas pelos EIA e Rima encomendados para viabilizar a atividade. De acordo com o professor de qu\u00edmica Luciano Faria, pesquisador em espeleologia e ambientalista, pelo menos duas cavernas de m\u00e9dia e alta relev\u00e2ncias cient\u00edficas est\u00e3o exatamente dentro de uma das cavas, a Oeste, e fatalmente ser\u00e3o desmanchadas. ???Sem falar da proximidade muito grande de outras cavernas de alta import\u00e2ncia, sendo que uma das amea\u00e7adas \u00e9 de m\u00e1xima relev\u00e2ncia e n\u00e3o poderia sofrer impactos diretos ou indiretos, estando a menos de 300 metros do projeto e tendo em seu interior uma esp\u00e9cie de aracn\u00eddeo que foi t\u00e3o pouco estudado que nem nomenclatura recebeu ainda. A meu ver, um projeto desses jamais deveria ser licenciado???, critica.<\/p>\n<h2><b>Ciclistas preparam abra\u00e7o simb\u00f3lico<\/b><\/h2>\n<div><b>Ana Magalh\u00e3es*<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Grupos de ciclistas de Belo Horizonte e regi\u00e3o metropolitana v\u00e3o fazer um movimento em defesa da Serra do Curral no domingo. Com sa\u00edda prevista para as 8h, os ciclistas pretendem pedalar da Pra\u00e7a da Liberdade, na Regi\u00e3o Centro-Sul da capital, at\u00e9 a Israel Pinheiro, mas conhecida como Pra\u00e7a do Papa, no Bairro Mangabeiras, em ato que culminar\u00e1 em abra\u00e7o simb\u00f3lico no cart\u00e3o-postal natural da capital mineira.<\/p>\n<\/div>\n<div>At\u00e9 ontem, 13 grupos de pedal j\u00e1 haviam aderido \u00e0 a\u00e7\u00e3o. ????? importante que todos n\u00f3s possamos defender a fauna, a flora, as nascentes e as futuras gera\u00e7\u00f5es. A atividade da minera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante, por\u00e9m com as duas feridas abertas em Minas Gerais (os desastres de Mariana e Brumadinho), \u00e9 preciso tomar muito cuidado e estudar bastante, sobretudo por conta da adutora presente no local???, disse o organizador da a\u00e7\u00e3o e criador do grupo Thod, Gilberto Gon\u00e7alves, de 51 anos.<\/p>\n<\/div>\n<div>Segundo Gilberto, o licenciamento do projeto de minera\u00e7\u00e3o da empresa Taquaril Minera\u00e7\u00e3o S.A. (Tamisa) acelerou a decis\u00e3o sobre o movimento, que j\u00e1 vinha sendo cogitado antes. ???J\u00e1 tem um tempo que est\u00e1vamos pensando em fazer algo relacionado \u00e0 Serra do Curral e ao Pico BH, pois temos uma liga\u00e7\u00e3o muito forte com esses locais. Os grupos de pedal costumam praticar a modalidade esportiva nesses lugares e, com as \u00faltimas not\u00edcias, nos empenhamos em fazer o movimento???, contou.<\/p>\n<\/div>\n<div>O corredor destinado ao complexo miner\u00e1rio da Tamisa \u00e9 usado como trilha por ciclistas. ???L\u00e1 est\u00e1 uma antiga linha f\u00e9rrea abandonada, que \u00e9 patrim\u00f4nio hist\u00f3rico do Brasil, e, dessa maneira, para fazer qualquer projeto \u00e9 necess\u00e1rio conseguir aprova\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Quer\u00edamos fazer a Ouro Trilha, que liga BH a Ouro Preto, e n\u00e3o conseguimos porque ainda n\u00e3o tivemos autoriza\u00e7\u00e3o do Departamento Nacional de Infraestrutura de Tr\u00e2nsportes (Dnit). Como uma mineradora tomar\u00e1 ???posse??? da estrada? ???, questionou o organizador da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div>O acesso ao Pico BH tamb\u00e9m \u00e9 outra quest\u00e3o, pois os grupos de pedal n\u00e3o sabem se poder\u00e3o continuar frequentando o ponto tur\u00edstico. ???Estamos tamb\u00e9m pre- ocupados se, ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o da atividade mineradora, o pico sofrer\u00e1 alguma eros\u00e3o ou dano irrepar\u00e1vel???, completa Gilberto.<\/p>\n<\/div>\n<div>Apesar de admitir a possibilidade de o movimento perder alguma for\u00e7a pelo fato de domingo ser Dia das M\u00e3es, Gilberto n\u00e3o desanima. ????? uma \u00f3tima data, j\u00e1 que a ???m\u00e3e natureza??? precisa de todos n\u00f3s e, como ela n\u00e3o tem, digamos assim, uma voz, podemos nos manifestar por ela???, defendeu.<\/p>\n<\/div>\n<div>O Juntos na Bike \u00e9 um dos grupos que participar\u00e3o do ato no domingo. ???Recebemos o convite e estamos mobilizados para proteger a Serra do Curral e a sua preserva\u00e7\u00e3o. A partir das redes sociais, fomos nos juntando para defender a causa???, contou Gleiberson Fernando, de 39, idealizador do grupo esportivo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>* Estagi\u00e1ria sob supervis\u00e3o da subeditora Rachel Botelho<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inocentes, pequenos p\u00e1ssaros piavam ao saltar entre as \u00e1rvores em tr\u00eas bosques, de uma mata a outra. 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